quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Trash, Andy Mulligan

Trash

Meu nome é Raphael Fernández e sou um garoto do lixão.
(...)
(...) passar a vida remexendo o lixo, respirando aquele fedor, dormindo ao lado dele — bom... Talvez um dia você encontre "alguma coisa legal". Ah, sim.
Um dia eu encontrei.

Conheci Trash olhando a estante de infantojuvenis da biblioteca. Estava na seção de novidades, e fiquei curiosa para saber sobre o que era. Mas, com essa vida de preciso-ler-livros-que-todo-mundo-comenta, acabei deixando-o de lado por um tempo, até que saiu o filme, com o Selton Mello e o Wagner Moura e pude entender um pouco mais da história pelo que a crítica comentou do longa. Ainda demorei bastante para ler o livro após isso, porque ele não era uma das prioridades na interminável fila da biblioteca. Mas o dia chegou e pude acabar com minha curiosidade.

Eu tinha a impressão de que o livro focaria na vida cotidiana dos meninos do lixão, e era isso que tinha me dado a vontade de ler, mas na verdade é uma história de investigação, e o lixão é o pano de fundo e de onde a aventura começa. Mesmo assim, como minhas expectativas não eram altas, acabei gostando mais do livro do que esperava: foi uma leitura divertida e que prendeu a atenção.

Trash traz um tom forte de crítica social, tratando de desigualdades sociais e de corrupção —  não é à toa que fizeram o filme se passar no Brasil. Achei as críticas pertinentes, mas às vezes falta profundidade e elas beiram a ingenuidade: quase um maniqueísmo pobre-bom/rico-ruim.

O trabalho gráfico, como é esperado de um livro da Cosac Naify, é interessante, com uma fonte diferente para cada narrador (vou fingir que não reparei isso só na metade do livro), mas a grande quantidade de narradores, embora importante para a história, não é muito distinta entre si. No geral, é um livro mais de acontecimentos que de personagens.

Enfim, Trash é uma aventura juvenil interessante que se passa em um ambiente menos convencional. Tem alguns aspectos que me incomodaram na obra, mas recomendo a leitura para quem se interessar. Ainda não vi o filme, pretendo assistir algum dia para ver de que modo o Brasil é retratado na história.

Avaliação final: 3,5/5

sábado, 17 de outubro de 2015

Retrospectiva: setembro

• Setembro passou rápido, muito rápido. Tão rápido que não anotei nada para comentar na retrospectiva, então o post vai ser pequeno. O fato é que foi um mês bem típico, com poucas coisas além da rotina cansativa estágio-faculdade. Quero férias, por favor.

• Li essa conversa da Sofia sobre Harry Potter e a Câmara Secreta e achei muito legal. Harry Potter é um assunto inesgotável e embora eu particularmente não pense muito fora do que é canon, é interessante ver observações de outras pessoas sobre esse universo. Além disso, adoro o formato do post, fácil de ler e de prestar atenção — se fosse em formato de podcast, sei que eu nunca ouviria… Agora eu fiquei com vontade de reler Harry Potter, óbvio (comecei a reler há uns dois anos e parei no terceiro. Preciso voltar) e de participar de um clube do livro que renda conversas como essas. Quem sabe ano que vem eu invista nisso. Quem sabe…

Em setembro:

Eu vi… o primeiro episódio de Shirokuma Cafe, um anime sobre um urso polar que tem um café e seus clientes, especialmente o panda e o pinguim. É completamente nonsense e adorável, e era tudo o que eu precisava assistir naquele momento. Não sei como a série vai conseguir se sustentar em cinquenta episódios sem se tornar repetitiva, mas pretendo assistir aos poucos.

Shirokuma Cafe(finjo que não tenho tempo para o blog, mas na verdade…)

Eu li… Diário absolutamente verdadeiro de um índio de meio expediente. É o segundo livro da lista da Rolling Stone de melhores YAs que eu leio nesse ano, sendo que eu tinha a meta de ler seis. Claramente não vou cumpri-la, né?

