quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Cabeça de vento, Meg Cabot

Dr. Holcombe estava certo sobre uma coisa: eu estava começando a notar que algumas coisas pareciam diferentes do que eram antes do acidente.
E não apenas o fato de eu não gostar mais de sorvete. Isso era o menos importante nesse momento. O mais estranho até agora era o modo como a minha família estava agindo perto de mim... Como se eles não me conhecessem.
Era quase como se — e sei que isso parecia loucura — eu fosse outra pessoa.
Eu gosto bastante de alguns tropes bem forçados e clichês, como o de namorados-de-mentira-que-se-apaixonam-de-verdade, o de o-que-aconteceria-se-eu-não-existisse e o de troca de corpos. Então é óbvio que eu tinha vontade de ler Cabeça de vento desde que soube da sua existência — uma estudante que troca de corpo com uma modelo famosa é o tipo de coisa que grita "diversão!" para mim. E de fato o livro cumpriu seu papel.

Em mais detalhes, o livro foca em Emerson Watts, adolescente nerd que acredita "não ser como as outras garotas". Ela despreza as meninas populares, que sabem de tudo sobre as celebridades e que querem ser líderes de torcida. Só que, ao acompanhar sua irmã em um evento para ver o cantor sensação Gabriel Luna, Em sofre um acidente junto com a top model Nikki Howard. E quando certa manhã Em acorda de sonhos intranquilos, encontra-se em sua cama metamorfoseada em Nikki. Ou algo assim. Isso rende as confusões típicas da troca de corpo, como a dificuldade de se reconhecer no corpo alheio e de lidar com a nova vida; no caso, a vida de celebridade.

Assim como em O diário de princesa, Meg Cabot foca no processo de mudança e tenta quebrar alguns estereótipos. O problema é que já estou saturada desse papo de menina nerd que se acha superior, então fiquei um pouco cansada do discurso da Em, mesmo quando ele é ironizado — porque, afinal de contas, já sabemos que ela está errada e vai amadurecer.

O segundo e maior defeito do livro é que ele não tem final. Não acaba em um cliffhanger, mas as situações não se resolvem, o que é MUITO frustrante. Eu pretendo ler as continuações, mas acho péssimo quando o livro termina como se estivesse inacabado, sabem? Não quero me sentir obrigada a ler as continuações, quero sentir vontade de lê-las porque gostei do primeiro o suficiente — o que talvez acontecesse com Cabeça de vento de qualquer jeito.

Enfim, apesar dos pesares, gostei bastante da história. Achei que a Em podia ter mudado mais na sua trajetória, mas entendo que a Meg por enquanto tenha ido mais para o lado cômico e menos para o moral. É uma leitura rápida, engraçada e que prende a atenção, tudo que uma história de troca de corpos precisa, mesmo que essa não seja tecnicamente uma troca de corpos nem transferência espiritual, porque é só de um lado. Se eu não tivesse outras leituras programadas, leria as continuações logo em seguida, mas infelizmente elas vão ter que esperar. Às vezes tudo de que a gente precisa é de uma história mirabolante e divertida e obrigada, Meg Cabot, por trazê-las para nós.

Avaliação final: 3,5/5

sábado, 2 de janeiro de 2016

Retrospectiva: filmes de 2015

Em 2015 eu vi o total de 47 filmes, o que está mais ou menos dentro do esperado. Ainda não consegui postar o que escrevi sobre quase metade deles, mas garanto que vou publicar depois, até porque só falta digitar e transformar em post. Acho também que a seção vai passar a ter sempre dez filmes para não ficar atrasada demais. Mas enfim, voltando ao ano passado...

No começo do ano, fui na locadora do bairro pela última vez. Alugamos Uma longa queda e Ninguém pode saber. Eu frequentava pouco a locadora, mas ela tinha um acervo bem razoável de filmes clássicos, europeus e asiáticos, mais difíceis de achar na internet para quem não sabe baixar filmes e só vê online, como é meu caso. Ela não fechou, até onde eu sei, apenas se mudou para um lugar mais longe, mas com Netflix e internet a gente acaba preferindo as opções mais cômodas, não é?

