sexta-feira, 24 de abril de 2020

Projeto Lendo a estante: apresentação e primeiras leituras

Que leitor nunca ouviu falar da palavra tsundoku, o ato de acumular pilhas de livros não lidos? Que leitor nunca se sentiu representado por ela?

Olha essa bela estante cheia de livros não lidos!

Acho interessante pensar na minha trajetória de leitora. Antes só comprava/ganhava livros em épocas especiais, e me contentava em relê-los várias vezes, alternando com livros emprestados por aí. Conforme fui crescendo, no entanto, descobri o apelo dos grandes sites com seus saldos de livro a menos de dez reais. Fiz a festa, inúmeras vezes. Percebi que já não gostava de pagar trinta, quarenta reais em um livro que queria muito quando podia comprar outros três ou quatro livros com esse dinheiro. O que aconteceu com o tempo? Pilhas que se acumularam, ao mesmo tempo que lia livros alugados da biblioteca ou e-books. O período da biblioteca, no entanto, foi importante para perceber que eu não precisava ter tantos livros. Com tanta opção por aí, a releitura não era mais minha prioridade e comprar livros por curiosidade e pelo preço baixo me parecia um exagero quando se podia alugá-lo de graça. E atualmente não tenho comprado tanto, e também não tenho ido a bibliotecas há um tempinho, mas os e-books são tentações constantes que me fazem deixar os livros da estante de lado de vez em quando.

Baseada no blog 746 Books, decidi finalmente contar quantos livros não lidos tenho na minha estante e cheguei no número redondo de 250. A ideia do projeto Lendo a estante é ler os livros e comentar um pouco sobre eles: o que motivou minha compra (ou o motivo pelo que ele chegou até mim), por que os li agora (se adiei muito a leitura, isso mudou minha opinião do livro? Já perdi a vontade de lê-lo? Etc.) e o que achei. O objetivo com isso é refletir um pouco sobre meu consumo e meus hábitos de leitura. Não vou ler só livros da estante durante o ano, mas quero ter o projeto em mente sempre que for decidir minha próxima leitura.

Tenho a meta numérica de terminar o ano com 200 livros não lidos na estante, em vez de 250, mas tenho consciência de que isso talvez não seja possível, porque continuo comprando livros. Então a meta mais verdadeira é ler 50 livros da estante, não importando o número que vai ficar no final. Pretendo postar dois ou três livros de cada vez no blog, e como sempre já começo atrasada, com os primeiros livros do ano.

As garotas, Emma Cline
Por que tenho: Comprei o livro em uma promoção da Saraiva on-line por 9,90 ano passado. Fiquei interessada pelo livro desde o lançamento, pelo hype criado pelos blogs gringos, mas vi críticas negativas também, então esperei por um preço realmente bom para comprar.
Por que li agora: É um livro que não está há tanto tempo na estante, então não deu tempo de enjoar dele, e me parecia uma leitura de fácil envolvimento, que era o que eu queria para a minha primeira leitura do ano. Usei o livro para a categoria “inspirado em uma notícia” no Around the Year.
O que achei: O livro tinha mesmo a atmosfera que eu esperava, com uma narrativa coming of age que me prendeu de início ao fim. Eu não conhecia muito sobre cultos, então achei interessante esse aspecto do enredo, mas o foco é mais na atração que a protagonista sente pelo culto ficcional estilo Charles Manson do que propriamente nos crimes que ocorreram. Gostei bastante da caracterização da Califórnia dos anos 60 e do tédio juvenil da protagonista. Eu não morro de amores pelos filmes da Sofia Coppola, mas esse livro me lembrou da obra da diretora. 
Avaliação: 4/5

As águas-vivas não sabem de si, Aline Valek
Por que tenho: Acompanho a newsletter da Aline faz um tempinho, e gosto muito da escrita dela. Não leio tanta ficção científica, mas os elogios ao livro e a capa linda me fizeram dar uma chance, comprando-o em uma promoção por metade do preço.
Por que li agora: Sorteei o tema “livro que se passa em um lugar ou época em que não gostaria de morar” no Around the year e essa foi minha primeira ideia — definitivamente não quero morar no fundo do oceano. Esse foi um dos muitos livros da minha lista adiados por um motivo simples: preguiça. Mesmo que minha irmã já tivesse lido e me assegurado que é uma leitura fácil, ainda fiquei com a ideia de que não seria tão instigante pelo que vi de outras pessoas falando sobre os capítulos narrados pelos seres marinhos.
O que achei: Minha irmã tinha razão — não foi uma leitura complicada. É um livro diferente do que tenho lido, mas a Aline Valek conseguiu criar uma ótima ambientação e quase me senti no fundo do mar junto com a Corina. Teve algumas partes que achei mais entediantes, mas no geral fiquei bem envolvida na história.
Avaliação: 4/5

terça-feira, 7 de abril de 2020

Os (realmente não tão) últimos filmes que eu vi #24

Os filmes da vez foram vistos no final de 2016. Isso significa que tenho três anos de filmes atrasados para postar. Eu até desistiria e começaria do zero, se não tivesse algumas das resenhas deles escritas em papel. Nos próximos posts talvez eu comece a fazer metade de filmes que vi nessa época e metade dos filmes atuais. Por enquanto, fiquemos com o passado distante, quando a gente podia pensar em sair de casa e aproveitar a programação cultural da cidade.

