quinta-feira, 31 de março de 2016

Antes de dormir, S. J. Watson

Não tenho memória. Nada. Não há uma só coisa nesta casa que eu me lembre de ter visto antes. Nem uma única fotografia — sejam as que rodeiam o espelho, sejam aquelas no álbum à minha frente — me desperta lembrança de quando foi tirada, não há nenhum momento com Ben de que eu me recorde, a não ser os que compartilhamos esta manhã. Minha mente parece totalmente vazia.
Não precisa de muito para me fazer ler um livro de mistério. Um enredo com algo novo para mim já é o suficiente. Por isso Antes de dormir, sobre uma mulher com amnésia, estava na minha lista há tempos.

Christine, a protagonista, acorda todos os dias sem saber quem é e onde está. Seu marido, Ben, explica a situação: ela teve um acidente e por isso sofre da perda de memória. Como ela consegue se lembrar dos acontecimentos do dia enquanto está acordada, seu médico a encoraja a escrever um diário, para ela ler todos os dias e ir somando as memórias. No entanto, algumas peças do quebra-cabeça da sua identidade não parecem se encaixar. Será que Ben está mentindo? Em quem Christine pode confiar? São essas questões que ficam na mente do leitor durante a leitura.

A primeira parte do livro chama "Hoje" e começa com um dia normal da vida da Christine, ou seja, com ela completamente confusa. Essa parte é interessante por nos colocar na mente de uma amnésica e assim tentamos entender como é o seu cotidiano. Depois passamos para o diário dela, que corresponde a grande parte do livro. No início, achei legal essa parte, mas depois de um tempo ficou um tanto repetitivo e fiquei me questionando quando é que algo emocionante ia acontecer, porque no começo a gente nem sabe quais são as perguntas para serem respondidas, mal sabe o que está estranho na história. Afinal de contas, ela não se lembra das coisas e passa muito tempo sem nem desconfiar de nada.

Aí chega a parte final, que volta ao tal "Hoje". Temos a revelação, que achei bem razoável: não é completamente óbvia nem surpreendente do tipo de ser completamente inverossímil. Ela se encaixa no que a história pretende ser, embora se pensarmos melhor sobre isso acabe ficando um pouco irrealista, é bem verdade.

Os personagens são bem construídos, mas eu não liguei para nenhum deles. Achei inclusive que alguns foram retratados de forma positiva demais, considerando que *insira spoiler aqui*. Não me importei com o núcleo familiar da Christine, que tem um tom de melodrama que não é meu estilo.

Por fim, apesar de não ser um livro perfeito, é um suspense muito eficaz para leitores ocasionais do gênero, como eu. As quatrocentas páginas passam rápido mesmo nas partes mais tediosas. A adaptação para o cinema não parece ter feito muito sucesso, mas pretendo assistir algum dia.

Avaliação final: 3,5/5

quinta-feira, 24 de março de 2016

Anime: Shigatsu wa Kimi no Uso

Depois de um tempinho sem postar nada, pelos motivos de sempre — aquela falta de ânimo causada pela falta de tempo —, eu volto com uma resenha de um anime que vi no ano passado, porque sempre tem resenhas atrasadas para publicar.


Shigatsu wa Kimi no Uso conta a história de Kousei, um jovem prodígio do piano que abandonou os estudos do instrumento após sua mãe morrer. Quando ele conhece Kaori, uma violinista, ele é obrigado a encarar novamente seu passado e volta a tocar.

Em resumo, a história é uma mistura de Whiplash, com a busca incessante pela perfeição, com As variações de Lucy, tratando dos dilemas com o instrumento e os traumas do passado. Fiquei interessada pelo anime por causa da música, mas infelizmente ele trata de outros elementos também: é claro que tinha que haver romancinho e drama na história. E para mim eles realmente não funcionaram.


