quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Eles eram muitos cavalos, Luiz Ruffato

Na esquina com a rua Estados Unidos, o tráfego da avenida Rebouças estancou de vez. Henrique afrouxou a gravata, aumentou o volume do toca-cedê, Betty Carter ocupou todas as frinchas do Honda Civic estalando de novo, janelas cerradas, cidadela irresgatável, lá fora o mundo, calor, poluição, tensão, corre-corre.
Estou cursando uma matéria sobre literatura brasileira contemporânea e Eles eram muitos cavalos é uma das futuras leituras. Decidida a adiantar algum livro, comecei, obviamente, lendo o mais curto, porque se não começasse pelo mais fácil não seria eu.

No entanto, eu não definiria como "fácil" o livro do Luiz Ruffato. Ele é separado em setenta episódios que se passam todos no mesmo dia na cidade de São Paulo e vão desde narrativas mais tradicionais a textos de jornais. São variados também os tipos de personagens e os locais retratados.

A ideia de Eles eram muitos cavalos é inteligente, (pós-?)moderna, contemporânea. É um livro interessante, mas não posso dizer que adorei, porque achei muitos fragmentos chatos. Muitos terminam no meio, ou são aquele tipo de prosa poética que precisa de muita imaginação para funcionar. Não sou intelectual o suficiente para apreciar tudo, embora tenha vários episódios que me agradaram bastante.

Estou bem curiosa para saber o que os acadêmicos pensam do livro, tão elogiado pela crítica mas nem tanto pelos leitores. Termino com a minha resenha favorita dele, de um gênio do Skoob que resumiu o sentimento de muita gente em tão poucas palavras:



Avaliação final: 3/5

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

O que eu ouvi #1

E aí eu decidi escrever também sobre música. Eu não entendo nada teórico sobre o assunto, mas desde quando não saber algo técnico me impediu de falar sobre isso? Meu blog foca em achismos e em opiniões, não em críticas bem fundamentadas, então... Antes de começar, preciso esclarecer umas coisinhas: primeiro, eu não presto muita atenção em letras de música. Sério. Eu pego o tom geral da coisa, mas é difícil eu me importar com isso. Em segundo lugar, estou escrevendo de acordo com os álbuns que ouço no meu iPod. Eu ouço sem fazer outra coisa para poder selecionar as músicas que ficam e as que vão embora. E como eu já estava ouvindo a minha biblioteca em ordem antes de decidir escrever, os álbuns vão sair mais ou menos em ordem alfabética começando pela letra L, com uma exceção ou outra baixada posteriormente. Ah, e minha irmã compartilhou o computador comigo por muitos anos, então tem algumas coisas que são dela no meio. Como temos um gosto parecido, nunca tive a necessidade de separar o iTunes ou coisa assim. Por último, vou deixar o link do youtube das músicas favoritas, mas não vou substituí-lo quando alguns deles certamente saírem do ar, e o link do álbum no rateyourmusic se por algum acaso alguém se interessar em ler mais resenhas sobre o CD — normalmente os textos de lá são bem críticos, nos dois sentidos: manjam mais do assunto e são bem mais chatos e rigorosos e muitas vezes elitistas.

Talvez isso não interesse ninguém além de mim, mas achei que seria interessante. Eu constantemente abro meu player e não faço a menor ideia do que ouvir diante de tantas opções, por isso escrever sobre os álbuns vai me fazer lembrar do que eu gosto. E se ajudar alguém com alguma indicação já é ótimo também. E de qualquer jeito esses posts não vão ser tão frequentes, não se preocupem.