Eu ouvi… lançamentos! Tomei vergonha na cara e tentei ficar por dentro das novidades do momento. Ouvi o 1989 do Ryan Adams, o novo do Beirut e o primeiro álbum da Halsey, que está sendo muito comentada. Não tenho grandes considerações para fazer porque o que acho de música varia muito com o meu humor.

Eu escrevi… vários rascunhos de resenhas no papel, mas postei menos no blog do que gostaria. Ou seja, estou cheia de resenhas atrasadas, porque tenho preguiça de pegar as minhas anotações e transformá-las na resenha propriamente dita. Mas isso vai acontecer. Algum dia no futuro, mas vai acontecer.

Eu comi… bolo. Foi meu aniversário, então teve bolo para comemorar.

Eu fui… ao cinema, três vezes. A primeira para assistir Princesa Arete, em uma mostra de anime no MIS, a segunda para ver Que horas ela volta?, que está sendo muito comentado (eu particularmente adorei, mas entendo algumas das críticas — as da esquerda, não as das patroas indignadas), e por último vi Thelma & Louise em uma mostra de garotas armadas no Cinusp (queria ter visto mais filmes dessa mostra, também passou O silêncio dos inocentes e o último Mad Max, mas não gosto de sair vários dias em seguida).

Eu comprei… chocolate. Porque não comprei mais nada de importante e sempre compro chocolate.

Eu fiz… um trabalho muito chato de Filologia. Filologia foi eleita por mim como a matéria mais chata da faculdade até agora, e ainda por cima estou fazendo com um professor chato e machistinha do nível que faz piadas sobre mulher não saber dirigir.

No blog:

A primeira resenha do mês foi de Suíte em quatro movimentos, primeiro livro da Ali Smith que leio e já terminei com vontade de ler mais dela.

• Em seguida postei a retrospectiva de agosto, ilustrada por grandes sabedorias de MasterChef.

• Postei também uma resenha curtinha e sem graça de Um gato indiscreto e outros contos, livro que li no começo do ano, demorei mais uns três meses para escrever a resenha e mais um tanto para publicá-la.

• Continuo atrasadíssima com a seção de últimos filmes que eu vi, dessa vez escrevi sobre alguns filmes que assisti em fevereiro e março… 

• A resenha para o Desafio Literário Skoob foi de Diário absolutamente verdadeiro de um índio de meio expediente.

• Por último, fiz comentários sobre MasterChef Brasil, porque não devo excluir os reality shows da lista se quero escrever sobre tudo que leio e vejo.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Caixa de pássaros, Josh Malerman

Caixa de pássaros

O quarto está escuro. A única janela está tapada com tantos cobertores que, mesmo em seu auge, a luz do sol não consegue entrar. Há dois colchões, um em cada canto do quarto. Acima deles há domos negros. Muito tempo atrás, a grade de arame que sustenta o tecido era usada para cercar o pequeno jardim próximo ao poço, no quintal da casa. Mas, nos últimos quatro anos, ela serviu como armadura, protegendo as crianças não do que poderia vê-las, mas do que elas poderiam ver.

Caixa de pássaros é um lançamento da Intrínseca do começo do ano. Eu vi várias resenhas positivas e o ar de suspense da história me deu vontade de ler. Descobri que o livro tinha chegado na biblioteca pouco antes de outubro, então aproveitei a leitura para o Desafio Literário Skoob, tema terror. Não sei se eu diria que é um livro de terror de verdade, para mim está mais para um thriller pós-apocalíptico/distópico, mas as outras opções que tenho também não são livros muito assustadores, então fico com esse mesmo.

O livro se passa em uma sociedade pós-apocalíptica, em que as pessoas que veem certas coisas misteriosas ficam loucas e se matam. Ninguém sabe o que exatamente causa a loucura. Ninguém sabe como parar com isso. A solução, portanto, é tentar não enxergar o que quer que seja que deixe as pessoas loucas. Os sobreviventes se trancam em suas casas e só saem delas vendados, tendo que lidar com os problemas de uma sociedade em extinção.