Vi também alguns filmes do Oscar, tanto de 2015 quanto de 2014, sempre atrasada pois preguiça de ir atrás dos filmes na época da premiação — depois de ter que ficar procurando os posts nos blogs que eu leio sobre os filmes eu até cheguei a pensar em ver os filmes na hora certa e curtir a vibe de todos discutindo o mesmo assunto, mas obviamente já estou descartando a ideia porque eu não sou de ver muito filme em seguida, especialmente filmes que tenham o mesmo estilo, no caso, estilo filme de Oscar. Enfim, eu vi Álbum de família, Nebraska, Ela, Birdman e Whiplash. O destaque fica com Birdman: foi o filme mais marcante desses para mim e une boas atuações, boa direção, bom roteiro, boa edição... É um pouco cansativo — a trilha sonora é bem chatinha (bateria: instrumento do Oscar 2015) — e entendo quem ache um filme pretensioso, arrogante ou coisa do tipo. Mas eu não acho que o filme se leve tão a sério assim: é um filme hollywoodiano que critica Hollywood, afinal de contas. Ele está dentro do problema que apresenta. Sobre as categorias menores do Oscar, vi Ida, dos filmes estrangeiros, para o qual eu tinha poucas expectativas e acabou me impressionando, e A canção do oceano, uma animação bonitinha.


Falando em animações, meu projeto de assistir uma por mês deu certo. Eu falhei nos meses mais ocupados, mas consegui ver filmes que estavam na fila faz tempo, como O menino e o mundo, O castelo de Cagliostro e Cinco centímetros por segundo (esse foi uma decepção). Duas coisas legais sobre o projeto: a maioria dos filmes eu vi na televisão ou em mostras, sem precisar recorrer à pirataria, e consegui ver filmes de lugares mais diversos. Não vi nenhuma animação americana, e juro que foi sem querer. Assisti uma sul-coreana, uma uruguaia/colombiana, três brasileiras, uma francesa... Tem todo um universo fora da Disney e da Dreamworks para ser conhecido — mas é claro que volto para Hollywood quando precisar, porque ainda não vi Divertida mente.

O projeto de ver um filme da lista dos 1001 para assistir antes de morrer também funcionou bem. Vi alguns clássicos daqueles que são citados toda hora, como A felicidade não se compra, o eterno filme de Natal, e O sexto sentido, do plot twist mais famoso. Nem todos os filmes me empolgaram, mas ainda tenho muitas, mais de novecentas (risos), opções para explorar. O destaque aqui fica com Thelma & Louise, um filme de mais de vinte anos mas com uma temática feminista bem atual. 


Em 2015, eu participei do meu primeiro desafio cinematográfico, Não completei ainda e estou fazendo conforme dá vontade, mas assisti vários filmes que já queria ver mas estava procrastinando, como Adeus, Lênin! e Catfish. Eu encaixei os filmes que assisti nos temas primeiro, e agora estou indo atrás do que falta, como sempre faço, e pretendo concluir o desafio nesse ano. Tem vários temas que são um pouco fora da minha zona de conforto cinematográfica, mas consegui achar boas opções para várias categorias. Além disso, o desafio ajuda naquela hora de "quero ver um filme mas não sei qual", muito recorrente na minha vida. Porque se eu não fosse atrás de um filme do desafio, eu provavelmente assistiria a uma...

Comédia romântica indie, que não necessariamente precisa ser comédia, nem romance, nem indie (aliás, morro de vergonha toda vez que escrevo "indie", mas é o modo mais fácil de definir esses filmes, mesmo que não sejam de fato independentes). Porque eu obviamente vi vários filmes mais ou menos dentro da categoria: Ligados no amor, Uma notícia inesperada (a.k.a. Obvious child), Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida, Gatos, fios dentais e amassos (esse é adolescente e eu só o citei aqui porque é uma bela comédia romântica adolescente, apesar do nome constrangedor), Será que? e Frances Ha. Todos passam uma sensação de conforto, alguns feels e às vezes também um pensamento de "já vi essa história antes". Frances Ha, nessa categoria, fica como o melhor, justamente porque a protagonista não precisa se encontrar no amor. É também provavelmente o mais identificável deles, uma jovem lidando com os vinte e poucos anos. Eu costumo ser pessimista na vida, por isso fico com um pé atrás em relação às mensagens desse tipo de filme, mas juro que quis acreditar na Frances e ser um pouco mais como ela.