1- Little Deuce Coupe (The Beach Boys, 1963)
É um álbum de músicas curtinhas, de mais ou menos dois minutos. As harmonias mantêm o padrão Beach Boys. Está longe de ser a obra-prima deles, mas é a surf music típica e por algum motivo as músicas falam sobre carros(?). Avaliação: 3,5/5

2- Little Joy (Little Joy, 2008)
O Little Joy surgiu quando eu era bem fã dos Strokes, então fiquei feliz em gostar do projeto paralelo do Fabrizio Moretti. É um tipo de música bom para ouvir deitada na rede ou na praia, bem gostosinha, com um clima de preguiça de fim de semana. O CD, também curtinho, mistura as vozes dos três membros da banda e tem músicas em inglês e em português, algumas mais calmas e outras agitadinhas. Avaliação: 3,5/5

3- The Little Mermaid (Alan Menken e Howard Ashman, 1997)
Minha irmã gosta bastante do filme, então baixou a trilha sonora, porque quando se gosta de um filme da Disney está implícito que se gosta da trilha sonora dele também. Não consigo julgar o quanto gosto das músicas sem relacionar com as memórias da infância, mas de qualquer jeito adoro a maioria das músicas cantadas. Para as instrumentais eu não ligo tanto, mas no geral é uma trilha sonora bem simpática. Avaliação: 3,5/5

4- Have You in My Wilderness (Julia Holter, 2015)
Estava vendo uma lista de melhores álbuns do ano e obviamente descobri que não tinha ouvido falar de quase nada. Tentando ficar por dentro, fui ouvir algumas músicas para decidir quem eu ia baixar, e a Julia Holter foi escolhida. Have You in My Wilderness é um bom álbum, mas para mim não se destacou tanto entre outras centenas de cantoras alternativas. Não sei, também não ouvi o suficiente para me apegar. Poucas músicas chamaram a minha atenção, mas a maioria é gostosa de ouvir — embora as músicas mais compridas, de seis minutos, eu tenha achado cansativas. Avaliação: 3,5/5

5- Lon Gisland (Beirut, 2007)
Eu enjoei um pouco de "Elephant gun" porque desde que conheci a música eu a ouvi mais vezes do que deveria. No entanto, ouvindo o Lon Gisland não tem como não se sentir bem. Saudades, Beirut! Eu ouvi os álbuns mais recentes da banda e não parei de gostar deles, mas esse EP não me deixa esquecer da minha fase favorita. São cinco músicas no total, então é uma boa forma de descobrir se gosta da banda. Avaliação: 4/5

6- London Calling (The Clash, 1979)
Fui atrás do The Clash provavelmente em uma época que estava a fim de conhecer os clássicos do rock. Já tinha ouvido várias musicas da banda, seja na MTV, parte muito importante da minha adolescência, ou por covers de outras bandas. Ouvi pouco o London Calling, principalmente porque ele tem muitas músicas e acaba ficando cansativo. Individualmente, gosto de quase todas as músicas, mas não de escutar tudo de uma vez só. Acho interessante a influência de outros ritmos, tipo ska e reggae, no som deles, por isso é a banda punk clássica pela qual eu mais simpatizo. Avaliação: 3/5

7- Lonely Avenue (Ben Folds e Nick Hornby, 2010) 
Eu provavelmente  conheci o Ben Folds lendo o Nick Hornby, então essa união entre cantor e escritor não me surpreendeu muito. Não sei bem explicar o gênero do álbum, é um pop rock que seria genérico se eu não conhecesse bem a voz do Ben Folds. Tem várias músicas que eu adoro nesse CD, como dá para ver pelos destaques, mas também tem algumas bem descartáveis. Avaliação: 3,5/5

8- Louva-a-Deus (Forgotten Boys, 2008)
Destaque: "Highest stakes"
Eu tive uma fase fã de rock independente brasileiro, e Forgotten Boys era uma das bandas de que eu gostava na época, cheguei a ir a alguns shows e tal (ah, a adolescência...). Hoje esse álbum não me diz quase nada, e tenho a impressão de que mesmo na época não gostava tanto dele — o Stand by the D.A.N.C.E. é muito melhor —, mas era o lançamento deles, então eu tinha que ouvir. As músicas, rocks cantados em inglês ou em português, são parecidas entre sim e embora não sejam insuportáveis, também não vão fazer falta na minha vida. Avaliação: 2/5