1- Sarusuberi: Miss Hokusai (Keiichi Hara, Stephanie Sheh e Michael Sinterniklaas, 2015)
A animação japonesa conta a história da filha do pintor Hokusai mostrando como funcionava o mercado de arte na época e a diferença no tratamento entre homens e mulheres do ramo. O filme tem umas partes bem bonitas, mas faltou alguma coisa — ele explora vários elementos, como o romance, o relacionamento familiar e até um tom de fantasia, mas no final fiquei sem entender qual era exatamente a mensagem a ser passada. Avaliação: 3,5/5

2- Um homem sério (Ethan e Joel Coen, 2009)
Eu nem sei o que foi que me levou a ter vontade de ver esse filme. Talvez ele tenha sido elogiado na época do lançamento? Talvez a banalidade da sinopse tenha me conquistado? Talvez parecesse um bom começo para alguém conhecer a obra dos irmãos Coen? São questões. O fato é que demorei tanto para vê-lo, quando estava nas vésperas de sair do catálogo da Netflix, e aí eu já conhecia outros filmes dos diretores (Queime depois de ler — não entendi e Inside Llewyn Davis: balada de um homem comum  — gostei). Minha opinião a respeito de Um homem sério é a mistura do que achei dos outros: não entendi e gostei. Toda questão religiosa do judaísmo não faz muito sentido para mim, que nunca me envolvi com religião. Mas algo me atraiu nessa história banal de um homem banal, mesmo que eu não saiba dizer o que é. Para mim, isso foi mais que o suficiente. Avaliação: 3,5/5

3- Feitiço do tempo (Harold Ramis, 1993)
Quantas referências a esse filme você já viu por aí? Eu já vi tantas que senti necessidade de vivenciar o tal Dia da Marmota. O filme tem aquele esquema óbvio de "é errando que se aprende", com Bill Murray interpretando um carinha da previsão do tempo chato demais que aos poucos vai entendendo como pode se tornar uma pessoa melhor. Eu adoro esse tipo de estrutura repetitiva, então o filme já tinha pontos garantidos, mas não tive nenhuma empatia com o protagonista, ou seja: por mim ele bem que poderia se dar mal. Avaliação: 3,5/5

4- Os reis do verão (Jordan Vogt-Roberts, 2013)
Conheci o filme pelo pôster de jovens pulando em um lago e fiquei interessada sem nem saber sobre o que era. Acontece que é um filme masculino demais, focado em três garotos que se cansam da vida familiar e vão morar por conta própria na floresta. É um filme bonitinho, com um clima de Conta comigo e tal, mas achei o protagonista muito chato e os personagens em geral um tanto rasos. Quem rouba a cena é o Biaggio, o alívio cômico que merecemos. Avaliação: 3,5/5

5- A bela e a fera (Jean Cocteau, 1946)
No projeto de ver um filme dos 1001 por mês, há meses em que vejo aquilo que quero e outros que assisto a algo aleatório por ser mais prático. Vamos aproveitar oportunidades, não é mesmo? Vi A bela e a fera em uma mostra de fantasia do Cinusp. Apesar da releitura do conto de fadas ser bem anterior à animação da Disney, é um pouco difícil não comparar as duas. Isso tira um pouco da graça do filme, porque o básico da história é o mesmo. Mesmo assim, o visual é bem impactante. O castelo da Fera pode não ter os objetos falantes da versão da Disney, mas não deixa de ser mágico do seu modo. Ainda assim, talvez o filme tenha envelhecido mal para mim. Foi uma experiência interessante assisti-lo, mas não me marcou. Avaliação: 3/5

6- Oxalá cresçam pitangas: histórias de Luanda (Kiluanje Liberdade e Ondjaki, 2007)
Vi esse documentário na aula de literatura africana focada em Angola. O filme fala sobre a cidade de Luanda, acompanhando alguns personagens de diferentes tipos. O formato é bem convencional e funciona para o que o filme propõe, apresentando um panorama da cidade para quem não a conhece. Avaliação: 3,5/5 

7- As patricinhas de Beverly Hills (Amy Heckerling, 1995) 
Eu sei racionalmente que já tinha visto esse filme antes, mas como não lembrava de nada achei que valeria a pena vê-lo novamente. É um filme adolescente típico e hoje se tornou icônico, mas não é um dos meus favoritos. Tenho raiva da Cher ser ~clueless~ e odeio que a Tai passe por um makeover e goste disso. Eu sei que o filme desconstrói  um pouco os estereótipos, mas não o suficiente. Sem problematizar, é um filme bem divertido, mas ainda prefiro filmes adolescentes da minha geração. Avaliação: 3,5/5


8- A ratinha valente (Don Bluth, 1982)
Essa animação é bem conhecida nos Estados Unidos, mas aqui não parece ter feito muito sucesso. A estética e o enredo lembram um pouco os filmes da idade das trevas da Disney; o filme não reluta em mostrar um pouco de sangue, e a ideia por trás do NIMH também é meio sombria para o universo infantil. Gosto do fato da protagonista ser uma ratinha que é mãe viúva: se é raro ver fêmeas como personagens principais em filmes de animais, imagina então protagonistas adultas e mães? Dito isso, o roteiro em si infelizmente não empolga. A aventura é bem tradicional, tem um deus ex machina fortíssimo, e alguns personagens são bem clichês. Avaliação: 3/5

9- Os sete suspeitos (Jonathan Lynn, 1985)
É um filme baseado no jogo de tabuleiro Detetive!!! E a adaptação funciona. Precisa suspender um pouco a descrença, é claro, mas as coisas se encaixam. Na verdade, eu já tinha visto esse filme antes, mas só me lembrava de umas cenas e de que tinha vários finais. Fiquei surpresa com o conteúdo político do enredo, que provavelmente eu não tinha entendido quando vi pela primeira vez e que continuei sem entender completamente agora (ops), e que envolve macartismo e tal. É claro que esse é só o pano de fundo dos personagens, a história se passa apenas em uma mansão com ares mal-assombrados e o tom que prevalece é de humor negro. E eu realmente não lembrava o quanto o filme era engraçado. É um humor ridículo na maior parte do tempo, sim, mas quem se importa? Eu dei gostosas risadas. Lá pelo final, no entanto, todo esse exagero começa a cansar e você só quer saber quem matou, com que arma e em que aposento. E os fins em si são interessantes, mas também um pouco cansativos. Ainda assim, fica a recomendação. Avaliação: 3,5/5 

