sexta-feira, 3 de março de 2017

Rani e o Sino da Divisão, Jim Anotsu

A coragem de um Animal de Festa, como eu podia ver, consistia em se importar muito com tudo e com todos, a ponto de entrar em uma briga muito maior apenas para proteger aqueles que eram importantes para nós. Ninguém ali estava entrando em uma briga para salvar o mundo ou algo épico, o escopo da nossa batalha era muito menor. Lutaríamos contra Aiba para que pudéssemos nos reunir em Gertrudes, para tocar em uma banda de duas pessoas, ler quadrinhos e nos sentarmos no posto de gasolina. Pelas pequenas coisas que realmente importavam.
Ouvi falar bastante no Jim Anotsu, nome que se destacava como autor novo brasileiro entre os blogueiros literários que eu acompanhava. Assim, fiquei bem curiosa quando ele lançou Rani e o Sino da Divisão, com uma edição bonita e elogios de várias pessoas. É claro que, sendo eu, demorou algum tempinho para que o livro fosse parar nas minhas mãos, e mais um tempo razoável até que eu decidisse lê-lo. Isso provavelmente se deu por um motivo simples — eu queria gostar do livro, mas ao mesmo tempo não é exatamente o tipo de história que eu mais aprecio atualmente. Tenho lido pouca fantasia, que antes era um dos meus gêneros favoritos, e o enredo de Rani, com suas criaturas sobrenaturais e artefatos mágicos já não me chamava mais a atenção. Tudo isso para dizer que acho que a Marília do passado teria aproveitado muito mais o livro.

A primeira evidência é bem óbvia: Rani é uma adolescente fanática por música, literatura e nerdices, e o livro é cheio de referências à cultura pop. Eu tive uma fase bem fã, que ganhava o dia se visse alguém falando das minhas bandas favoritas e tal, mas embora algumas das citações tenha me feito sorrir (The Automatic, My Chemical Romance, Andrew Bird, Studio Ghibli, Abarat, Artemis Fowl...) isso não foi o suficiente para superar a quantidade de coisas com as quais eu simplesmente não me importava — basicamente todo o heavy metal. As referências funcionam como uma faca de dois gumes, ao mesmo tempo em que podem aproximar o leitor podem também deixá-lo bem deslocado. Não é nada que atrapalhe de fato o andamento da história, e achei inclusive um dos diferenciais do livro, mas para mim foi um pouco excessivo.

A outra questão é mais simples: como já disse antes, não ligo tanto para fantasia atualmente. O enredo do livro não conseguiu me prender nesse aspecto, e eu preferiria ver uma história de Rani e seus amigos em pequenas aventuras do que na jornada da protagonista contra Aiba. Inclusive achei o final um pouco frustrante, como é comum em qualquer história que tenha vilões tão grandiosos. Ainda assim, eu diria que esse problema também é mais “não é você, sou eu”.

Em relação aos personagens, creio que Jim Anotsu conseguiu criar um grupo carismático e variado, embora nem todos recebam desenvolvimento suficiente. Gostei especialmente dos adultos, adoraria ler mais sobre os avós de Rani. Outro aspecto que me interessou foi a questão de ser um livro brasileiro — além de algumas referências divertidas, o fato de o livro se passar em uma cidade do interior traz um quê de familiaridade, nem que seja imaginando os cenários como lugares que já visitamos.

Como não me importei muito com o enredo fantástico, a leitura acabou se arrastando, daí a minha avaliação baixa. No entanto, recomendo o livro para fãs de fantasia, música e para quem quer conhecer mais autores brasileiros. Apesar dos pesares, quero ler mais do Jim Anotsu no futuro.

Avaliação final:2,5/5

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Anime: Yuri!!! On Ice

Comecei a ver Yuri!!! On ice só quando já existia toda aquela comoção a cada episódio novo e o fandom andava muito bem, obrigada. Não sou de acompanhar animes enquanto eles vão ao ar, e teria ignorado esse se não fosse sobre patinação no gelo. E se eu não tivesse prometido para minha irmã, fanática pelo esporte, que veria pelo menos um episódio antes da série terminar.

Então lá fui eu, em um dia que queria assistir a algo leve, curto e diferente das séries que estou acompanhando. Vi um episódio. E depois vi outro.E depois fui assistindo aos poucos porque não sou de maratonar tão seriamente as coisas, preciso de variedade. O fato é que cheguei até a assistir aos últimos episódios no dia da exibição mesmo, porque já tinha chegado a esse ponto.