9- Made in the A.M. (One Direction, 2015)
De repente você está lá, ouvindo um CD inteiro do One Direction. Várias pessoas estavam elogiando o álbum, inclusive gente que não ligava para a banda antes, então eu, enxerida como sou, fui atrás, né, fazer o quê? Eu nunca desgostei propriamente da banda, só achava chato quando os hits ficavam presos na cabeça. Há uma grande diferença entre ouvir um hit pop e um álbum inteiro disso, porque o hit vai ficar na sua cabeça sozinho, mas depois de ouvir vários hits potenciais da mesma banda em seguida o que se segue é meu cérebro tentando processar com que refrão eu devo ficar obcecada. Enfim, o fato é que o álbum funciona: as músicas animadas são ótimas, eu consigo imaginar os calouros cantando as baladinhas no The Voice... Tudo é bem produzido e pronto para grudar na cabeça, o que é bom quando se gosta da música, e eu gostei da maioria delas. Mas também é ruim, porque elas são criadas para serem fáceis de decorar, e por isso são repetitivas. Quando estou fazendo outra coisa, tipo lavando a louça, não é um problema, mas ouvir prestando a atenção deixa algumas músicas cansativas. O álbum poderia ter sido mais curto, mas é claro que eles fazem uma versão deluxe para vender mais caro. Em resumo: gostei e a magia pop deles funcionou bem comigo. Avaliação: 3,5/5

10- Made of bricks (Kate Nash, 2007)
Conheci a Kate Nash na época em que se falava da nova geração de cantoras britânicas, sempre colocando-a do lado da Lily Allen. Portanto, ouço o Made of bricks há bastante tempo. Mas nunca fui muito fã dele por completo. Já tive fases de ouvir muito "Foundations" e "Mouthwash", mas o álbum inteiro não me conquistou. Tem algumas músicas estranhas como "Dickhead" e "Shit song" e nem tudo é o pop fofo que eu esperava ouvir, mas ainda assim, ou talvez justamente por isso, vale a pena conhecer. Avaliação: 3,5/5

sábado, 13 de fevereiro de 2016

O crime do padre Amaro, Eça de Queirós

 O pároco fechou a porta do quarto. A roupa da cama entreaberta, alva, tinha um bom cheiro de linho lavado. Por cima da cabeceira pendia a gravura antiga dum Cristo crucificado. Amaro abriu o seu Breviário, ajoelhou aos pés da cama, persignou-se; mas estava fatigado, vinham-lhe grandes bocejos; e então por cima, sobre o teto, através das orações rituais que maquinalmente ia lendo, começou a sentir o tique-tique das botinas de Amélia e o ruído das saias engomadas que ela sacudia ao despir-se.
Essa foi uma leitura para a faculdade. Eu gostei mais do que esperava de A cidade e as serras, mas não teria vontade suficiente de ler mais do Eça sem algum incentivo. Porém existia uma Literatura Portuguesa III no meio do caminho, então... Lá fui eu ler O crime do padre Amaro.

A história é famosa: um padre tem um caso com uma jovem. Sendo um livro realista, ele foca mais na sociedade, na cidadezinha de Portugal e como funcionam as dinâmicas de poder lá, do que no amor romântico, que é inclusive ironizado. Os personagens são mais caricatos e não apresentam grande densidade psicológica. E, claro, são quase todos odiosos. 

Eu gosto do jeito irônico de escrever do Eça, que torna a leitura mais agradável e engraçada. Mas eu li o livro rapidamente, em cima da hora porque eu procrastinei e tinha prova, e isso deixou a leitura um pouco cansativa. Os dramas de cidadezinha pequena começam a ficar enrolados demais e perdi a paciência, acho que aproveitaria mais se o livro fosse mais curto (ou se eu lesse mais devagar...). De qualquer jeito, a história e as críticas, infelizmente, continuam bem atuais.

Enfim, a resenha vai ficar curta mesmo porque não tenho muito o que falar. Para quem gosta do estilo mordaz e descritivo do Eça, O crime do padre Amaro é uma boa pedida. Não posso comparar com o resto da obra dele porque só li dois livros, mas entendo o lugar de destaque que a história sobre o padreca ocupa — embora esse destaque se deva mais à fama da história do que ao livro em si (faz sentido?). Eu provavelmente deveria ler O primo Basílio também, porque como estudante de Letras eu teria que conhecer bem esse romance também, mas literatura realista portuguesa continua não sendo minha prioridade.