10- Zelig (Woody Allen, 1983)
Revi o filme do Woody Allen sobre um homem-camaleão para uma disciplina da faculdade. Confesso que essa revisitação foi um pouco decepcionante — o formato de documentário não teve tanto impacto já que eu sabia o que viria a seguir. Acabei achando um filme que só tem uma hora e vinte meio cansativo. Mas isso não significa que Zelig não seja bom. Ele continua sendo um dos meus favoritos entre aquilo que vi do Woody Allen, justamente por ser um dos mais diferentes. Avaliação: 4/5 

quinta-feira, 26 de março de 2020

Retrospectiva: 2019

No ano de 2019 eu postei no blog um total de zero vezes. E eu não sei bem o motivo. Acho que blogar é uma questão de hábito e de repente as coisas se acumulam e não dá mais vontade de continuar. Também tem o fato de que quase ninguém mais bloga atualmente, então que incentivo eu tenho para continuar? Mas 2020 é um novo ano e com ele vem novas tentativas! Quem sabe o blog volte de verdade, porque tenho escrito mais mesmo sem publicar, ou quem sabe ele morra afogado de vez.

Por enquanto, fico aqui com uma retrospectiva de coisas legais do ano passado, como se 2020 tivesse acabado de começar e não estivéssemos no final de março já.

Livros
Em 2019 participei do Around the year in 52 books, um desafio para ler 52 livros no ano, parecido com o da Popsugar e outros genéricos. Minha parte favorita é que os temas do desafio são votados pelos participantes, então é divertido participar desse processo de construção da lista, ainda que haja muitas reviradas de olhos e frustração porque, adivinha só, pessoas são diferentes entre si e têm outras preferências e nem todo mundo é da mesma bolha internética!
Ano passado também comecei a anotar minhas leituras numa planilha, para poder analisar o que eu leio. O que eu descobri não é muito surpreendente: leio um pouco mais de autoras mulheres, mais autores brancos (72%) e mais ficção contemporânea. Um terço dos livros que li foi escrito por alguém americano, o que achei uma porcentagem surpreendentemente baixa considerando a dominação do mercado. Assinei por uns meses o Kindle Unlimited e por isso li vários livros nacionais (21%).
Preencher essa planilha, que ainda trazia questões sobre diversidade, me trouxe uma série de questões; como leio bastante coisa japonesa, sempre ficava em dúvida se colocava os livros como diversos ou não. O que é diversidade deve ser visto a partir da minha perspectiva ou da deles? Ao mesmo tempo, ficava triste toda vez que marcava com certeza absoluta que o livro não era diverso, apenas com personagens brancos e héteros.
Para 2020, fica o desejo de ler mais diversidade, mas com consciência que minha prioridade é diminuir minha pilha de livros não lidos. Pretendo fazer um projeto desencalhando livros da estante e contando um pouco sobre eles, para analisar porque demorei para lê-los e se isso mudou algo na minha avaliação do livro.
Segue uma lista das minhas leituras favoritas de 2019:
  • A gigantesca barba do mal, Stephen Collins
  • História do novo sobrenome, Elena Ferrante
  • Querida konbini, Sayaka Murata
  • Disgrace, J. M. Coetzee
  • Coração azedo, Jenny Zhang 

    Filmes
    Vi 84 filmes em 2019, o que é um número alto para meus padrões. No último semestre da faculdade, descobri que tinha direito a uma assinatura gratuita universitária do Mubi, e aproveitei bastante essa oportunidade. Assisti a filmes desconhecidos só porque pareciam interessantes, algo que não fazia há bastante tempo, e fiquei bem mais incentivada para ver filmes de países diferentes e clássicos esquecidos.
    Também fiz uma planilha com os filmes que vi e os resultados são um pouco mais tristes do que os livros. Mais que 75% dos filmes assistidos foi dirigido por um homem, e 45% dos filmes são americanos.
    Para 2020, pretendo ver um filme dirigido por mulher por mês, além de continuar vendo um filme dos 1001 para ver antes de morrer e uma animação por mês.
    Meus filmes favoritos de 2019 foram:
    • Mensagem para você (1998)
    • Buscando... (2018)
    • Homem-Aranha no Aranhaverso (2018)
    • Tito e os pássaros (2018)
    • Ingrid vai para o oeste (2017)
    • A criada (2016)
    • Oitava série (2018)
    • A pele que habito (2011)
    • Bacurau (2019)
    • Cara gente branca (2014)

    Séries 
    Meu ritmo irregular de ver séries continuou em 2019. Essas são algumas coisas que gostei bastante de ver:
    • Mad men, sétima temporada (finalmente terminei!)
    • Fleabag, segunda temporada (sou do time que não gostou muito da primeira)
    • Are you the one?, oitava temporada (essa é a temporada sexualmente fluida e fico triste de verdade que pouca gente no Brasil ligue para esse reality)
    • Terrace House: boys and girls next door (não terminei de ver e tem partes meio entediantes, mas o arco do Daiki é maravilhoso e o elenco em geral é bem mais entrosado do que dos THs seguintes)
    • Aggretsuko, primeira temporada
    • Mozart in the jungle, terceira temporada