O foco da história é Malorie e a narração se divide em duas partes: presente, no qual somos colocados direto na (pouca) ação, e passado, que é a explicação dos acontecimentos que levaram ao presente. Como quase toda história dividida, tem uma parte bem mais interessante que a outra. No caso, gostei mais da parte do passado, que tem mais personagens e acontecimentos mais dramáticos. O fato é que não consegui empatizar muito com a protagonista e com seus dramas, então não me importava com o que aconteceria com ela.

Aliás, esse é um problema comum em livros de suspense. Eu não consigo me apegar aos personagens, a escrita nem sempre é incrível nem nada do tipo, parece que só estou lá pela ação e tudo bem, isso é mais que o suficiente enquanto leio, mas depois quanto mais penso sobre o assunto, mais o livro parece descartável. Li, me diverti, esqueci. Às vezes é o que a gente precisa, por isso a minha avaliação boa, mas acredito que existam livros melhores nesse quesito também.

Em resumo, eu diria que Caixa de pássaros é uma mistura de Ensaio sobre a cegueira com A estrada, escrita no estilo do Stephen King (podem colocar isso na capa do livro, pena que não é uma definição muito comercial). O desespero em relação à cegueira está na história, embora de forma mais branda que no livro de Saramago; a jornada do pai da narrativa de Cormac McCarthy é semelhante à de Malorie, escrita de forma menos tediosa bonita, e Josh Malerman consegue criar tensão assim como King, apesar de ter um estilo próprio menos desenvolvido. Como disse antes, o livro cumpriu seu propósito de entreter, mas também não se sobressaiu dentre os outros do gênero.

Avaliação final: 3,5/5

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Considerações sobre a segunda temporada de MasterChef Brasil

(ou: tudo que eu poderia ter dito no Twitter mas não disse)

Eu sou uma pessoa muito influenciável. Desde que retornei a acompanhar obsessivamente minha timeline do Twitter, passei a não gostar de ficar por fora de memes, do ~assunto do momento~ e coisas assim. O fato é que eu gosto bastante de reality shows, e adoro Top Chef, mas não gostei dos poucos episódios das versões gringas de MasterChef que vi por aí. Eu tinha uma birra semelhante à que tenho do Cake Boss aff como odeio esse cara, possivelmente porque todo mundo ama MasterChef mas ninguém liga para Top Chef. Mas aí estreou a segunda temporada de MasterChef Brasil e já que todo mundo parecia estar se divertindo tanto, por que não conferir também? Eu passei por várias fases durante a temporada: no início, achei sensacional. Era tudo muito engraçado, como os cozinheiros não sabiam cozinhar? Depois fui começando a me cansar um pouco das fórmulas, da looooooonga duração do programa e da Ana Paula Padrão. Terminei satisfeita. Ainda não sei se vou assistir a versão com as crianças. O meu eu racional diz que não, mas o meu eu emocional sabe que vou começar a ver por curiosidade e acabar viciada. Enfim, ninguém quer saber e estou bem atrasada na pauta, risos, mas vou fazer minhas considerações sobre o programa aqui:

• Eu continuo não gostando da forma do programa. Eu gosto muito das provas de Top Chef, que costumam ser mais variadas e mais criativas. As provas de MasterChef focam muito na técnica. Qual é a graça em ver vinte pessoas fazendo o mesmo prato? Ao mesmo tempo, isso se justifica com o fato de serem cozinheiros amadores. A graça em ver vinte pessoas fazendo o mesmo prato é que cada uma vai cometer um erro diferente (ou todas vão deixar o frango cru). Conforme o nível dos participantes aumenta, no entanto, essas provas vão se tornando cada vez mais cansativas de assistir. Esse formato de ter duas provas por programa também é bem cansativo, mas também não sei se seria melhor se separassem em dois dias, porque daí ficaria muita encheção de linguiça. Ou seja, o ideal seria que editassem melhor para ficar mais curto. Desculpa, eu não estou interessada em saber todas as dificuldades da Sabrina, ainda mais narradas no presente. O que me leva ao próximo ponto:

• Por que é narrado no presente? A gente sabe que os participantes estão gravando o depoimento depois, então por que raios usar o presente? Eu nunca tinha reparado nisso em outros reality shows, então não sei nem se de fato a maioria usa o passado, mas é muito forçado. Repensem, por favor.