Avaliação final: 3,5/5

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Retrospectiva: janeiro

• Eu finjo que não ligo para passagem de ano, mas na verdade janeiro é sempre um dos melhores meses. São as férias, sem o cansaço residual que dezembro tem e o estresse das festas de final de ano. Mas o calor, é claro, é insuportável.

• No entanto, nem tudo dá certo, e já comecei o ano falhando em algumas propostas. Não consegui colocar o blog em ordem como eu esperava. Cheguei a conclusão de que quando a gente tem vontade, não tem tempo; quando tem tempo, não tem vontade e, se temos os dois, não temos disposição — de repente aparece uma dor de cabeça dos infernos. Enfim, o fato é que fui atrasando o que queria escrever porque não estava a fim de escrever. Consegui fazer o mínimo, felizmente, mas não tirei o atraso que 2015 deixou.

• Em janeiro houve também um boom de newsletters novas, o que deixou a minha caixa de entrada mais feliz e meu período no trabalho um pouco menos tedioso. Fiquei pensando em fazer uma, mas percebi que o conteúdo seria igual ao desse post e de qualquer jeito quase ninguém iria assinar. Depois, em um dia em que estava voltando do trabalho a pé e refletindo sobre viagens espaciais e a humanidade por causa de Perdido em Marte, pensei que poderia fazer uma newsletter com textos mais reflexivos e ~filosóficos~. Só que eu tenho uma grande dificuldade em escrever coisas pessoais desse nível, e muitos dos insights que tenho parecem bobagem meia hora depois, como meus pensamentos sobre o espaço, então eu perco a vontade logo. Enfim, talvez um dia quando vier um impulso irrefreável eu crie uma newsletter. Por enquanto estou só observando.

• De quando eu fiquei quase aliviada porque o David Bowie morreu: no dia da morte dele, minha mãe ia fazer uma cirurgia. Era algo pouco perigoso, mas a gente sempre fica receosa, especialmente porque minha mãe não é a pessoa mais saudável do mundo, é idosa, etc. Aí de manhã eu li meu horóscopo no jornal. Pausa: eu quase nunca leio o horóscopo, e em geral o da Folha diz coisas profissionais que nem tem como encaixar na minha vida. Mas o do dia dizia sobre ciclos que se encerrariam, e os textos dos signos de outras pessoas da minha família também falavam coisas que poderiam ser interpretadas como morte. Eu não acredito de verdade em astrologia, mas vai que funciona? Enfim, fiquei preocupada. Mas quando eu cheguei no trabalho e fui ler o Twitter as notícias, vi que o David Bowie tinha morrido. Fiquei chocada, porque a gente nunca espera que uma pessoa que lançou disco há tão pouco tempo morra, não sei, uma semana depois? Mas eu também fiquei um pouco aliviada: o horóscopo podia se referir a morte dele, não da minha mãe. E no final deu tudo certo com a cirurgia. Desculpa, Bowie, não é nada pessoal, juro.

• Dessa vez eu me lembrei de guardar links para indicar! O primeiro é sobre aqueles trenzinhos com gente fantasiada, tipo as pessoas desse que é o melhor clipe feito pela internet. Enfim, eu nem sabia que os trenzinhos eram um negócio grande e sério, na minha época era só algo infantil de cidade de interior mesmo. A reportagem é bem longa, mas é uma delícia de ler e as fotos são maravilhosas (e eu bem acho que poderiam fazer um filme de terror com essas fantasias e máscaras).


• O outro é um clima completamente diferente. É um tumblr sobre comédias românticas. Eu adoro ler esses projetos de quem resolve seguir uma lista, fazer um desafio e coisas afins. E é sobre comédias românticas, o que é maravilhoso. Eu não vi a maioria da lista pois sou poser do gênero, mas obviamente estou colocando na lista as com enredos mais mirabolantes e as clássicas que não assisti ainda.