    Outras coisas
    Coisas aleatórias que descobri ou gostei de ver em 2019:
    • O canal da Safiya Nyygard: nunca pensei que gostaria de uma youtuber que fala principalmente de estilo e maquiagem, mas gosto bastante do jeito investigativo dos vídeos da Safiya. Meus favoritos são os de viagens, mas tenho um carinho especial pelos experimentos misturando as maquiagens. Posso até ter me inspirado e feito um esmalte com uma gota de cada esmalte que tenho  (e a cor resultante foi roxo. Quase todas as misturinhas que faço acabam roxas).
    • ASMR: eu comprei meu primeiro smartphone em 2019(!!!). Isso me fez ter mais tempo para fazer coisas inúteis como ver vídeos de gente cortando sabonete e coisas estranhamente agradáveis, e de alguma forma eu caí no buraco de ASMR. Não ouço por causa de insônia, mas gosto dos vídeos para relaxar e curtir os sons antes de dormir ou para deixar de pano de fundo enquanto leio ou escrevo. O mundo do ASMR é bem vasto e não se resume a uma pessoa sussurrando ou comendo algo no seu ouvido e tem sido divertido explorar esse universo para descobrir quais são meus tipos de sons preferidos.
    • Podcasts: foram minha principal companhia durante os trajetos diários de ônibus. Gosto de podcasts principalmente sobre cultura pop, dicas de filmes, séries, livros, etc. Ainda não tentei ouvir esses podcasts de narrativa porque sou meio ruim para prestar atenção em áudio.
    • A temporada do Kévin Aymoz: o Kévin virou meu patinador favorito na temporada passada e agora ele finalmente ficou mais consistente, o que resultou em medalhas, várias medalhas (vamos fingir que o Europeu nunca aconteceu).
    • Caneta Muji: fiquei viciada em materiais de papelaria em 2019, e isso resultou em muitas compras novas. De cem brush pens da China a canetas de gel de várias marcas diferentes, minha aquisição favorita foi a caneta Muji 0.5 preta, pelo simples fato de que por enquanto foi a caneta que menos falhou na minha mão.

    quinta-feira, 11 de outubro de 2018

    Os (realmente não tão) últimos filmes que eu vi #23

    1- The hunting ground (Kirby Dick, 2015)
    O documentário discute a questão dos estupros nas universidades americanas. Eu o assisti na época do estupro coletivo de uma jovem carioca e é um filme muito importante para quem acha que só país de terceiro mundo sofre com a cultura de estupro ou que a impunidade só ocorre no Brasil. É doloroso ver quanto os abusos sexuais são comuns e como as autoridades evitam criminalizá-los, abafando o casos, para que as universidades não fiquem com má fama. O formato do documentário é bem tradicional, com entrevista com sobreviventes, psicólogos e autoridades. Para quem não vê muito do gênero, como eu, pode ser um pouco cansativo, mas vale a pena para quem quer se informar e, em decorrência disso, sofrer com o machismo do mundo. E é triste também pensar que embora de forma diferente, visto que a estrutura universitária brasileira não é igual à americana, muita coisa se aplica ao Brasil: não temos fraternidades nem ídolos do esporte universitário, mas temos atléticas e festas e o mesmo medo de manchar instituições de renome. Avaliação: 3,5/5

    2- Blow-up: depois daquele beijo (Michelangelo Antonioni, 1966)
    Vi um pedaço desse filme na escola, enquanto a gente aprendia sobre metalinguagem(?), e fiquei protelando por séculos para assisti-lo inteiro. A sinopse parece a de um filme de mistério: um homem descobre um homem morto ao ampliar uma fotografia que tirou. Mas é um filme de arte, e muita coisa parece não fazer sentido ou é simbólica, e eu honestamente não entendi muito bem. Ainda assim, foi uma experiência interessante, porque é um filme bem diferente do que estou acostumada a ver. Avaliação:3,5/5

    3- Jogos vorazes: em chamas (Francis Lawrence, 2013)
    Não gostei especialmente do filme de Jogos vorazes, por isso demorei tanto para ver a continuação. Mas, como muita gente já tinha dito, Em chamas é superior ao primeiro filme, e me fez voltar a sentir aquele mal-estar típico de distopias que o livro me trouxe em alguns momentos. Fiquei angustiada no começo do filme e gosto do fato de metade da história se passar fora da arena — não que isso seja mérito do filme, mas enfim. A curiosidade para ver as sequências ficou aguçada. Avaliação: 4/5

    4- Os excêntricos Tenenbaums (Wes Anderson, 2001)
    Esse é o quinto filme do diretor que eu vejo e é também um dos mais famosos. Como o título sugere, o filme conta a história da família Tenenbaum, que tem personagens excêntricos — como esperado de uma obra de Wes Anderson. O filme prende a atenção, é esteticamente agradável de ver e todos os membros da família são interessantes, mas sinto falta de algo que dê sentido ao filme e que eu possa compreender. Não sinto que eu entendo de verdade a proposta do cinema do diretor, apesar de normalmente aproveitar os filmes dele. Avaliação: 3,5/5

    5- Growing up and other lies (Darren Grodsky e Danny Jacobs, 2014)
    Às vezes a gente coloca filmes na lista da Netflix só porque a descrição parece interessante, sem termos nenhuma referência. E quando não dá vontade de ver nenhum filme conhecido da lista, sobram esses filmes: já que não há expectativa, não há como vê-los no momento errado, não é? Esse filme foca em um grupo de amigos formado por homens héteros (é importante ressaltar) que se conheceram na faculdade. Quando um deles decide se mudar para outra cidade para morar com o pai, eles se reúnem de novo para andar pro Nova York e o convencer a ficar lá. Sinceramente, é um filme bem qualquer coisa. Todos os personagens são um pé no saco e é um filme bem hétero mesmo, no estilo moderninho hipster nova iorquino. Não considero que tenha sido um desperdício do meu tempo, mas não recomendo. Às vezes existe um motivo para alguns filmes não serem tão conhecidos mesmo. Avaliação: 2,5/5

    6- Para sempre Alice (Richard Glatzer e Wash Westmoreland, 2014)
    Vi o filme só porque ele ia sair do catálogo da Netflix, o que significa que a distância entre eu ter lido o livro e visto o filme foi menor do que eu gostaria. No geral, é uma adaptação relativamente fiel, que muda detalhes e mantém o essencial. Achei que ia me emocionar bem mais vendo a história do que lendo, mas, talvez por já saber o que acontecia, talvez porque eu sabia claramente que o filme é de ficção, isso não aconteceu. Por ser mais rápido, recomendaria ver o filme em vez de ler o livro, mas para mim não é um filme indispensável. Avaliação: 3/5