A Kaori é pouco desenvolvida e fica naquele estereótipo de personagem-feminina-livre-e-feliz-que-servirá-apenas-para-o-protagonista-se-desenvolver, estilo manic pixie dream girl. E o fato é que eu não me importei com ela, e inclusive gostei bem mais da Tsubaki, amiga de infância do Kousei que gosta dele — quem não se apaixonaria também por alguém tão sem carisma? —, porque ela é bem mais real, chegando a ser bem irritante às vezes.

O ritmo do anime é bem irregular. Eu fiquei bem interessada nos episódios que focavam nas competições,  mostrando os antigos rivais do Kousei e mais sobre o seu passado como "metrônomo humano". Cheguei a assistir quatro episódios em seguida, o que é bastante para mim, que não sou grande adepta das maratonas. Mas o anime também tem episódios arrastadíssimos e que eu queria que acabassem logo. Vi o anime, de 22 episódios, em 243 dias, o que é mais lento do que minha média para séries desse estilo.

A arte é boa, mas tenho um pouco de preguiça desse estilo de cenas bonitas com monólogo interior. Vi algumas pessoas reclamando da parte cômica do anime, enquanto eu particularmente achei os momentos leves muito melhores do que os dramáticos, que chegam a ser bregas. Minhas cenas favoritas foram as da infância e eu adoraria um anime que só focasse nisso.

Enfim, acho que parte do meu problema com Shigatsu é que o anime é muuuito elogiado e ver as pessoas se emocionando tanto só me deixou com pontos de interrogação na cabeça (e um pouquinho de raiva, admito), porque não senti nada disso. É um anime ruim? Não, mas o melodrama não me pegou — e para não dizer que eu tenho algo contra melodrama, eu adoro AnoHana

Em resumo, não é um anime que eu recomende vivamente, mas também não é ruim, e os fãs dele me incomodam mais do que a série em si.

Avaliação final: 3/5

quinta-feira, 3 de março de 2016

Dash & Lily's Book of Dares, Rachel Cohn e David Levithan

You could be standing a few feet away — Clara's dance partner, or across the street taking a picture of Rudolph before he takes flight. I could have sat next to you on the subway, or brushed beside you as we went through the turnstiles. But whether or not you are here, you are here — because the words are for you, and they wouldn't exist if you weren't here in some way. This notebook is a strange instrument — the player doesn't know the music until it's being played.
Eu gostei bastante de Nick & Norah - uma noite de amor e música, então quando soube que os autores haviam lançado mais livros nesse estilo fui correndo colocar na listinha para ler. Demorou, mas um dia bateu aquela vontade de ler um YA, não tinha nenhuma leitura obrigatória para fazer ah, a liberdade de não participar de nenhum desafio literário... — e peguei o Dash & Lily's Book of Dares da estante. 

O livro segue a mesma lógica de Nick & Norah: o David Levithan escreve pelo menino, Dash, e a Rachel escreve a parte da menina, a Lily. Eles não se conhecem até que Dash encontra um caderno na sua livraria favorita com um desafio para cumprir. Ele resolve o desafio e decide continuar jogando, deixando novas dicas para quem encontrar. Assim, sem se conhecerem pessoalmente, Lily e Dash vão trocando mensagens e desafios e se conhecendo melhor, sempre se perguntando se a outra pessoa que escreve é como imaginam que ela seja.

É importante dizer que é um livro natalino. O Natal está presente em toda a história, com a contraposição forte entre Lily, que ama a data, e Dash, que odeia. Essa diferença entre os dois se acentua com outros aspectos da personalidade deles: Dash tem jeito de hipster, é sarcástico e tenta ser cool, enquanto Lily é mais ingênua, fofa e feliz. Enquanto eles estão apenas trocando mensagens, gostei bastante de ambos os lados. Não são personagens que eu amei, mas eles têm lá a sua simpatia e a escrita é boa o suficiente para prender a atenção. Mas quando eles se juntam, senti que não era bem isso que eu esperava. Faltou química, acho, ou melhor: faltou que eu sentisse a química. Eu, que torcia tanto para vê-los juntos, fiquei decepcionada quando isso aconteceu, ou por causa da forma que aconteceu.