Em janeiro:  
Eu vi… muita coisa! Finalmente assinei o Netflix no final do ano passado, e obviamente me aproveitei bem dele. Vi onze filmes no total, o que é um número alto para os meus padrões, comecei a ver Friends em ordem, porque sempre vi tudo picado na TV, e vi os primeiros dois episódios de Mad Men. Além disso, comecei a ver Honey & Clover II, e já me arrependi e estou frustrada, porque gostei tanto da primeira temporada do anime, mas a segunda foca nas relações românticas e é tanto dramalhão... E, é claro, comecei a ver a segunda temporada de Are you the one? Brasil

Eu (re)li… A irmandade das calças viajantes. Finalmente eu consegui terminar a releitura de uma série inteira. Em 2013 eu tentei reler Harry Potter e parei no terceiro. Em 2014 comecei a reler Desventuras em série e parei no terceiro. Mas as calças viajantes resistiram a maldição e consegui ler o quinto livro da série pela primeira vez também. Vou fazer um post com minhas impressões sobre cada livro em breve.


Eu ouvi… bastante coisa do meu iPod. Logo vou começar uma seção musical aqui no blog dando pitacos sobre os álbuns que eu escutei. Não sei se alguém vai se interessar, mas é uma maneira de eu pensar mais no que ouço.

Eu escrevi… outro texto para a Pólen, dessa vez uma resenha sobre as calças viajantes que fala mais sobre mim do que sobre os livros. Não fiquei muito feliz com esse texto, que gerou uma crise de por-que-eu-insisto-em-escrever e de como-é-difícil-escrever-sabendo-que-vai-ter-gente-que-vai-ler. Enfim, o de sempre. E isso ainda veio em um mês em que eu estava me sentindo bem com a escrita e pensando que talvez devesse divulgar mais algumas coisas que escrevo.

Eu comi… cookies e torta de liquidificador, minhas receitas do mês. Decidi que vou cozinhar pelo menos uma receita por mês (quando digo receita é porque tem que ser algo com receita a ser seguida, não coisas como arroz e carne moída que faço normalmente). Aos poucos vou aumentando meu repertório, mas por enquanto eu provavelmente não conseguiria viver sozinha... 

Eu fui… visitar a Casa das Rosas com uma amiga. É engraçado como eu sempre vivi em São Paulo e ainda tenho muitos pontos turísticos para conhecer. A casa e o jardim são bonitos, mas não diria que a visita é imperdível.

Eu (não) comprei… nenhum livro. Será que em 2016 eu consigo resistir aos impulsos consumistas?

Eu fiz… uma organização nas minhas coisas, mas tudo continua uma bagunça. 

No blog:

• Escrevi uma resenha de Cabeça de vento, um livro sobre troca de corpos!

• Também chegou a hora da retrospectiva de livros de 2015, que ficou gigante por motivos de reflexões sobre meu processo de leitura.

•  Depois postei a resenha de Garota exemplar, que mesmo que eu já soubesse parte do mistério não deixou de me impactar.

• Já quase no final do mês, publiquei a retrospectiva de dezembro.

•  A última resenha foi de Sayonara, gangsters, um livro estranhíssimo mas muito legal.

• Por fim, escrevi sobre os filmes que vi lá no meio do ano passado.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Por que Indiana, João?, Danilo Leonardi

Atrás de uma pilastra, sentado no chão. É onde você me encontraria, se quisesse passar o intervalo das aulas comigo, mas provavelmente não ia querer. Por quê? Sei lá. Assim é o mundo e está tudo bem por mim.
Admito: tenho um pouco de preconceito com novos autores brasileiros. A questão é que alguns deles são publicados porque são populares em outras mídias, e aí as pessoas gostam dos livros pelos autores, e eu fico em dúvida se devo confiar na opinião alheia ou não. Mas a curiosidade sempre me vence, e foi assim que me vi solicitando Por que Indiana, João? para troca no Skoob. Achei que era a oportunidade perfeita: eu não precisaria gastar dinheiro com o livro e mesmo que não gostasse poderia colocar o livro para troca de novo. E, no final, eu pretendo trocá-lo, mas não porque não gostei.