     7- Casa grande (Fellipe Barbosa, 2014)
    O filme estava em cartaz mais ou menos na mesma época que Que horas ela volta? e vi várias comparações entre os dois, porque eles abordam a mesma temática. A diferença é que enquanto o filme da Anna Muylaert foca na vida da empregada, Casa grande, como indica o título, retrata os patrões. O filme acompanha a vida de Jean, jovem filho da casa grande que está em colapso mas tenta esconder isso. Os pais dele, com claros problemas financeiros, tentam manter a sua posição social enquanto o filho vai descobrindo quem ele é. Casa grande discute bem a questão dos privilégios e desigualdades, embora às vezes opte por um caminho explícito demais, como na discussão escolar sobre cotas. No geral, achei interessante, mas não me conquistou por completo. Avaliação: 3,5/5

    8- Qual seu número? (Mark Mylod, 2011)
    Tinha uma época em que assistia a comédias românticas frequentemente. Eu ainda vejo bastante, mas em geral são filmes adolescentes ou com cara de independentes, fazia muito tempo que não via uma comédia romântica hollywoodiana bem padrão. E honestamente podia ter passado mais tempo sem ver essa. A premissa é interessante: a personagem de Anna Faris lê em uma revista algumas estatísticas sobre quantos parceiros a mulher média já teve e fica chocada com o número. Para não aumentar sua própria contagem e dessa forma diminuir a chance de se casar, ela decide fazer sua lista e reencontrar seus ex-namorados, pois vai que algum deles era mesmo o amor da sua vida? A sua busca pelos ex é feita ao lado do vizinho galinha interpretado por Chris Evans, e acho que todo mundo sabe o que vai acontecer a partir daí. Não faço a menor ideia do que eu estava esperando quando fui ver o filme, porque ele entrega exatamente o que promete, mas eu fiquei tão frustrada. É tudo tão óbvio, tão sem graça. Eu gostei da Anna Faris em A casa das coelhinhas (sério), mas a personagem dela aqui é sem sal. E não ligo para o Chris Evans, desculpa, sociedade. Enfim, não gostei. Avaliação: 2/5

    9- Rubber (Quentin Dupieux, 2010)
    Às vezes a vida nos dá coisas maravilhosas, como um filme sobre um pneu assassino com poderes telecinéticos. Parece trash, e é trash, mas há uma filosofia por trás: a de que as coisas acontecem por nenhum motivo. Se a vida não faz sentido, por que um filme precisa fazer? Como minha irmã já tinha visto o filme antes, já sabia que ele não seria tão ruim, o que acaba um pouco com o impacto de esperar algo e se deparar com outra coisa, completamente diferente. Mesmo assim, a metalinguagem me surpreendeu logo no início, quando aparecem os espectadores aguardando para ver Rubber. O filme sabe que não há como ele ser realista, então ele brinca com isso desde o início. Para quem não assiste tanta coisa estranha, foi uma bela surpresa. Avaliação: 3,5/5

    10- A garota de fogo (Carlos Vermut, 2014)
    Fiquei interessada pelo filme pelo seu título original: Magical girl. Mas, diferente do que esse nome indica, a história não é bem sobre uma garota mágica que luta pelo amor e a justiça. A tal garota não é mágica, mas gostaria de se tornar a Magical Girl Yuriko, e como está doente seu pai sente a necessidade de cumprir todos seus desejos, mesmo que para isso precise de métodos escusos. O foco da trama é mais no pai e no que ele fará, além de termos outros personagens que parecem perdidos no início mas depois vão se encaixando no enredo.O filme é um drama misturado com suspense que me deixou com um gosto amargo na boca. Me lembrou um pouco a obra de Almodóvar, mas o fato de ambos diretores serem espanhóis deve ter influenciado na minha comparação. Uma pena que o filme teve pouco espaço aqui, passando somente em mostras. Avaliação: 4/5

    quarta-feira, 19 de setembro de 2018

    Top 10 perfomances favoritas da temporada: masculino

    A temporada 2018-2019 já começou, mas ainda dá tempo para rememorar a temporada olímpica, né? Fiz uma lista das minhas dez performances favoritas de cada categoria para não esquecer daquilo de que mais gostei. A lista está mais ou menos em ordem (ou seja, é certo que gosto mais do primeiro do que do décimo, mas não tão certo que prefiro o sétimo ao oitavo) e mistura programas, performances ou momentos memoráveis dessa temporada tão dramática que vivemos. É claro que sou tendenciosa e tenho minhas preferências de patinadores e de tipos de programas, e é uma lista extremamente pessoal. Evitei de propósito algumas performances olímpicas que não tinham vídeo fácil de achar, e nem todas as performances escolhidas são as que fizeram mais pontos, às vezes optei por aquilo que mais me marcou por estar acompanhando a competição ao vivo (por streaming, infelizmente). Não sei quando vou postar as outras categorias, mas espero terminar essas listas antes da temporada 2019-2020 começar, quem sabe...

    (fonte)
    10. Mikhail Kolyada (programa curto na Cup of China)
    Às vezes as coisas dão certo e Kolyada consegue fazer um belo quádruplo lutz e aterrissar com segurança. É um fenômeno raro, muito raro, e por isso é tão especial. Kolyada é um patinador que tem tudo para ser um sucesso, mas que sofre com a inconsistência e com os programas não muito bons na questão artística. Mas eu sinceramente gosto desse programa curto, que inicia com o Piano Concerto nº. 23 de Mozart e de repente passa para um tango, mostrando bem as qualidades clássicas do patinador russo.