Não vi muitos filmes ruins em 2015. O pior foi Sharknado, que não foi divertido como eu esperava. Outro filme que ficou na minha mente como ruim, apesar de eu ter dado uma avaliação de 3 estrelas, é Chamada a cobrar. Eu não entendi aonde ele queria chegar — um suspense? Uma comédia? É para a gente ter dó da protagonista ou para odiá-la? É até engraçado pensar que se nesse filme a mensagem se esconde, em Que horas ela volta?, da mesma diretora, ela está explícita demais. E também é curioso ver que alguém pode ter uma produção tão diferente: a Anna Muylaert fez um dos piores filmes do meu ano, mas também um dos melhores, porque sim, eu também adorei o onipresente Que horas ela volta?.

Eu fui assistir ao filme já tendo lido vários textões a respeito, porque meus amigos de Facebook, a maioria meio intelectual, meio de esquerda e ainda por cima mais ou menos do mesmo círculo de amizades da Anna Muylaert, adorou e divulgou incansavelmente Que horas ela volta?. E eu entendo, porque eu também tive a súbita vontade de escrever uma análise depois que vi o filme. Tem tanta coisa que pode ser analisada que a mão de escrever textão chega a tremer — mas eu resisti, amigos. E o filme não é só crítica social, ele também emociona, de verdade, e consegue prender o espectador.

O outro filme que merece o título de melhores do ano é O conto da princesa Kaguya. Ele demorou muito para chegar nos cinemas daqui, e a estreia foi adiada algumas vezes, mas valeu muito a pena ver essa animação na tela grande. Que filme lindo. Não sei dizer, só sentir... É um filme essencial para os fãs de animação, e virou um dos meus favorito do Ghibli.


E assim termina a retrospectiva de filmes de 2015, um ano em que quase não fui ao cinema no circuito comercial — meus dois favoritos do ano foram os únicos —, mas fui a várias mostras e aproveitei muito do que a programação de São Paulo tem a oferecer. Espero que esse ano também seja assim, com vários filmes bons e de diferentes gêneros.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Colmeia, Gill Hornby

E é claro que gostava das pessoas. Certo: da maioria. St. Ambrose, afinal de contas, era famosa pelas pessoas. Era conhecida em todo o país pelo seu número do "somos uma grande família feliz". Todos apoiavam uns aos outros em St. Ambrose; sentiam orgulho disso. Bem, pelo menos alguns. E Rachel instintivamente sempre fizera questão de se envolver com aquela gente o mínimo possível que a boa educação permitia, muito obrigada.
Colmeia é um dos raros livros atualmente que tive vontade de  ler só por causa da capa. Encontrei-o na livraria, li a sinopse e coloquei na lista do Skoob. Nunca tinha ouvido nada sobre ele e a situação continuou a mesma quando o comprei em uma promoção na Amazon. Na época, eu nem sabia que a Gill Hornby era irmã do Nick Hornby, só achei legal eles terem o mesmo sobrenome. O que me interessou no livro? A capa não deixa claro de que gênero é — parece chick lit, mas não segue exatamente os modelos mais conhecidos do gênero. A sinopse mostra que é uma história de mães de alunos de uma escola primária, presas em um modelo de hierarquia muito semelhante aos do ensino médio, e eu adoro narrativas estilo escolares, de panelinhas e de pessoas em busca de popularidade. Além disso, a palavra "assustador" na frase do The Times na capa dava a impressão de que não seria apenas uma história engraçada.