 Paola  (quando falta pouco para terminar o programa e começam a vir intervalos enormes)

• Como MasterChef é de amadores, as provas acabam sendo pouco meritocráticas. Os chefs ajudam quem pede, às vezes dão tempo extra e por aí vai. Eu acho isso um pouco injusto, mas entendo que sirva para ensinar os cozinheiros. Azar de quem tem vergonha na cara e não pergunta para os jurados. Além disso, essa história do líder da equipe perdedora ter a oportunidade de se salvar ou de salvar outra pessoa também é bem coisa de trouxa. Por que o líder dos perdedores merece se salvar? Mas é tipo lições da vida real, se você só se importar com si mesmo você vai para frente. MasterChef ensina a lidar com o mundo contemporâneo, olha só.

• A Ana Paula Padrão é dispensável, mas não a odeio tanto quanto a maioria das pessoas. Só cheguei a ficar bem irritada em uns três episódios, e só mais para a metade final da temporada. Dada a qualidade dos jurados apresentando, como quando o Fogaça explica as provas naquele tom monótono, até entendo o papel dela no programa.

• Sobre os jurados, minha opinião também varia durante os episódios. Acho que eles são desnecessariamente escrotos na maior parte do tempo, mas também tem momentos ótimos. Não gosto dessa coisa de superioridade, tipo quando o Jacquin falou para Jiang que ela não podia falar que não gostava de queijo porque isso era falar mal do prato do Fogaça(???). Isso não é falar mal do prato do cara, gente. É questão de paladar, não misturem privado e público, por favor, obrigada (na verdade, é simples: não falem mal da Jiang, por favor). A mesma coisa quando falam que o Jacquin não gosta de pimenta. E daí? Um bom jurado deveria ser capaz de julgar a comida sem levar para o gosto pessoal. Enfim: Jacquin — tem momentos escrotos mas é bem engraçado às vezes; Fogaça — tem momentos escrotos, não sabe fingir e é isso que o torna engraçado às vezes (mas para mim poderia trocá-lo por outra pessoa) e Paola — a chef mais legal dos três. Ainda acho que distribui patadas mesmo quando não precisa, mas é a que mais se importa com os participantes e a mais profissional, e tem os melhores flertes as melhores expressões experimentando a comida, como aqui:

Marcos

• É legal ver que a maior parte dos participante parece ser gente boa e o programa não é uma disputa de egos. Claro, tem alguns vilões, mas acho que o programa conseguiu dosar bem a qualidade — embora essa seja bem pior do que eu imaginava, mesmo para uma competição amadora — e o carisma dos participantes. Agora, uma análise  muito aprofundada e séria sobre cada um, como se eu tivesse experimentado a comida deles e os conhecesse de verdade, para fingir que eu sou uma blogueira dedicada:

Patrizia: a primeira a sair. Simpatizo com ela porque ela quis fazer sobremesa na prova da repescagem e eu torço para quem gosta de sobremesa.
Cássia: muito engraçada e carismática, pena que não parecia cozinhar muito bem. Mas é muito nova, com certeza vai melhorar com o tempo.
Larissa: saiu muito cedo para eu lembrar quem é.
Rodrigo: só sei que saiu na prova do chocolate, o que é heresia.
Hamilton: era engraçado como ele defendia o prato a qualquer custo, por pior que estivesse. O seu doce parece mais ou menos o que sai quando eu cozinho:

Hamilton (mas Hamilton defendeu dizendo que estava gostoso. Eu entendo, Hamilton, minhas gororobas também são gostosas!)