    (fonte)
    9. Keiji Tanaka (programa curto na Cup of China)
    Keiji é um dos patinadores por quem você acaba simpatizando mais pela quantidade de coisas que se vê sobre ele fora do gelo (ele gosta de fazer tarefas domésticas! Ele gosta de anime! Ele parece um ser humano muito responsável em comparação com Yuzuru e Shoma!) do que pela patinação em si. Conhecido pela sua inconsistência e pelos pops, ele teve uma boa temporada em 2017/2018, indo para as Olimpíadas e fazendo programas curtos limpos pelo menos duas vezes. Esse programa, ao som de da guitarra de Gary Moore, combina com o estilo do Keiji, especialmente se apresentado com a confiança que vemos aqui.
    Quase que Kazuki não teve a chance de fazer as performances da sua vida até agora. Como segundo substituto no mundial, Kazuki foi acionado devido ao machado de Yuzuru e à aposentadoria de Mura. Sabendo que era sua chance de brilhar, e com a pressão de precisar de uma boa colocação para garantir as três vagas do Japão para o próximo mundial, ele fez mais do que quase todos esperávamos com um programa curto limpo e um longo sem quedas. Em uma competição marcada pelo desastre e por inúmeras quedas, Kazuki levou de brinde uma medalha pequena de bronze pelo programa longo e um incrível quinto lugar no seu primeiro mundial. O programa de West Side Story aproveita bem os pontos positivos dele: a qualidade performática e a óbvia alegria que apresenta ao patinar. E isso é só o começo para ele.

    (fonte)
    7. Dmitri Aliev (programa longo no campeonato europeu) 
    Dizem que a esperança é a última que morre, e quando Dmitri Aliev, contra todas as expectativas, fez essa performance, a esperança continuou viva, muito bem, obrigada. Último homem a se apresentar no Europeu, Aliev tinha uma tarefa simples: ir melhor que Samarin para garantir sua vaga olímpica. Mas a sua fama de desastroso em programas longos era grande demais para os corações dramáticos de fãs, que insistiam que sua condição física nunca era suficiente para ele terminar os programas sem parecer que ia desmaiar. Aliev provou que não, não faltava energia coisa nenhuma (ou talvez só um pouquinho...), superando até Kolyada para ficar com a medalha de prata no seu primeiro campeonato europeu, ao som de To build a home e da trilha sonora de Pequena Miss Sunshine. 
    Yuzuru é o patinador mais famoso e mais bem-sucedido atualmente. Com um séquito de fãs, ele é o favorito de pelo menos metade do fandom do esporte. E isso cria um sentimento estranho em quem não gosta dele tanto assim. Afinal, depois de ouvir repetidamente que tudo que ele faz é uma obra-prima, é um pouco chato não conseguir sentir isso de verdade. Racionalmente, sei que ele é o patinador do masculino mais completo; emocionalmente, nem sempre consigo me conectar com as performances dele. O que importa é que esse programa, ao som de Ballade nº. 1 do Chopin, tem belos momentos, e se eu não coloco em uma posição mais alta é porque, bom, é a terceira temporada que Yuzuru o usa e nós queremos novidades. 
    Patrick Chan é um gosto adquirido. Ele dominou as competições por um tempo, com pontuações altíssimas em performances com erros, sendo odiado por muitos, até que deu uma pausa na carreira e voltou uma temporada depois. Mais maduro e sem vencer tanto, logo a opinião popular mudou: Patrick é sim um dos melhores patinadores. Conhecido pelas skating skills maravilhosas e incomparáveis (note como ele parece patinar sem fazer esforço nenhum), ele teve sua última temporada competitiva um tanto atribulada, sofrendo por falta de motivação. Aqui, no entanto, com seu programa ao som de Dust in the wind no início da temporada, a gente ainda não sabia de nada e podia aproveitar a patinação de Patrick pelo simples prazer que é assisti-lo.

    (fonte - finja que o gif é do Quatro Continentes)
     4. Shoma Uno (programa curto no Quatro Continentes)
    Se minha relação com o Yuzuru é complicada, a com o Shoma é mais ainda. Foi ele que me fez voltar a acompanhar o esporte, mas na temporada olímpica seus programas foram escolhas decepcionantes: Inverno, do Vivaldi, uma música batidíssima para o programa curto, e Turandot, outra música batidíssima e ainda reprise do programa de 2015/2016, para o longo. Mas com o tempo eu aprendi a gostar do programa curto do Shoma, conforme ele foi se sentindo mais a vontade com a coreografia. Se o segredo de apreciar alguns patinadores, como Yuzuru e Patrick, é focar no que eles fazem com os pés, para Shoma a recomendação é o contrário: não veja os pés e foque na parte superior do corpo. Ele tem um controle nos braços que é difícil de ver em outros patinadores e isso me faz ignorar o fato de que ele passa boa parte do programa com os dois pés no gelo fazendo crossovers.

    (fonte)
     3. Nathan Chen (programa curto na Rostelecom Cup) 
    Esse programa foi uma surpresa muito boa. A maioria dos patinadores, especialmente os mais competitivos, faz escolhas musicais seguras e pouco inventivas, mas Nathan quis uma música contemporânea com uma coreografia mais inovadora (ou no mínimo menos esquecível). O programa foi perdendo um pouco da graça conforme a temporada foi passando, mas na Rostelecom Cup ainda era novidade, e também foi a melhor performance em termos de estilo: com os cachos e a roupa simples em vez da minimalista feita pela Vera Wang que ele usou nas Olimpíadas.

    (fonte)
     2. Keegan Messing (programa curto no campeonato mundial)
    Eu não sabia da existência de Keegan Messing antes da temporada começar, mas ele logo me conquistou. Normalmente não gosto muito de programas tipo showman clássico, mas abro exceções para quem combina com o estilo. E o Keegan certamente combina. Ele pode ser um pouco bagunçado às vezes, mas quando faz um programa limpo tudo se encaixa. A coreografia desse programa ao som de Singin' in the rain ressalta seus os pontos fortes, e no geral o considero um patinador bem completo: boas skating skills, saltos grandes quando ele os acerta e spins rápidos, lembrando o estilo clássico norte-americano de patinação.