E o livro me entregou mais ou menos o que ele prometia: é uma sátira do comportamento dessas mães, um Meninas malvadas versão adulta — o filme é inspirado em Queens Bees e Wannabees, e Gill Hornby também se utilizou desse livro para criar sua história. O livro foca em algumas personagens, que apresentam comportamentos diferentes em relação à tal panelinha: temos Rachel, que finge não se importar com popularidade, mas que se sente excluída depois que a tal abelha rainha, Bea, a deixa de lado; Heather, que quer fazer de tudo para entrar no grupo; Georgie, que despreza a panelinha, mas sempre participa dos eventos, e Bubba, nova na escola, louca para se mostrar. Algumas personagens são mais sensatas, outras são caricatas, o que cria uma mistura estranha: tem horas em que você se importa de verdade com o que está acontecendo e em outros momentos você sente que está lendo uma piada na qual é impossível se envolver de verdade. Acho que a autora poderia ter humanizado mais algumas personagens, sem ficar nessa divisão de pessoas interessantes contra pessoas sem noção. 

A metáfora de colmeia realmente funciona, mas é usada explicitamente demais. A mãe de Rachel cria uma colmeia e vai explicando as fases um pouco antes delas acontecerem no próprio livro. Acho que isso podia ter ficado de fora — o título do livro e uma rápida explicação já teriam dado conta, não precisava de mais de uma cena com isso.

Alternando momentos mais envolventes e outros tediosos, cenas dos personagens sozinhos e os eventos da escola, Colmeia é uma leitura curiosa. O livro recebeu uma nota baixa no Goodreads, de 2,79 estrelas, e tem vários defeitos, mas vale a pena para quem se interessar por histórias de donas de casa, popularidade e maternidade.

Avaliação final: 3,5/5

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Retrospectiva: desafios literários

Fim de ano é hora das retrospectivas, yay! Só que para mim o ano só acaba quando termina, então prefiro fazer a lista de melhores e piores em janeiro mesmo, vai que a melhor coisa do ano surge nos últimos dias? Então decidi escrever sobre os desafios literários, que já foram concluídos.

O que li no Desafio Literário Skoob:
Março - Escritoras com A maiúsculo: Por você (Laurelin Paige)
Abril - Pega na mentira!: Faking Faith (Josie Bloss)
Agosto  - Folclore e mitologia: Wolven (Di Toft)
Dezembro - Ganhadores de prêmios: Filomena Firmeza (Patrick Modiano)

Se compararmos com a minha lista inicial de leituras, o que dá para perceber é que, como sempre, a maioria das leituras acabou sendo sem planejamento. Seis desses livros eram da minha estante, três foram leituras necessárias para faculdade/trabalho e o resto li da biblioteca ou do Kindle. Os temas foram simples, mas mesmo assim consegui fugir do que planejava ler, porque é o meu jeitinho. Enfim, já dá para ver que o Desafio Literário não me empolgou tanto. Eu fico animada para ver temas novos, mas quase sempre é repetição das mesmas coisas... Gosto de ter um guia para definir o que vou ler no mês, que é a ideia do Desafio, mas às vezes simplesmente tenho que enfiar o que estou lendo no tema e torcer para encaixar. Isso significa que vou parar de participar de desafios em geral? Obviamente não, porque sou trouxa. Mas do Desafio Skoob acho que vou desistir, pois tem uns temas que são bem fora da minha zona de conforto ano que vem (biografia? Holocausto?) e que eu teria que ir atrás para procurar um livro que me interessasse. Meus planos em 2016 são priorizar minhas leituras da estante, então o desafio não vai funcionar para mim. Mas vou seguir em frente, tem outros troféu desafios. Não vou falar das leituras em si porque vou fazer isso na retrospectiva literária.