Então posso dizer que não é um dos meus YAs favoritos. É bonitinho, uma boa leitura para momentos de tédio, mas alguma coisa não se encaixou. Faltou sentimento, não sei. Pelo que vi no Goodreads, o livro aparentemente vai ter uma continuação, que talvez eu até leia algum dia. Mas continuo preferindo Nick & Norah, até pela temática: sou muito mais fã de música do que do Natal.

Avaliação final: 3,5/5

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Os últimos filmes que eu vi #17 - edição especial Oscar

O Oscar, como outras coisas da minha vida, só caiu no meu gosto graças ao mundo cibernético. Antes eu via as indicações pelo jornal, torcia se tivesse algo de que eu gostava, e pronto, segue a vida. Acho que foi em 2014 que me rendi a assistir a apresentação dos prêmios. Em 2015, não só acompanhei a premiação como tive vontade de ver quase tudo, fazendo uma promessa mental de que em 2016 eu veria os indicados a melhor filme junto com as outras pessoas, porque não é maravilhoso ver todo mundo comentando o mesmo assunto? Só que aí chegaram as indicações e... ¯\_(ツ)_/¯

Eu tenho curiosidade em ver todos os indicados a melhor filme, justamente para comparar as opiniões com quem se deu ao trabalho de assistir tudo. Mas curiosidade não é a mesma coisa que vontade genuína, e também não é a mesma coisa que disposição. Além disso, já imagino que não vou gostar muito de quase nenhum dos que ainda não vi da categoria principal. Talvez quem sabe algum dia eu veja quando passar na televisão, mas ter que me movimentar para isso seria esforço demais só para poder dizer que cumpri algo que queria. Então finalizei minha maratona: assisti três filmes indicados a melhor filme e todos(!) indicados a melhor animação, visto que só faltavam três para completar a lista. 

Indicados a melhor filme

1- Perdido em Marte (Ridley Scott, 2015)
Não sou a maior fã de filmes espaciais e grandiosos. Nada contra, mas tenho preguiça — são filmes longos, e têm cenas longas de ação. Então o fato é que eu não tinha dado bola para Perdido em Marte até ele ser muito elogiado por aí e indicado para o Oscar. Ainda não seria um filme que eu veria no cinema se não tivesse passado no cinema do CCSP, sempre maravilhoso e que custa um real. No começo eu estava apreensiva, justamente por não ligar para filmes do gênero, mas aos poucos o filme foi me envolvendo e cativando, e de repente me vi torcendo muito para que a NASA resgatasse o Matt Damon, mesmo sabendo que o final não poderia ser outro — se fosse, estaria na categoria de drama no Globo de Ouro (embora a classificação como comédia seja discutível). Não curti muito as cenas de ação propriamente dita, mais para o final do filme, mas gostei do clima mais leve e do bom humor durante toda a história, e também achei a proporção entre cenas do protagonista e cenas de fora bem equilibrada. Enfim, é um filme eficaz no que se propõe a fazer, e para não dizer que é só entretenimento preciso confessar que entrei numas reflexões erradíssimas sobre viagens espaciais, o custo que isso tem, desigualdade, o que é ser humano e essas coisas divertidas (mas sugiro que não façam isso também). Avaliação: 3,5/5
E o Oscar? O filme foi indicado para sete categorias, mas não acho que leve nenhuma que não seja técnica. Achei as indicações válidas, mas também não estou torcendo por ele.