    (fonte)
     1. Adam Rippon (programa longo no NHK Trophy)
    Quando voltei a acompanhar o esporte, o Adam estava machucado, por isso eu não conhecia ainda os seus programas. Por mais que normalmente eu seja contra repetições, nesse caso achei que foi uma boa escolha. Seria difícil superar o programa curto da temporada anterior, com a música eletrônica, mostrando seu lado divertido e atrevido, e o longo contemporâneo e mais sério, ao som de Arrival of the birds, do The Cinematic Orchestra, e O do Coldplay. Adam não é o patinador mais técnico do mundo; seus saltos não são os mais difíceis e suas skating skills poderiam ser melhores. Mas ele é excelente na parte da performance, e quando se acorda cedo em um fim de semana para assistir ao NHK Trophy, após todos os desastres e machucados de outros patinadores durante a temporada, tudo que eu preciso é de um programa belo e praticamente limpo, além de um patinador obviamente muito feliz e orgulhoso do que fez, para me lembrar do motivo pelo qual eu vejo patinação.

    sábado, 11 de agosto de 2018

    Leituras do mês: julho

    O hábito da escrita é um hábito muito fácil de se perder. Não completamente, é claro. Mas manter um blog e fazer resenhas frequentes é difícil, ainda mais quando quase ninguém mais se interessa por resenhas em texto. Tinha uma época em que eu conseguia resenhar praticamente tudo o que lia, mas de repente meu ritmo de leitura atropelou o ritmo de escrita e só fui acrescentando nomes de livros para resenhar em uma lista infinita. E cada vez que olhava para a lista eu ficava mais desanimada e tinha menos vontade de escrever. Resisti por um tempo, com uma resenha aqui e outra acolá, se as leituras realmente me diziam algo, mas tem uma hora que você precisa admitir que não dá mais. E só assim podemos começar de novo.

    Então é isso: não vou mais escrever resenhas, a não ser que os livros realmente me tragam muita inspiração para escrever. Em vez disso, vou comentar mensalmente minhas leituras, em um formato curto e grosso. Se isso vai durar eu também não sei, mas vamos tentar, né?

    1- Sonhos que ganhei, Solaine Chioro
    Alguns autores brasileiros vêm lançando bastante coisa de forma independente na Amazon, com preços baixos e às vezes gratuitos. Em geral são contos ou coletâneas, como é o caso desse. Sonhos que ganhei é uma reunião de histórias natalinas que se passam na mesma cidade — por isso alguns personagens aparecem em mais de um conto. Não sou a mais fanática pelo espírito natalino, mas as histórias são bonitinhas e fáceis de ler. No entanto, achei o conto final, o próprio "Sonhos que ganhei", um pouco forçado no drama pré-redenção natalina, se é que vocês me entendem. Avaliação: 3/5

    2- O vilarejo, Raphael Montes
    Minha primeira experiência com a obra de Raphael Montes foi este curto livro de contos, cada um com a temática de um dos sete pecados capitais. São histórias sombrias que se passam no mesmo vilarejo e portanto alguns personagens aparecem em mais de um conto (juro que a escolha dele após Sonhos que ganhei foi coincidência!). Essa conexão é o aspecto mais interessante do livro, visto que os contos são muito curtos para desenvolver algo mais complexo. Existe um clima de terror, mas a falta de espaço para desenvolvimento impede que o livro seja verdadeiramente assustador. Não me empolgou por completo, mas ainda tenho curiosidade em conhecer o resto dos livros do autor. Avaliação: 3/5 

    3- Fever pitch, Nick Hornby
    A Copa do Mundo é o único momento em que me importo com futebol, portanto foi o período ideal para ler a obra de Hornby sobre o esporte. Ele nos conta sobre sua relação com o time Arsenal e sobre como tudo à sua volta acaba sendo impactado pela sua obsessão futebolística. É uma leitura interessante para quem também é fanático por algum esporte — no meu caso, patinação —, mas também é um pouco cansativo para quem não liga para a história do Arsenal, já que há algumas descrições de jogos. Avaliação: 3/5

    3- Mary Poppins, P.L. Travers
    Sou uma pessoa que normalmente gosta de literatura infantil. Existem escritores que conseguem transmitir a ingenuidade do mundo das crianças com facilidade para as suas páginas, criando histórias divertidas para todos. Mas às vezes alguns livros não conversam tão facilmente com a gente. Foi o caso de Mary Poppins. Eu não assisti ao filme clássico da Disney para poder comparar e para ter a sensação de nostalgia, então a história da babá mágica era completamente nova para mim. Nova e entediante, para ser sincera. Mary Poppins é uma babá rígida e rude no livro e a magia que ela traz pode fascinar as crianças, mas não me encantou. Cada capítulo do livro conta um causo diferente, e o meu favorito foi o focado nos bebês da família, que cria uma história bonitinha para explicar o mundo deles — eles conseguem se comunicar com o resto do mundo, como com passarinhos (mas não com humanos crescidos), e perdem essa capacidade ao crescer e se integrar melhor em sociedade. Não sei se seria um livro que me animaria quando criança também, porque talvez seja questão de estilo mesmo: é uma literatura infantil bem clássica, centrada na mágica pura e simples de voar, conversar com animais e coisas assim, e talvez isso não anime tanto quem cresceu com Harry Potter. Mas a edição da Cosac Naify é bela. Avaliação: 2,5/5

    4- Gen - pés descalços, volume 3: trigo, é hora de brotar, Keiji Nakazawa
    Nesse volume, continuamos acompanhando os sofrimentos de Gen, sobrevivente da bomba atômica, para conseguir dinheiro. Ele tem dificuldades de achar trabalho e quase não encontra solidariedade entre os outros sobreviventes, egoístas e preocupados apenas com a própria sobrevivência. Ler os mangás de Gen não é fácil; é uma leitura crua e angustiante, que nunca nos deixa esquecer das violências da guerra. É um pouco cansativo ver Gen constantemente conseguindo alguma coisa (dinheiro, comida) e depois a perdendo por ele ser bondoso ou pelos outros o roubarem, mas faz parte da repetição da vida. Avaliação: 3,5/5