O livro conta a história de João, que sofre bullying na escola. Ele é tímido, nerd e mudou para a escola há pouco tempo, sendo alvo perfeito para os valentões. Até que um dia ele revida, e um vídeo gravado da briga viraliza na internet. Ele se torna popular, mas com grandes poderes vêm grandes responsabilidades, e João tem que aprender a lidar com sua nova vida.

Basicamente, parece um enredo típico de histórias de bullying e superação, e eu estava gostando bastante da leitura. É um livro que me prendeu, fácil e rápido de ler, e dá para ler em um dia mesmo. Eu estava pensando até em dar quatro estrelas, que é uma nota alta para os meus padrões e que superaria minhas expectativas em relação ao livro. Até que... A história perdeu um pouco do rumo no final e os plot twists foram mais importantes para o autor do que a verossimilhança. No começo tudo bem, uma surpresa a gente até acha bom, mas aí ele simplesmente força a barra e terminei o livro muito frustrada. O drama que a história tenta trazer não é coerente com a leveza que o assunto, por mais sério que seja, era tratado até então. Enfim, não precisava, né?

Por que Indiana, João? reúne personagens simples, mas com algum carisma, em uma discussão sobre um assunto muito importante para os jovens. Achei especialmente interessante ver como a escola trata o bullying, sem saber bem o que fazer, e com professores até incentivando. Isso pareceu realista.O livro não é um tratado definitivo sobre o tema, e nem é isso que pretende ser. Ele funciona como história, embora às vezes seja um pouco raso. É uma boa estreia de Danilo Leonardi, e só vou trocar o livro porque não pretendo ficar com livros que não pretendo reler.

Avaliação final: 3,5/5

domingo, 31 de janeiro de 2016

Os (não tão) últimos filmes que eu vi #16

1- O conto da princesa Kaguya (Isao Takahata, 2013)
Eu já falei que esse foi um dos meus filmes favoritos do ano passado, mas não custa repetir: que filme bonito! Valeu a pena ter esperado tanto tempo para assistir no cinema. Embora nos elogios que li das pessoas vi muito sobre as mensagens que o filme passa e coisas assim, não me importei muito com isso: o filme me encantou principalmente pela parte estética e pela trilha sonora — não que a história não seja interessante, embora eu não tenha gostado muito da parte final. Virou um dos meus favoritos do Ghibli. Avaliação: 4,5/5

 
2- O castelo de Cagliostro (Hayao Miyazaki, 1979)
É o primeiro longa-metragem dirigido pelo Miyazaki e conta a história de Lupin III, neto do famoso ladrão Arsène Lupin. O filme é bem divertido, o protagonista é carismático e os cenários são bem bonitos. Achei que a história se alongou um pouco — talvez seja por isso que eu não goste muito de filmes de ação? São muitas reviravoltas —, mas no geral é um bom entretenimento, e uma estreia interessante do diretor. Avaliação: 3,5/5

3- Quando estou com Marnie (Hiromasa Yonebayashi, 2014)
Outro filme do Ghibli, porque foi uma época de mostras de cinema interessantes. Não tinha grandes expectativas porque não conhecia a história, que é basicamente sobre o amadurecimento de Anna, personagem que inicia tímida e retraída e vai aprendendo a se abrir com Marnie. Gostei bastante da Anna e de como ela foi tratada no filme, sem romantizar sua falta de habilidades sociais. Mas a Marnie, em compensação, é bem idealizada, e a relação entre elas é um pouco exagerada, sem sutilezas. Eu já imaginava a revelação do enredo, o que também estragou parte da graça. A estética, no entanto, me agradou bastante, e os cenários não decepcionam. Avaliação: 3,5/5

4- Birdman ou (a inesperada virtude da ignorância) (Alejandro González Iñárritu, 2014)
Uma professora da faculdade sugeriu que a gente discutisse o filme em sala, então decidi ir atrás de Birdman, atrasada como sempre sou na discussão do Oscar. E eu gostei mais do que esperava. Não sei dizer nada em termos técnicos, mas a história é interessante, e o fato do filme ser em plano-sequência pelo menos dá um diferencial. Achei o filme menos arrogante do que esperava pelos comentários que li, porque a minha impressão é de que ele não se leva tão a sério e sabe o quanto está envolvido naquilo que critica. E os atores estão muito bem, gostei bastante da atuação do Michael Keaton e do Edward Norton. Mas ele tem o problema da maioria dos filmes do Oscar para mim: a qualidade é boa, mas não emociona. Avaliação: 4/5