2- Brooklyn (John Crowley, 2015)
Eu também não tinha planos concretos de ver Brooklyn, mas pensei que entre os que eu não tinha tanto interesse esse era o que poderia me agradar mais: uma produção menor, uma história simples e convencional. Depois que eu terminei de assistir, fiquei pensando em que tipo de filme ele se parecia, até chegar na conclusão óbvia: com Educação, que também tem roteiro do Nick Hornby. E assim como em Educação, faltou algo em Brooklyn para me deixar próxima do filme. Eu não tenho os conflitos da protagonista, Eilis, então não consegui me aproximar dela. Não é que não dê para simpatizar com ela, mas sempre fiquei meio distante, algo não funcionou com a conexão, especialmente depois que ela voltou para a Irlanda — e isso é pessoal, porque tem gente que se identificou demais com a personagem. A história prende fácil o espectador e é interessante o suficiente para me fazer ter vontade de ler o livro, que já está em mãos, a Saoirse está bem no papel e os figurinos dos anos 50 são maravilhosos (saí desejando o guarda-roupa da Eilis? Saí sim, e olha que nem sou uma pessoa ligada em moda). Provavelmente não é um filme que vai mudar dramaticamente a vida de ninguém, mas também não é isso que ele pretende fazer. Avaliação: 3/5
E o Oscar? O filme foi indicado para melhor filme, atriz e roteiro adaptado. Acho que é um daqueles casos em que a indicação é o próprio prêmio, porque muita gente foi atrás dele só por causa disso, como eu.

3- O quarto de Jack (Lenny Abrahamson, 2015)
Eu gostei muito de Quarto, o livro; de Temporário 12, com a Brie Larson, e de Frank, dirigido pelo Lenny Abrahamson. Então eu estava com bastante vontade de ver o filme, tendo expectativas de que a adaptação me agradaria. E não me enganei. Não tenho muito o que falar além de que tudo está muito bom. O filme prendeu a minha atenção, me emocionou, e, não sei, não pareceu ter nada de errado? Em questão de sentimentos, ainda prefiro Temporário 12, que me impactou de verdade, mas talvez isso seja porque já conhecia a história de O quarto de Jack pelo livro. Avaliação: 4/5 
E o Oscar? Brie Larson é a favorita para o Oscar de melhor atriz, o que me deixa bem satisfeita. As outras indicações são menos prováveis, mas se eu pudesse votar tendo visto só três filmes meu voto seria dele (não que isso conte alguma coisa).

Indicados a melhor animação

 1- O menino e o mundo (Alê Abreu, 2013)
Comentei sobre o filme aqui. Avaliação: 4/5
E o Oscar? Meu comentário foi um pouco desanimado, talvez porque eu goste mais do que o filme representa em termos de animação do que dele em si. Quer dizer, eu amo a estética, mas não amo a história. Dito isso, preciso falar que fiquei realmente emocionada quando vi a indicação, e que minha torcida é completamente para ele, mesmo as chances sendo ínfimas. É por patriotismo mesmo, mas não para mostrar para os americanos como o Brasil é bom, e sim mostrar para os brasileiros quanto potencial a gente tem em questão de animação. E acho que a indicação ao Oscar já fez isso, espero de verdade que essa área seja mais incentivada a partir de agora.

2- Quando estou com Marnie (Hiromasa Yonebayashi, 2014)
Comentei sobre o filme aqui. Avaliação: 3,5/5 
E o Oscar? Fiquei um pouco surpresa com a indicação, porque não é um filme tão grandioso do Studio Ghibli. E também está longe de ser um dos meus favoritos deles. Fico feliz com outra animação 2D não americana ser indicada, e em questão de estética também sou fã, mas peguei birra do filme, por motivos até externos a ele — então recomendo que assistam para tirar suas próprias conclusões e não se deixem levar pelo meu mau humor.
 