    5- Everything I never told you, Celeste Ng
    Celeste Ng é uma autora tão bem comentada na minha bolha internética que eu fiquei com medo das expectativas estragarem minha leitura. Não foi o que aconteceu. Fui emocionalmente capturada pela história da família Lee. A autora conseguiu criar personagens críveis e também construir bem a narrativa de forma que o leitor vai entendendo aos poucos as motivações de cada personagem. No início eu estava achando a história um pouco esquemática demais — a mãe, que é branca e sofre com o machismo, quer se destacar de todos, enquanto o pai, que sofre racismo por ser descendente de chineses, quer apenas ser visto como mais um na multidão, um americano comum como ele de fato é —, mas com o tempo consegui entrar na mente dos personagens, embora o destaque ainda fique com os filhos, na minha opinião. Everything I never told you é um drama familiar que me fisgou e conversou comigo como poucos livros fizeram recentemente, e agora estou curiosíssima para ler Pequenos incêndios por toda parte. Avaliação: 5/5
     
    6- Isto não é um livro de Matemática, André Caniato
    Outro continho que baixei gratuitamente na Amazon e minha primeira experiência negativa com o que eu chamo de "leituras de ponto de ônibus". A questão é que o formato desse conto não me prendeu — o protagonista e narrador usa seu caderno de matemática como diário durante as aulas — e não consegui criar empatia com nenhum personagem. Além disso, a descrição do interesse amoroso como japonês, esclarecendo depois que a fotografia que ele usava em um site era real, mas que o protagonista achou que fosse de um ator porque "ele não era como todos os outros", me soou bem racista e ofensiva. Não sei se tem outra maneira de interpretar isso, mas não nego que fiquei com raiva. A sacadinha final é fofa e é o aspecto mais interessante do livro. Avaliação: 2/5

    sexta-feira, 27 de julho de 2018

    Patinação: questões para o próximo ciclo olímpico

    Vivemos intensamente a temporada olímpica de 2017/2018 e estamos prestes a começar um novo ciclo olímpico. Já aconteceram muitas coisas no mundo da patinação nessa off season, do retorno de Daisuke Takahashi às milhares de separações de times de pares e dança. A tragédia da morte de Denis Ten, no entanto, coloca essas notícias no escanteio. Voltaremos a uma nova temporada um tanto abalados, mas também com esperança de que coisas melhores virão.

    Escrevi essas questões antes de tudo isso acontecer. São perguntas que estavam na minha mente sobre o futuro da patinação, e acho legal colocá-las no blog para poder acompanhar suas respostas no futuro.

    - As garotas treinadas pela Eteri continuarão dominando a categoria junior? Trusova conseguirá saltar seus quádruplos novamente? No geral, as meninas do junior, que parecem prometer uma revolução técnica, vão de fato fazer isso ou os triple axels e quádruplos são apenas para se exibir na redes sociais, e competições são para elementos mais seguros?

    - O desastre de Zagitova no mundial foi pontual ou será o início do fim para ela? A mudança de técnico da Medvedeva dará a longevidade pretendida para ela? E, mais importante, tornará a patinação e os programas dela mais agradáveis?

    - O masculino continuará sofrendo com as lesões de múltiplos atletas? Os programas com alta dificuldade técnica, vulgo enorme quantidade de quádruplos, se manterão como norma necessária para ganhar mesmo com as mudanças nas regras?

    - A mudança nas regras será boa ou ruim? Ela tornará o esporte mais chato de assistir? Haverá mais alterações significativas no esporte?

    - Haverá espaço para alguém de federação pequena ganhar competições importantes? Alguma federação grande dominará todas as categorias? Existe a possibilidade de termos um pódio que não contenha Canadá, Rússia e Estados Unidos na competição por equipes em 2022?

    - Sairá algo de bom de todas as mudanças entre as equipes de pares e dança? Quantas vezes vou me decepcionar com duplas pelas quais torço se separando? Alguém vai se separar e deixar o fandom fascinado com o drama, como aconteceu com Ilinykh e Katsalapov?

    - Papadakis e Cizeron terão rivais a altura? Será alguém que já tem pontuações altas, como Hubbell e Donohue, ou será alguma dupla com uma inflação súbita, como os próprios P/C tiveram? Os times que foram para Gadbois vão realmente evoluir, em questão de técnica e de nota, e dominar as competições?

     - O que acontecerá com os times americanos, canadenses e russos de dança? Teremos as mesmas duplas dominando ou os mais novos terão espaço em grandes competições?

    - Quantas das pessoas que estão dando um tempo nessa temporada vão de fato voltar a competir? E elas conseguirão manter suas posições mesmo ficando fora uma temporada?

    - A suposição de que a temporada pós-olímpica é mais interessante se revelará verdadeira dessa vez? Ou os programas desinteressantes e o uso de warhorses continuarão dominando? Quais novas modinhas serão criadas? Quais se tornarão menos populares?

    -  Haverá alguma mudança em relação à forma de acompanhar as competições? O que a morte da Icenetwork significará? A ISU vai dar algum passo para tornar as competições mais acessíveis ou continuaremos sofrendo até encontrar streamings piratas não tão ruins?

    - O Brasil vai continuar unicamente representado pela Isadora Williams em grandes competições? Haverá algum crescimento na popularidade do esporte aqui, com shows ou, sendo muito otimista, alguma competição internacional na América do Sul?

    - Algum patinador irá encantar todos de repente? Alguém cairá nas desgraças dos fãs? Meus favoritos de hoje serão meus favoritos em 2022?

    - A minha relação com o fandom de patinação mudará nesse período? E o próprio fandom vai continuar igual? Algo, como o filme novo de Yuri! On ice, trará novas ondas de fãs?A aposentadoria de algum patinador muito querido ou algum grande escândalo ou tragédia vai fazer as pessoas pararem de acompanhar o esporte?

    - Eu ainda estarei aqui para responder essas perguntas em 2022? E, claro, se estiver aqui e ainda interessada em patinação, será que vou de fato respondê-las? Essa é a única que tem resposta: provavelmente não.