Gustavo: cara de bom garoto, razoável na cozinha.
Murilo: achei de mau gosto a piada com o coelho que ele fez para entrar, mas durante o programa fui pegando o gosto por ele. Acho-o um cara sincero, que sabe o seu lugar sem ser completamente arrogante. Fiquei bem brava com o Jacquin quando ele começou a brigar com o Murilo na primeira prova em grupo e achei a postura do Murilo bem razoável. Além disso ele parece ser o mais próximo da Jiang, e é muito importante levar isso em consideração, né? Podia ter durado mais no programa, mas o que seria de um reality show sem algumas injustiças para a gente ficar bravo?
Iranete: uma das cozinheiras caseiras da competição. Também gostei da postura dela durante a competição e durante a intriga com o Cristiano. Fiquei um pouco incomodada com as piadas que fizeram com ela sobre a mousse de chocolate, porque acho um pouco elitistas. E também  não gostei de como a imagem dela está muito ligada à de doméstica. A Ana Paula Padrão fala da patroa dela como se fosse da família e às vezes eles usam um tom condescendente com ela (#problematizando MasterChef).
Carla: parecia ser uma boa cozinheira, e sua postura na competição foi bem profissional. Podia ter ficado mais tempo também.
Marcos: durou mais do que devia, por sorte e por saber jogar bem o seu flerte.
Aritana: todo mundo ama odiar a Aritana, mas só fiquei verdadeiramente irritada com ela na primeira prova em equipe, em que ela repetia a cada cinco minutos "Não quero perder". Miga, alguém quer? Não a achei uma cozinheira tão ruim, mas poderia ter sido menos mostrada durante as edições.
Sabrina: é tão sortuda que não sei nem dizer. Não era para você ter durado até aqui! Por algum motivo, também foi mostrada demais durante as edições e acabou me irritando. Nada contra a sua pessoa, eu juro, só contra a edição do programa.
Lucas: era um desses que tinha potencial de chef, com as suas invencionices. Como pessoa no programa achei-o bem chatinho, ele e o Fernando juntos é o paraíso dos esquentadinhos (tá mais para inferno, né). Ele se perdeu um pouco no meio do caminho, mas pelo menos soube fazer humor disso:

Fernando: o odiado número um. Brigão, arrogante e sei lá mais o quê. Mas cozinhava bem, e mereceu a sua quarta posição.
Cristiano: o odiado número dois. Causou intrigas desnecessárias e é muito vingativo. Diz que é um jogo mas depois se irrita com quem joga contra ele. Mas não dá para não sentir nada quando ele começa a chorar; dá para ver o quanto o MasterChef significa para ele.
Jiang: RAINHA. DIVA. MARAVILHOSA. Acho que eu nunca torci por alguém em reality show como torci para a Jiang. Gostei dela desde o primeiro episódio porque sou dessas que torce para os asiáticos que fazem comida asiática, por motivos culturais e familiares. Fiquei incomodada no começo por todo mundo tratá-la como “chinesa”, como se ela não tivesse nome, e por zoarem do sotaque (pastel de flango, que engraçado, kkkkkkk, só que não. É racista), mas Jiang é uma pessoa tão incrível que conseguiu usar isso a seu favor. Sinto que os jurados não gostam tanto dela, talvez por não saberem julgar comida chinesa com propriedade ou por ela não fazer drama à toa. Mas o que importa é que o coração dos telespectadores a Jiang ganhou de lavagem.
Raul: não fedia nem cheirava no começo. Passei a me irritar no final porque o cara ri demais. Mas não acho a postura informal totalmente errada, eu quero é que quebrem as formalidades e as hierarquias mesmo.
Izabel: no começo eu gostava bastante dela. A Izabel tinha jeito de chef e eu já imaginava que ela iria continuar no programa por bastante tempo. Mas, no meio do caminho, cansei da insegurança dela, que foi me parecendo cada vez mais falsa modéstia. Mereceu ganhar o título? Possivelmente. Mas o título dos nossos corações sempre será da Jiang.

Um resumo: Top Chef melhor que MasterChef. Jiang melhor que qualquer um. O programa poderia ser mais curto. E o mais importante: Viva Embalixo!

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Diário absolutamente verdadeiro de um índio de meio expediente, Sherman Alexie

Diário absolutamente verdadeiro

Ser pobre é um saco, e é um saco saber que, de alguma forma, você merece ser pobre. O cara começa acreditando que é pobre porque é burro e feio. Depois começa a acreditar que é burro e feio porque é índio. E como o cara é índio, ela começa a acreditar que está destinado a ser pobre. É um círculo feio e o cara não pode fazer nada para sair dele.

A pobreza não dá forças a ninguém, nem dá lições de perseverança. Não, a pobreza só ensina o sujeito a ser pobre.