5- A revolução dos bichos (Joy Batchelor e John Halas, 1954)
Eu só ouvi falar nesse filme por causa da lista dos 1001 filmes. Como é uma animação, eu só precisei ver um filme para usar em dois projetos! Assisti sem grandes expectativas, não achei grande coisa, mas valeu a pena por me fazer relembrar da história e me dar vontade de reler o livro, que li há uns seis anos. O final do filme é diferente do final do livro e achei a mudança interessante, mas não dá para comentar mais do que isso sem spoilers. Avaliação: 3,5/5

6- Princesa Arete (Sunao Katabuchi, 2001)
O MIS fez uma mostra de anime e consegui aproveitar e ver um filme. Princesa Arete é conhecido como um filme de princesa feminista e é só isso que eu sabia antes de vê-lo. O que encontrei? Um filme um pouco menos feminista do que esperava, mas mesmo assim bem interessante. A história tem vários elementos de contos de fada, como a princesa trancada solitária, uma bruxa e um mago, mas consegue trazer novidades com isso. Eu não entendi algumas coisas do enredo, não sei se foi porque não consegui ler as legendas direito — cinema do MIS: não recomendo para baixinhos —, por questões de tradução ou porque é confuso mesmo. Achei também o filme um pouco cansativo. Valeu a experiência, de qualquer jeito. Avaliação: 3,5/5

7- Gatos, fios dentais e amassos (Gurinder Chadha, 2008)
Confesso que tinha curiosidade em ver esse filme há algum tempo mas evitava só por causa desse título vergonhoso. Mas a vontade de ver uma comédia adolescente chegou, então finalmente matei a curiosidade. É um filme fofinho, não muito diferente de outras tantas comédias adolescentes, com o enredo da garota normal que quer dar o seu primeiro beijo, além de ter garotas malvadas, os novos alunos gatinhos, etc. É clichê, tem partes mal desenvolvidas, uma ótima definição de diversão supérflua, mas é tão fofo, e quando terminou eu me senti tão bem... E também se passa na Inglaterra, então tem sotaque britânico e a trilha sonora é cheia de bandas que eu costumava escutar na época, tipo Mumm-Ra e The Pigeon Detectives. Avaliação: 3,5/5

8- Que horas ela volta? (Anna Muylaert, 2015)
Eu até tinha escrito um textão sobre o filme, sobre como eu conheci o trabalho da Anna Muylaert e tal, mas honestamente estou tão cansada de ouvir sobre Que horas ela volta? que imagino que vocês também estejam. Basicamente, eu achei tudo isso que as pessoas falam, mas entendo algumas das críticas. O que gostei é como o filme consegue mostrar a realidade da sociedade brasileira, escancarando sua desigualdade, ao mesmo tempo que emociona e cativa. É um filme surpreendentemente envolvente, daqueles que você fica triste quando acaba. Avaliação: 4,5/5

9- Whiplash: em busca da perfeição (Damien Chazelle, 2014)
Continuando com a seção Oscar atrasado. Quando o filme estreou aqui e as críticas foram bem positivas, cheguei a considerar ver o filme no cinema. E fico feliz por não ter feito isso. A questão é que não gosto do som da bateria sozinha, desculpa aí. Então embora o filme seja bem-feito, os atores estejam ótimos, a história seja interessante e tudo mais, as cenas de solo me davam um pouco de agonia. Não é você, Whiplash, sou eu. Mas, como o filme não é feito só de solos, gostei bastante do resto. Preferia que a história do protagonista fosse melhor contada além do desenvolvimento musical, porque achei que algumas coisas ficaram meio soltas, mas não é aí que o filme quer chegar. Foi interessante ver a opinião das pessoas sobre a mensagem do filme — tem gente que acha que glorifica o protagonista, outros que a obsessão dele é criticada e outros ainda que o diretor é neutro. Para mim é uma crítica, porque a cena dele com a garota diz tudo o que eu preciso para julgar o protagonista como idiota. Mas tem muita gente que até concorda com a postura do professor, vide comentários no IMDB, então sei lá, né, cada um vê o que quer. Avaliação: 3,5/5