3- Shaun: o carneiro - o filme (Mark Burton e Richard Starzak, 2015)
Eu acompanho há um tempo os trabalhos da produtora Aardman, de Wallace & Gromit e A fuga das galinhas, mas normalmente só de ficar com vontade de ver o lançamento da vez e deixar para lá. Por causa do Oscar, fui atrás de Shaun e lembrei por que eu gosto dessas animações. A história do filme é bem simples: Shaun vive em uma fazenda e, cansado da rotina, decide tirar um dia de folga. Só que as coisas dão terrivelmente errado e ele terá que ir para a cidade grande resgatar seu fazendeiro. A ideia remete bastante ao filme das galinhas, por ser sobre um grupo de animais de fazenda que precisa bolar planos para resolver determinada situação. A principal diferença é que os carneiros, e todos os outros personagens do filme, falam uma linguagem incompreensível para nós. É um filme mudo, praticamente (assim como O menino e o mundo!). Ele não é tão inspirado quanto as produções mais famosas da Aardman, mas é bem divertido e a animação mantém a qualidade. Avaliação: 3,5/5
E o Oscar? As chances são pequenas, mas gostei da indicação.

4- Anomalisa (Duke Johnson e Charlie Kaufman, 2015)
Eu li duas críticas de jornal e uma resenha em um blog antes de ver o filme e acho que isso acabou me influenciando negativamente, porque os três textos faziam praticamente a mesma análise. Com isso, já fui ao cinema sabendo o que pensar em questão do que o filme quer dizer, o que, paradoxalmente, me deixou sem saber o que pensar do filme em questão de opinião. É uma animação bem diferente do que eu costumo ver, com temas adultos e filosóficos: a dificuldade de se relacionar com outras pessoas, a solidão, a subjetividade, o desejo, a modernidade e outras abstrações. Sei que há muito material para reflexão no filme, mas talvez por ter ido com uma análise pronta na cabeça não fiquei com vontade de ir atrás disso e pensar nas minhas dúvidas. Entretanto, o filme é muito bem feito e a experiência vale a pena. Avaliação: 3,5/5
E o Oscar? Eu li algum lugar dizendo que era o filme que tinha mais chance depois de Divertida mente, mas acho que o filme da Pixar é quase unanimidade, então a probabilidade dele ganhar é pequena. Seria interessante um filme adulto vencer o prêmio, mas também não é minha torcida.

 5- Divertida mente (Pete Docter e Ronnie Del Carmen, 2015)
Minhas expectativas eram misturadas: por um lado, o filme é considerado um dos melhores da Pixar. Por outro, eu não sou tão fã da Pixar hoje e nem de animações em computação gráfica. No final, fiquei bem satisfeita. Achei a ideia do filme ótima e adorei a central em ação — é tipo um jogo de The Sims. Aí o filme foi pelo caminho que eu não queria: para a aventura. Alegria e Tristeza tem uma jornada juntas nos outros lugares da mente. Achei várias partes da aventura engraçadas e interessantes, por nos lembrarem de como nossa mente funciona, mas também achei um pouco cansativo esse negócio de estamos-conseguindo-ops-deu-algum-problema-falhamos. Queria ver mais conflitos entre as emoções na central e a resolução foi rápida demais para o meu gosto. Enfim, acho que o filme tinha todo um potencial que não foi explorado, mas também entendo que não dava para abarcar tudo. Avaliação: 3,75/5
E o Oscar? Vai ser uma grande surpresa se não ganhar o Oscar de melhor animação. Eu podia torcer o nariz porque sempre a mesma coisa filme americano animação 3D e blablablá, mas acho a provável vitória merecida nesse caso. O filme também foi indicado para roteiro original, mas acho que as chances de vencer são menores.

P.S.: agora tenho uma newsletter! Relutei muito antes de entrar na moda, mas acho que é uma boa forma de escrever coisas mais pessoais que ficariam um pouco deslocadas no blog. Prometo não encher sua caixa de entrada!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Eles eram muitos cavalos, Luiz Ruffato

Na esquina com a rua Estados Unidos, o tráfego da avenida Rebouças estancou de vez. Henrique afrouxou a gravata, aumentou o volume do toca-cedê, Betty Carter ocupou todas as frinchas do Honda Civic estalando de novo, janelas cerradas, cidadela irresgatável, lá fora o mundo, calor, poluição, tensão, corre-corre.
Estou cursando uma matéria sobre literatura brasileira contemporânea e Eles eram muitos cavalos é uma das futuras leituras. Decidida a adiantar algum livro, comecei, obviamente, lendo o mais curto, porque se não começasse pelo mais fácil não seria eu.