O que li no Desafio Literário do Tigre:
Um livro...
com mais de 300 páginas: Esaú e Jacó (Machado de Assis)
clássico: O crime do padre Amaro (Eça de Queirós)
lançado no mês: Not if I see you first (Eric Lindstrom)
escrito por uma mulher: Morte no Nilo (Agatha Christie)
de crônicas: O louco de palestra e outras crônicas urbanas (Vanessa Barbara)
de poesia: Love that dog (Sharon Creech)
recomendado por um amigo: Caixa de pássaros (Josh Malerman)
com capa alaranjada: A ovelha negra e outras fábulas (Augusto Monterroso)
proibido em algum país: Nada (Janne Teller)
de distopia: The summer prince (Alaya Dawn Johnson)
em outro idioma: Faking Faith (Josie Bloss)
com a capa linda: De repente, nas profundezas do bosque (Amós Oz)
com a capa feia: Por você (Laurelin Paige)
que cabe no bolso: Wunderkind (Carson McCullers) 
para ler antes de dormir: Duelo (David Grossman)
para fazer chorar: Laços (Vitor e Lu Cafaggi)

Esse desafio é naquele estilo "leia durante o ano", então o que eu fiz foi ler o que eu queria e encaixar nos temas depois. Em dezembro, fui atrás dos temas que faltaram para concluir. O Desafio Literário do Tigre foi algo mais individual, porque a criadora acabou abandonando o projeto e com isso não me obriguei a publicar duas resenhas do desafio por mês, já que não teria plataforma para divulgá-las. Então tem livros que não foram resenhados ainda na lista e tem leituras iguais ao do DL Skoob? Tem sim. Eu gostei bastante desse formato, tanto que vou continuar aquele desafio da Popsugar, que apesar de não ter a lista no blog, está até que funcionando bem, muito obrigada. Prefiro que o desafio acabe em 2016 (ou 2017, 2018...) do que desistir dele só porque o ano acabou.

• Não li nada para o Sawyer reading challange. Pff...
• Li três livros do Rolling Stone's 40 best YA (Codinome Verity, Diário absolutamente verdadeiro de um índio de meio expediente e The summer prince). A meta era seis, mas estou satisfeita com o número que atingi. No entanto, será que vou superar algum dia a presença absurda de The summer prince nessa lista? Creio que não.
• Não li nenhum livro dos 1001 para ler antes de morrer! Li mais clássicos em língua portuguesa esse ano, então deu nisso. Vou continuar com essas metas só de brincadeira mesmo, porque sei que não vou completá-las (e além disso ano que vem vou ter que ler Pride and prejudice, Wuthering heights e outras coisas da lista).
• E por último, da TBR jar, li dois livros dos sorteados: Wunderkind e Charlotte Sometimes — por coincidência (não), os menores. Claramente a TBR jar não funciona junto com outros desafios literários ao mesmo tempo, mas acho tão relaxante escrever os nominhos no papel, recortar e tal que vou fazer de novo ano que vem. Risos.

A conclusão: sou trouxa.
E vou continuar sendo trouxa em 2016, porque é tão bom completar desafios, tão bom falhar nos desafios. Eu continuo acreditando, apesar dos pesares.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Filomena Firmeza, Patrick Modiano


 
E eu subia na balança com ele. Ficávamos lá, os dois, as mãos do papai nos meus ombros. Não nos mexíamos. Era como se fizéssemos pose diante da lente de um fotógrafo. Eu tirava meus óculos e papai também tirava os dele. Era tudo suave e nebuloso em torno da gente. O tempo parecia ter parado. Sentíamo-nos bem.
A primeira reação que tive quando descobri que Patrick Modiano ganhou o Prêmio Nobel Literatura em 2014 foi me perguntar "quem raios é Patrick Modiano?". Eu não conheço muitos dos vencedores do Nobel, mas isso acontece principalmente quando são pessoas de países como a Bielorrúsia, como a ganhadora desse ano. Modiano é supostamente um dos escritores franceses mais importantes, então nunca ter ouvido falar dele era estranho para mim. Mas ok, vida que segue, e depois do prêmio passou a se falar dele com exaustão, novas edições surgiram no Brasil, novos livros traduzidos, etc e tal. E eu continuei sem me interessar pelo dito cujo. Não morro de amores pela temática da segunda guerra e muita gente que leu os livros dele não gostou, então por que eu iria atrás, né?