Conheci Diário absolutamente verdadeiro de um índio de meio expediente pela Folhateen (saudades!), antigo caderno adolescente da Folha de São Paulo. De lá até eu de fato comprar o livro, foram necessários alguns anos e uma promoção na Americanas, com o preço de 4,90. Disso até eu lê-lo, foi preciso de mais alguns anos e do tema de livros banidos do Desafio Literário Skoob. Tem alguns livros que a gente compra e se arrepende logo depois, ou perde um pouco a vontade de ler. Não foi o caso de Diário absolutamente verdadeiro… Eu só demorei para ler porque às vezes acontece isso, eu demoro para ler mesmo. E, felizmente, não me decepcionei com a leitura.

Ao contrário do que o nome indica, não é um diário absolutamente verdadeiro. É ficção, mas baseada na vida do autor Sherman Alexie. O protagonista, Junior, compartilha várias das características do escritor, mas não podemos saber até que ponto aquilo aconteceu de verdade ou não. Basicamente, o diário conta o cotidiano de Junior em uma reserva indígena Spokane, suas relações com a família e os amigos e sua mudança para outra escola, fora da reserva, de alunos brancos. Junior é o primeiro índio da sua reserva a ir para fora desse jeito e isso trará vários conflitos durante a narração.

A narrativa de Junior, em primeira pessoa, é muito honesta, e ele fala sobre tudo sem pudor. Por isso, o livro não esconde temas como pobreza, violência, racismo, distúrbios alimentares, alcoolismo, sexo — e masturbação. Como resultado, algumas bibliotecas americanas acharam melhor banir o livro, por que é lógico que se os adolescentes não lerem sobre esses assuntos, eles vão ser protegidos e nunca terão que lidar com isso de outra forma, não é? Só que não.

Eu gostei bastante do Junior, porque ele é bem humano. Fiquei irritada com a forma que ele fala de mulheres, mas a sua sinceridade me conquistou e não tive como não torcer por ele. Algumas pessoas reclamaram da falta de verossimilhança da história, especialmente no final, mas não posso julgar isso, porque não sabemos se esses acontecimentos foram reais ou não e é bem verdade que a vida é muito mais inverossímil que a literatura. Dito isso, tenho que concordar que alguns aspectos ficaram um pouco soltos na narrativa, sem muito desenvolvimento.

A leitura é bem rápida e alterna momentos divertidos e tristes. Junior gosta de desenhar, então o livro é recheado de ilustrações e quadrinhos. Acho importante ressaltar a representatividade da história: é o cotidiano de um índio nos dias de hoje, escrito por um índio. Inclusive fiquei curiosa para ler os livros adultos do autor, que também exploram o assunto.

Avaliação final: 4/5

domingo, 20 de setembro de 2015

Os últimos filmes que eu vi #14

1- Minha linda garota, Mari (Sung-gang Lee, 2002)

Minha linda garota Mari

A animação foi outra desses achados da HBO que assisti só por ser diferente. É um filme sul-coreano e a história mistura o cotidiano de dois jovens amigos com momentos fantasiosos. Infelizmente, achei as duas partes do enredo pouco exploradas e gostaria mais do filme se ele focasse só no realismo. Como costumo dizer sobre animações mais autorais, a estética de Minha linda garota, Mari é o que dá o diferencial, porque, apesar de eu não achar o filme especialmente bonito, tem a curiosidade de os personagens não terem contorno. Avaliação: 2,5/5

2- Nebraska (Alexander Payne, 2013)

Nebraska

Estou assistindo os filmes do Oscar do ano passado agora na TV porque tenho preguiça de ir ao cinema. Nebraska é uma história de road trip, de um filho e seu pai idoso que acha que ganhou um prêmio de um milhão de dólares. Sinceramente? Esperava gostar mais do filme. Não que eu não tenha gostado, mas achei um pouco cansativo. Talvez eu não estivesse no humor certo no dia. De qualquer jeito, gostei bastante do final, e entendo o apelo do filme, os atores são bons, o roteiro também… Avaliação: 3,5/5

3- Bling Ring: a gangue de Hollywood (Sofia Coppola, 2013)