No entanto, eu não definiria como "fácil" o livro do Luiz Ruffato. Ele é separado em setenta episódios que se passam todos no mesmo dia na cidade de São Paulo e vão desde narrativas mais tradicionais a textos de jornais. São variados também os tipos de personagens e os locais retratados.

A ideia de Eles eram muitos cavalos é inteligente, (pós-?)moderna, contemporânea. É um livro interessante, mas não posso dizer que adorei, porque achei muitos fragmentos chatos. Muitos terminam no meio, ou são aquele tipo de prosa poética que precisa de muita imaginação para funcionar. Não sou intelectual o suficiente para apreciar tudo, embora tenha vários episódios que me agradaram bastante.

Estou bem curiosa para saber o que os acadêmicos pensam do livro, tão elogiado pela crítica mas nem tanto pelos leitores. Termino com a minha resenha favorita dele, de um gênio do Skoob que resumiu o sentimento de muita gente em tão poucas palavras:



Avaliação final: 3/5

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

O que eu ouvi #1

E aí eu decidi escrever também sobre música. Eu não entendo nada teórico sobre o assunto, mas desde quando não saber algo técnico me impediu de falar sobre isso? Meu blog foca em achismos e em opiniões, não em críticas bem fundamentadas, então... Antes de começar, preciso esclarecer umas coisinhas: primeiro, eu não presto muita atenção em letras de música. Sério. Eu pego o tom geral da coisa, mas é difícil eu me importar com isso. Em segundo lugar, estou escrevendo de acordo com os álbuns que ouço no meu iPod. Eu ouço sem fazer outra coisa para poder selecionar as músicas que ficam e as que vão embora. E como eu já estava ouvindo a minha biblioteca em ordem antes de decidir escrever, os álbuns vão sair mais ou menos em ordem alfabética começando pela letra L, com uma exceção ou outra baixada posteriormente. Ah, e minha irmã compartilhou o computador comigo por muitos anos, então tem algumas coisas que são dela no meio. Como temos um gosto parecido, nunca tive a necessidade de separar o iTunes ou coisa assim. Por último, vou deixar o link do youtube das músicas favoritas, mas não vou substituí-lo quando alguns deles certamente saírem do ar, e o link do álbum no rateyourmusic se por algum acaso alguém se interessar em ler mais resenhas sobre o CD — normalmente os textos de lá são bem críticos, nos dois sentidos: manjam mais do assunto e são bem mais chatos e rigorosos e muitas vezes elitistas.

Talvez isso não interesse ninguém além de mim, mas achei que seria interessante. Eu constantemente abro meu player e não faço a menor ideia do que ouvir diante de tantas opções, por isso escrever sobre os álbuns vai me fazer lembrar do que eu gosto. E se ajudar alguém com alguma indicação já é ótimo também. E de qualquer jeito esses posts não vão ser tão frequentes, não se preocupem.

1- Little Deuce Coupe (The Beach Boys, 1963)
É um álbum de músicas curtinhas, de mais ou menos dois minutos. As harmonias mantêm o padrão Beach Boys. Está longe de ser a obra-prima deles, mas é a surf music típica e por algum motivo as músicas falam sobre carros(?). Avaliação: 3,5/5

2- Little Joy (Little Joy, 2008)
O Little Joy surgiu quando eu era bem fã dos Strokes, então fiquei feliz em gostar do projeto paralelo do Fabrizio Moretti. É um tipo de música bom para ouvir deitada na rede ou na praia, bem gostosinha, com um clima de preguiça de fim de semana. O CD, também curtinho, mistura as vozes dos três membros da banda e tem músicas em inglês e em português, algumas mais calmas e outras agitadinhas. Avaliação: 3,5/5