Eis que surge Filomena Firmeza, em toda a sua glória de livro com cara de infantil ilustrado pelo Sempé. E eu amo o Sempé, então o que podia fazer? Comprei o tal livro — depois que ele estava em promoção, porque apesar de não ser caro, desconto é sempre bom e a Cosac Naify sempre tem tinha. Eu não sei exatamente o que eu esperava da leitura: de um lado, queria que fosse como um livro escrito pelo Sempé e que me deixasse com aquele sorriso no rosto que só ele consegue me deixar; meu lado pessimista, no entanto, me lembrava constantemente de que várias pessoas não gostam do Modiano. E o resultado foi mais próximo do lado pessimista, mas nem tanto assim.

Basicamente, o livro é narrado pela Filomena do título, uma diretora de uma escola de dança. Ela, em Nova York, relembra da sua infância com o pai em Paris, mostrando o cotidiano deles na cidade. É isso. É tão isso que o livro parece não ter conflito, o que foi o que mais me incomodou. É claro que ele traz várias questões: a narradora já adulta x a memória da infância, a relação da paternidade, a passagem do tempo, etc., mas isso tudo sem um enredo muito bem construído. É de propósito, mas sabe quando você termina o livro e fica tipo "tá, ok, mas aonde você, autor, queria chegar com isso?"? Ou talvez "eu li o livro para isso?"? Foi, de forma exagerada, o que aconteceu. E, veja bem, a culpa não é do Patrick Modiano: como já disse antes, o livro traz várias questões. O problema é que eu não fiquei com vontade de ir atrás delas, o livro não me inspirou para refletir.

Agora para as partes boas: o Sempé, como sempre, fez ilustrações fofas; a história é fácil e rápida de ler, coisa de se resolver em uma sentada; e o livro tem algumas frases bem legais e trechos divertidos, como a festa da amiga da aula de dança da Filomena. Apesar de gostar de como "Filomena Firmeza" soa, algumas partes que explicavam o nome não se encaixaram tão bem em português — o original é "Catherine Certitude" — e imagino que o livro todo ficaria mais bonito em francês. Mas é a vida, algumas coisas se perdem com tradução mesmo.

Enfim, para concluir, a minha primeira experiência com o Modiano foi razoável. Tenho vontade de ler mais coisa dele? Por enquanto não; ele escreve bem, mas se não me conquistou em um livro infantil, duvido que vá me conquistar com outra coisa.

Avaliação final: 3/5

sábado, 19 de dezembro de 2015

Comentários sobre livros #4

1- A zebra Camila, Marisa Núñez e Óscar Villán

Foi outro livro que li antes de dar de presente. Ele tem mais texto do que os outros, uma história mais desenvolvida. As ilustrações são bem bonitinhas, mas o enredo não chamou minha atenção. O ponto de partida é interessante, mas o livro é repetitivo — de propósito —, o que pode cansar os adultos. Avaliação: 3/5

2- Laços de família, Clarice Lispector

Reli para a faculdade. Já escrevi uma resenha sobre ele aqui. É interessante revisitar a obra no contexto de estudo; acho que consegui captar muito mais dos contos agora. Ao mesmo tempo, dá para perceber que continuo a mesma: os contos de que mais gostei continuam iguais aos meus favoritos de antes, embora alguns que tinham me impactado na primeira leitura não chamaram tanta atenção na releitura. Enfim, continuo apreciando a Clarice contista. Avaliação: 4/5

3- Senhor Lambert, Sempé

 É o terceiro livro só do Sempé que eu leio, e achei o pior deles. Na verdade, já imaginava que não iria gostar tanto, porque já tinha aberto o livro antes e começado a ler, mas é chato quando um dos nossos autores favoritos nos decepciona, não é? A história não traz muito de novo, as conversas são repetitivas e as ilustrações, já que o livro se passa no mesmo lugar, um restaurante, não variam muito. Mas o final é engraçadinho, e continuo adorando o Sempé, então não tem como dar uma avaliação baixa. Avaliação: 3,5/5