Bling Ring

O que dizer dessa diretora de quem eu já vi quase todos os filmes e não gosto muito de nenhum? Quando ouço falar dos filmes da Sofia Coppola, fico interessada. Quando assisto, no entanto, eles não conseguem me conquistar. Não é que eu ache um tédio completo, que eu durma assistindo ou coisa assim, é só que não saio apaixonada. A ideia de Bling Ring ou mesmo os próprios acontecimentos que inspiraram o filme me dizem tanto quanto o filme em si. Ou seja, ter assistido o filme não acrescentou muita coisa. Mas, como não é propriamente chato, não vou avaliar tão mal. Avaliação: 3/5

4- Até que a Sbórnia nos separe (Otto Guerra e Ennio Torresan, 2013)

Até que a Sbórnia nos separe

É uma animação brasileira baseada no espetáculo Tangos & Tragédias, ao qual nunca assisti e pouco ouvi falar — me parece ser bem famoso no Rio Grande do Sul. A história do filme é bem maluca, mas é coerente. Tem alguns elementos bizarros e um estilo cômico que me lembra de filmes como As bicicletas de Belleville. Não gostei do fato do filme objetificar mulheres e tratar isso com humor, mas se eu fosse reclamar de machismo em todos os filmes, não sobraria quase nenhum para assistir. Avaliação: 3,5/5

5- A felicidade não se compra (Frank Capra, 1946)

A felicidade não se compra 
A felicidade não se compra foi o escolhido como clássico do mês (de março). Já tinha ouvido falar bastante nele como filme para assistir no Natal, é bem citado em livros, séries ou mesmo outros filmes. A história é de um homem que está em um momento ruim na vida em que parece que tudo vai dar errado. Porém, aparece um anjo para realizar um milagre natalino. Gostei bastante da estrutura do filme, com os anjos apresentando e comentando a história do protagonista até chegar no presente, e também gostei da forma que o milagre foi realizado, um tipo de trope que adoro — embora pudesse ter sido mais mirabolante. O lado negativo é que achei difícil de me identificar com a história. George, o protagonista, é muito bonzinho e não parece real. Então no final do filme fiquei em dúvida entre achar inspirador e saber que se fosse um filme sobre mim, por exemplo, seria bem diferente. Avaliação: 3,5/5

sábado, 12 de setembro de 2015

Um gato indiscreto e outros contos, Saki

Um gato indiscreto

Os médicos concordam em me receitar descanso absoluto, total ausência de exaltações mentais e evitar tudo que seja parecido com exercícios físicos violentos”, anunciou Framton, que era vítima da falsa impressão bastante comum de que perfeitos estranhos e recém-conhecidos anseiam por saber os mais ínfimos detalhes de nossas doenças e enfermidades, suas causas e sua cura.

Conheci Saki por um professor da faculdade, que discutiu dois contos do autor em sala. Já disse algumas vezes aqui o quanto eu sou fã de contos, mas também já repeti que a leitura de antologias é mais difícil para mim que a de romances. Portanto, não é nenhuma surpresa que eu tenha começado o livro no ano passado e terminado neste. E nem que eu esteja postando a resenha muito tempo depois de ter terminado o livro. Resenhar livros de contos também não é uma tarefa fácil para mim.

Os contos de Um gato indiscreto e outros contos têm como uma das características principais a mistura de humor e de toques macabros. A sociedade britânica da época, entre o século 19 e o 20, é ironizada com clareza e de forma decidida, mas confesso que não entendi alguns dos contos que focam mais na parte histórica.

Embora algumas histórias sejam previsíveis, os contos do Saki funcionam bem dentro da teoria do conto e, como diria Cortázar, ganham por nocaute. Os contos são bem escritos, o autor usa o mínimo possível de frases para dizer o máximo que ele consegue e já começam a conquistar o leitor a partir das primeiras linhas — claro que isso é subjetivo, especialmente considerando que dizem isso do Poe também e acho os contos dele um saco.

O estilo do Saki me lembra dos contos do Roald Dahl, porque os dois usam ironia e humor negro. Para fãs de contos desse tipo, recomendo a leitura.

Avaliação final: 3,5/5