Isso significa que achei o anime tudo isso que as pessoas comentaram? Infelizmente não. O anime começou bem, com uma introdução ao protagonista, o patinador japonês Yuri Katsuki, e seus dramas esportivos e emocionais. Sua carreira na patinação estava em um péssimo momento, seu cachorro morreu e ele ganhou muito peso. Tudo muda quando, só por brincadeira, Yuri imita uma apresentação de seu ídolo, Victor Nikiforov. A dança é filmada sem ele saber e viraliza, a ponto do próprio Victor, o rei da patinação no gelo, assistir ao vídeo e decidir que vai se aposentar como atleta para treinar Yuri, com o objetivo de ele ganhar a medalha de ouro no Grand Prix Final, que é mostrada como A competição do esporte mas, convenhamos, não tem o mesmo prestígio que o campeonato mundial ou as Olimpíadas de Inverno. A partir daí, acompanhamos a jornada de Yuri e Victor nas competições.

Eu gostei bastante do início do anime, que foca no retorno de Yuri à patinação e no começo do treino dele com Victor. Os primeiros episódios apresentam mais cenas cotidianas na cidade natal do protagonista e têm um tom mais cômico, além de incluírem explicações básicas de patinação no gelo para o espectador entender um pouco melhor o esporte e terem as melhores personagens: as trigêmeas.


É quando começa a fase de competições que o anime desandou para mim, pois deu preferência para mostrar as apresentações de quase todos em vez de desenvolver mais cenas fora do gelo. É claro que as coreografias são essenciais em uma série sobre patinação, mas os episódios se tornaram uma sequência de apresentações que me incomodou. Apesar disso, e da animação nas cenas da dança nem sempre ser boa, tenho que dizer que o monólogo interior dos personagens nesses momentos funcionou, foi um jeito fácil de nos apresentar a eles, e a trilha sonora, composta principalmente por músicas próprias, é muito boa, combinando perfeitamente com os personagens e seus programas — e algumas músicas grudam tanto na cabeça que até hoje me lembro bem da música do JJ, por exemplo. Outra questão é que os patinadores mantêm o mesmo programa durante toda a temporada, por ser o costume do esporte, e isso faz as apresentações ficarem um pouco repetitivas, já que você vê a mesma coreografia mais de uma vez. 

Além disso, ainda sobre a questão esportiva, preciso dizer uma coisa: eu entendo pouquíssimo de patinação tecnicamente, mas o que são as pontuações de Yuri!!! On ice? Compreendo algumas escolhas não tão coerentes para ajudar a narrativa, mas tem pontuações que não precisavam ser tão altas ou tão discrepantes entre si, pois não são tão significativas. Para uma equipe tão dedicada a manter a fidelidade ao esporte quanto a do anime parece ser, o sistema de pontuação poderia ser menos incongruente. Outra diferença em relação ao pouco que vejo do esporte é que no anime os atletas caem muito menos. Nas últimas competições da "vida real" que acompanhei, não era raro que apenas o primeiro lugar tivesse o programa limpo  — às vezes nem isso —, e na série as quedas são bem mais raras, tipo só uma por competição. Isso acaba com aquela tensão de quando o atleta está no ar e você não sabe se ele vai conseguir aterrissar ou não. 

Sobre os personagens, o que tenho a dizer é que, apesar de eu achar que faltou desenvolvimento, especialmente dos coadjuvantes, eu fui conquistada com o pouco que recebi. O anime conseguiu criar vários tipos de atletas e nos fazer simpatizar pela maioria deles. Felizmente, a probabilidade de termos uma nova temporada é grande, o que significa que o potencial dos personagens será mais explorado.

E, finalmente, sobre o casal Victor e Yuri, fico feliz que o anime tenha optado por deixá-los como cânon, embora ache que poderia ter ficado mais explícita a relação amorosa — porque é possível ler nas ações deles uma amizade ou apenas a parceria entre técnico e atleta. É difícil sustentar essa leitura, mas é possível. Preferiria que o romance tivesse sido desenvolvido mais lentamente, mas é aquela coisa, são apenas doze episódios para dar conta de tudo, então eu entendo as escolhas do roteiro.

Então basicamente é isso: eu tenho as minhas críticas ao anime, mas entendo o motivo da maior parte das escolhas da produção. Posso achar a série superestimada, mas isso não significa que não achei boa, é só que não amei com a intensidade do fandom. E foi um anime que vi relativamente rápido e me fez relembrar, em um momento que eu só ligava para séries live-action, de que eu gosto sim de animes, então palmas para ele!

Avaliação final: 4/5