4- O silêncio, Shusaku Endo

 Após uma aula de japonês em que o professor falou um pouco sobre a influência de Portugal no Japão, incentivei minha irmã a alugar esse livro na biblioteca, porque fiquei com vontade de ler algo histórico japonês. Não sei exatamente se eu estava lendo outras coisas, se estava sem tempo ou algo do tipo, só sei que perdi a vontade no meio do caminho — também por minha irmã ter lido antes e não gostado muito. Li umas trinta páginas, que eram em sua maioria uma introdução falando sobre o período histórico no qual se passa o livro, e acabei desistindo por falta de ânimo. Não queria forçar a leitura e ter que ler cem páginas por dia, então abandonei a leitura mesmo. Não descarto a ideia de ler de novo, se a vontade voltar — até porque o Scorsese vai lançar uma adaptação em breve e o livro vai ser mais comentado. Avaliação (do pouco que li): 3/5

5- Contos de mentira, Luisa Geisler

Eu gostei bastante de textos que já li da autora na internet e só li elogios dos livros dela, então decidi começar pelo livro de contos. Originalmente era para escrever uma resenha, e não um comentário, mas acho mais difícil escrever sobre livros de contos, especialmente quando eles não chamaram a minha atenção. Os contos mostram pedaços do cotidiano e tem estilos variados; alguns focam nos diálogos, outros são fluxos de consciência, por exemplo. A autora escreve bem, e continuo querendo ler seus romances, mas no geral achei os contos sem graça, poucos se destacaram. Avaliação: 2,5/5

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Marcelo no mundo real, Francisco X. Stork

Marcelo no mundo realApesar do termo tão vago e amplo, tenho a sensação de que sei o que significa e as dificuldades que isso envolve. Seguir as regras do mundo real significa, por exemplo, ficar de conversinha com outras pessoas. Significa não falar sobre meus interesses. Significa olhar as pessoas nos olhos e apertar a mão (…) Pode significar andar ou ir a lugares com os quais não tenho qualquer familiaridade, ruas de cidades cheias de barulho e confusão.

Marcelo é um jovem com uma forma leve de autismo. Ele ouve música dentro dele, tem um interesse grande por religião e não gosta de sair da sua rotina. No entanto, seu pai quer que ele conheça melhor o mundo real para que seu filho aprenda a lidar melhor com as dificuldades que a realidade apresenta. Marcelo não gosta da ideia proposta, mas aceita trabalhar durante o verão no escritório do pai, advogado. Lá ele aprende sobre competição, relações pessoais e injustiça, e tenta fazer a coisa certa, por mais que isso possa custar o bem-estar da sua família.

Me interessei por Marcelo no mundo real porque gosto de ler sobre personagens neuroatípicos. Acho importante conhecer outras realidades psicológicas, e uma boa forma de fazer isso é através da leitura. O Marcelo não é dos narradores mais difíceis de compreender: embora ele tenha suas diferenças, isso aparece mais fora da narração. Por exemplo, quando fala com outras pessoas, ele costuma referir a si mesmo em terceira pessoa, “o Marcelo acha isso”, mas quando ele está narrando, o texto é em primeira pessoa.

Além disso, a dificuldade de comunicação que o protagonista apresenta criou uma identificação fácil comigo. Também tenho problemas para falar com pessoas desconhecidas sem preparação, por exemplo. Isso e o fato dele trabalhar em um setor administrativo e ir aprendendo aos poucos, assim como fiz nesse ano, me fez desenvolver uma simpatia pelo personagem. Vê-lo crescer foi lembrar um pouco de como eu cresci também.

O problema do livro, para mim, foi quando ele parou de focar no desenvolvimento do personagem para ir para um pseudo-história de investigação. Claro, ela também ajudou o Marcelo a crescer, mas achei que ficou um pouco solta dentro do enredo. Além disso, o tom moral me incomodou um pouco. O mundo não é feito de heróis e vilões, e embora alguns personagens tenham os dois lados, senti que o maniqueísmo predominou.

Mas, no geral, foi uma leitura bem satisfatória. O livro prendeu a atenção e me deixou curiosa desde o início. Apesar dele não ser muito conhecido no Brasil, vale a pena tentar entender o mundo do Marcelo.

Avaliação final: 3,5/5