10- Catfish (Henry Joost e Ariel Schulman, 2010)
Gosto bastante do reality show homônimo. Não de assistir todos os episódios, mas de vê-los até o fim quando pego na TV, porque a estrutura de investigação prende bem o espectador e algumas histórias são mesmo interessantes — estamos conhecendo as pessoas por trás dos fakes, não é fascinante? Enfim, por causa do programa eu fiquei curiosa para conhecer a história do Nev, o apresentador. A forma do filme é bem parecida com a do programa, como se fosse um documentário caseiro, mas com algumas cenas que deixam claro que é editado. Isso fez muita gente se questionar se é mesmo uma história verdadeira, discutindo suas teorias e questões nos fóruns por aí. Eu acho que a questão aqui não é saber até que ponto é real; é lógico que as pessoas se comportam de outra forma quando estão sendo filmadas, e é óbvio que o filme é editado. O fato é que as situações de Catfish acontecem na vida real, e é interessante conhecer o outro lado da história, de quem engana. Se o filme é real ou ele mesmo é um catfish, tanto faz para mim, o importante são as questões que ele coloca. Avaliação: 3,5/5

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Sayonara, gangsters, Genichiro Takahashi

 
Há muito tempo eu escrevo poesias.
Eu tinha três anos quando escrevi meu primeiro poema, a lápis crayon, no livro de contabilidade doméstica de minha mãe.
Minha intenção era escrever uma ode idolatrando meu adorável penico-troninho de plástico em forma de patinho.
Eu gosto de livros estranhos. Gosto de ler histórias não lineares, sem explicações, que só são. São o quê? Não sei. Ao mesmo tempo, às vezes tenho medo de lê-las, porque parece que eu deveria ser inteligente o suficiente para compreender a loucura. Olha um pedaço da sinopse de Sayonara, gangsters do Skoob: "Ao mesmo tempo que original e profundo, "Sayonara, Gangsters" é acessível, uma obra literária pós-moderna única, que procura entreter em vez de intimidar. Desde a extravagância do seu começo, que pode ser lido como referência à guerra contra o terrorismo, até o final grave, devastador, e através de seu lirismo pungente, este primeiro romance de Takahashi, publicado no Brasil, é como um alucinógeno criado para fãs de literatura." Se falou em pós-moderno, já fico receosa. Mas a curiosidade era grande, e enfrentei o livro.

E descobri que essa sinopse até que está correta. O que me marcou no livro não é que ele é profundo ou tem milhares de significados, mas que ele entretém. Ele é escrito em frases curtas, em muitos parágrafos, e é muito fácil de ler. Eu li trezentas páginas em um ou dois dias, e não só porque é rápido, mas também porque prendeu a atenção. O mundo em que se passa o livro não é muito bem explicado, mas a gente entra na história facilmente. Sayonara, gangsters é dividido em três partes, todas ligadas pelo mesmo narrador, o protagonista da história, e com uma unidade clara: a primeira parte é sobre os relacionamentos do personagem, a segunda sobre seu trabalho na escola de poesia e a terceira sobre os gangsters do título.

Imagino que o livro tenha muito de pós-moderno mesmo, não só pela forma, mas pelos absurdos que são inseridos na história e que devem ter algum significado — como Virgílio, o poeta, se tornando um refrigerador. Mas, como bem diz Clarice e eu sempre repito quando leio algo que não sei bem o significado, não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento. ¯\_(ツ)_/¯

Além disso, a falta de conhecimento sobre a cultura japonesa potencializa a dificuldade de entendimento do que pode ser crítica ao país, mas é o seguinte: você não entende os significados, mas entende o enredo. Nesse caso, foi mais que o suficiente para mim. Fiquei curiosa para ler mais do autor, especialmente o livro chamado John Lennon vs. os marcianos(!!!), mas Sayonara, gangsters foi o único livro traduzido para o português.

Avaliação final: 4/5