3- The Little Mermaid (Alan Menken e Howard Ashman, 1997)
Minha irmã gosta bastante do filme, então baixou a trilha sonora, porque quando se gosta de um filme da Disney está implícito que se gosta da trilha sonora dele também. Não consigo julgar o quanto gosto das músicas sem relacionar com as memórias da infância, mas de qualquer jeito adoro a maioria das músicas cantadas. Para as instrumentais eu não ligo tanto, mas no geral é uma trilha sonora bem simpática. Avaliação: 3,5/5

4- Have You in My Wilderness (Julia Holter, 2015)
Estava vendo uma lista de melhores álbuns do ano e obviamente descobri que não tinha ouvido falar de quase nada. Tentando ficar por dentro, fui ouvir algumas músicas para decidir quem eu ia baixar, e a Julia Holter foi escolhida. Have You in My Wilderness é um bom álbum, mas para mim não se destacou tanto entre outras centenas de cantoras alternativas. Não sei, também não ouvi o suficiente para me apegar. Poucas músicas chamaram a minha atenção, mas a maioria é gostosa de ouvir — embora as músicas mais compridas, de seis minutos, eu tenha achado cansativas. Avaliação: 3,5/5

5- Lon Gisland (Beirut, 2007)
Eu enjoei um pouco de "Elephant gun" porque desde que conheci a música eu a ouvi mais vezes do que deveria. No entanto, ouvindo o Lon Gisland não tem como não se sentir bem. Saudades, Beirut! Eu ouvi os álbuns mais recentes da banda e não parei de gostar deles, mas esse EP não me deixa esquecer da minha fase favorita. São cinco músicas no total, então é uma boa forma de descobrir se gosta da banda. Avaliação: 4/5

6- London Calling (The Clash, 1979)
Fui atrás do The Clash provavelmente em uma época que estava a fim de conhecer os clássicos do rock. Já tinha ouvido várias musicas da banda, seja na MTV, parte muito importante da minha adolescência, ou por covers de outras bandas. Ouvi pouco o London Calling, principalmente porque ele tem muitas músicas e acaba ficando cansativo. Individualmente, gosto de quase todas as músicas, mas não de escutar tudo de uma vez só. Acho interessante a influência de outros ritmos, tipo ska e reggae, no som deles, por isso é a banda punk clássica pela qual eu mais simpatizo. Avaliação: 3/5

7- Lonely Avenue (Ben Folds e Nick Hornby, 2010) 
Eu provavelmente  conheci o Ben Folds lendo o Nick Hornby, então essa união entre cantor e escritor não me surpreendeu muito. Não sei bem explicar o gênero do álbum, é um pop rock que seria genérico se eu não conhecesse bem a voz do Ben Folds. Tem várias músicas que eu adoro nesse CD, como dá para ver pelos destaques, mas também tem algumas bem descartáveis. Avaliação: 3,5/5

8- Louva-a-Deus (Forgotten Boys, 2008)
Destaque: "Highest stakes"
Eu tive uma fase fã de rock independente brasileiro, e Forgotten Boys era uma das bandas de que eu gostava na época, cheguei a ir a alguns shows e tal (ah, a adolescência...). Hoje esse álbum não me diz quase nada, e tenho a impressão de que mesmo na época não gostava tanto dele — o Stand by the D.A.N.C.E. é muito melhor —, mas era o lançamento deles, então eu tinha que ouvir. As músicas, rocks cantados em inglês ou em português, são parecidas entre sim e embora não sejam insuportáveis, também não vão fazer falta na minha vida. Avaliação: 2/5

9- Made in the A.M. (One Direction, 2015)
De repente você está lá, ouvindo um CD inteiro do One Direction. Várias pessoas estavam elogiando o álbum, inclusive gente que não ligava para a banda antes, então eu, enxerida como sou, fui atrás, né, fazer o quê? Eu nunca desgostei propriamente da banda, só achava chato quando os hits ficavam presos na cabeça. Há uma grande diferença entre ouvir um hit pop e um álbum inteiro disso, porque o hit vai ficar na sua cabeça sozinho, mas depois de ouvir vários hits potenciais da mesma banda em seguida o que se segue é meu cérebro tentando processar com que refrão eu devo ficar obcecada. Enfim, o fato é que o álbum funciona: as músicas animadas são ótimas, eu consigo imaginar os calouros cantando as baladinhas no The Voice... Tudo é bem produzido e pronto para grudar na cabeça, o que é bom quando se gosta da música, e eu gostei da maioria delas. Mas também é ruim, porque elas são criadas para serem fáceis de decorar, e por isso são repetitivas. Quando estou fazendo outra coisa, tipo lavando a louça, não é um problema, mas ouvir prestando a atenção deixa algumas músicas cansativas. O álbum poderia ter sido mais curto, mas é claro que eles fazem uma versão deluxe para vender mais caro. Em resumo: gostei e a magia pop deles funcionou bem comigo. Avaliação: 3,5/5

10- Made of bricks (Kate Nash, 2007)
Conheci a Kate Nash na época em que se falava da nova geração de cantoras britânicas, sempre colocando-a do lado da Lily Allen. Portanto, ouço o Made of bricks há bastante tempo. Mas nunca fui muito fã dele por completo. Já tive fases de ouvir muito "Foundations" e "Mouthwash", mas o álbum inteiro não me conquistou. Tem algumas músicas estranhas como "Dickhead" e "Shit song" e nem tudo é o pop fofo que eu esperava ouvir, mas ainda assim, ou talvez justamente por isso, vale a pena conhecer. Avaliação: 3,5/5

sábado, 13 de fevereiro de 2016

O crime do padre Amaro, Eça de Queirós

 O pároco fechou a porta do quarto. A roupa da cama entreaberta, alva, tinha um bom cheiro de linho lavado. Por cima da cabeceira pendia a gravura antiga dum Cristo crucificado. Amaro abriu o seu Breviário, ajoelhou aos pés da cama, persignou-se; mas estava fatigado, vinham-lhe grandes bocejos; e então por cima, sobre o teto, através das orações rituais que maquinalmente ia lendo, começou a sentir o tique-tique das botinas de Amélia e o ruído das saias engomadas que ela sacudia ao despir-se.
Essa foi uma leitura para a faculdade. Eu gostei mais do que esperava de A cidade e as serras, mas não teria vontade suficiente de ler mais do Eça sem algum incentivo. Porém existia uma Literatura Portuguesa III no meio do caminho, então... Lá fui eu ler O crime do padre Amaro.

A história é famosa: um padre tem um caso com uma jovem. Sendo um livro realista, ele foca mais na sociedade, na cidadezinha de Portugal e como funcionam as dinâmicas de poder lá, do que no amor romântico, que é inclusive ironizado. Os personagens são mais caricatos e não apresentam grande densidade psicológica. E, claro, são quase todos odiosos. 

Eu gosto do jeito irônico de escrever do Eça, que torna a leitura mais agradável e engraçada. Mas eu li o livro rapidamente, em cima da hora porque eu procrastinei e tinha prova, e isso deixou a leitura um pouco cansativa. Os dramas de cidadezinha pequena começam a ficar enrolados demais e perdi a paciência, acho que aproveitaria mais se o livro fosse mais curto (ou se eu lesse mais devagar...). De qualquer jeito, a história e as críticas, infelizmente, continuam bem atuais.

Enfim, a resenha vai ficar curta mesmo porque não tenho muito o que falar. Para quem gosta do estilo mordaz e descritivo do Eça, O crime do padre Amaro é uma boa pedida. Não posso comparar com o resto da obra dele porque só li dois livros, mas entendo o lugar de destaque que a história sobre o padreca ocupa — embora esse destaque se deva mais à fama da história do que ao livro em si (faz sentido?). Eu provavelmente deveria ler O primo Basílio também, porque como estudante de Letras eu teria que conhecer bem esse romance também, mas literatura realista portuguesa continua não sendo minha prioridade.

Avaliação final: 3,5/5