terça-feira, 30 de abril de 2013

Verão, J. M. Coetzee

Verão

Este foi o primeiro livro do Coetzee que eu li. Eu tinha mais interesse em ler Desonra, mas meu pai ganhou Verão de aniversário há alguns anos e eu preferi desenterrá-lo do armário para o Desafio deste mês.

Verão mostra alguns relatos de pessoas diferentes sobre John, um escritor famoso, Nobel da literatura, já morto, para o seu biógrafo. As pessoas (na sua maioria, mulheres que tiveram algum tipo de relação amorosa com ele) falam o que achavam de John e coisas assim. Dessa forma, podemos ter uma visão (claramente parcial) de quem era o escritor e também dos donos dos relatos.

Apesar de o livro fazer parte de uma série (Cenas da vida na província), não senti falta de ter lido os outros primeiro. É possível gostar de Verão sem ter contextualizada a série e a vida do verdadeiro autor (o livro é sobre Coetzee, mas seria este o verdadeiro Coetzee?).

Acho que o livro me ganhou por parecer real, além de ter uma narrativa deliciosa. O personagem Coetzee me parece verdadeiro, mesmo sendo mostrado pela visão de terceiros, que também parecem reais. É interessante ver as semelhanças e diferenças nos relatos deles sobre o escritor e como elas se complementam.

O livro me envolveu muito, o que pode ser surpreendente pensando que ele não tem propriamente um enredo. Eu não sei muito bem dizer por que gostei tanto, só sei que estou curiosa para ler mais coisas do autor.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Eu sou um gato, Natsume Soseki

Eu sou um gato

(…) o verdadeiro diário dos que pertencem à espécie felina corresponde aos quatro comportamentos cardeais — andar, parar, sentar, deitar — e às atividades excretivas, que preenchem nosso cotidiano, inexistindo, pois, em meu entender, necessidade em especial de preservar nosso verdadeiro caráter por meio de procedimentos de tal modo maçantes. Tivéssemos tempo para manter um diário, seria melhor desfrutar esse tempo cochilando na varanda.

(Eu sou um gato, p.38-9)

Eu sou um gato, como o título bem explica, conta a vida de um gato. Ele não tem nome e sua vida se baseia em observar seu dono, um professor um tanto excêntrico.

Eu nunca tinha lido nada do Natsume Soseki. Tinha curiosidade, mas ao mesmo tempo uma certa preguiça. Achei que seria difícil, por causa da minha (nossa?) falta de referência da cultura oriental, ainda mais do início do século 20. Não achei difícil. Achei delicioso.

O livro é grosso e não tem um enredo grandioso, focando-se em pequenos acontecimentos cotidianos. O gato é sarcástico e tem uma visão bem crítica dos humanos. Além disso, os outros personagens são muito bons. Os amigos do professor são sensacionais, principalmente Meitei e suas histórias fantasiosas.

A leitura não foi rápida nem devagar, foi no ritmo certo. É um livro que não deve ser devorado, mas sim apreciado aos poucos, para a experiência durar mais. Só as últimas páginas, focadas em uma enorme conversa do professor e seus amigos, me cansaram um pouco.

O livro tem um tipo de humor que eu não sei explicar (me lembra um pouco Brás Cubas, mas não sei por quê). Só sei dizer que sorri muito durante a leitura. Poderia ter lido em fevereiro para o Desafio também.

A edição está muito boa, cheia de notas de rodapé (mais precisamente, 153) que pelo menos dão uma ideia de quem são as centenas de nomes citados. É claro que algo se perde não conhecendo todas as referências, mas também aumentou a minha vontade de estudar cultura japonesa e oriental. E, obviamente, reler o livro depois disso.

Não acho que seja um livro para todo mundo. Já vi algumas pessoas reclamarem que a história é parada, que desistiram e coisas assim. Talvez seja um livro para ser lido em um momento certo também. Mas fica a recomendação a todos que se interessaram.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Much Ado About Nothing, William Shakespeare

Much Ado About Nothing

Primeiro mês do Desafio e tema livre, deu tudo certo. Mas chegou fevereiro, com suas viagens, e meus planos para o Desafio já foram por água baixo. Por isso, acabei lendo só um livro que eu já tinha começado no ano passado.

Eu nunca fui a maior simpatizante de Shakespeare. Eu tinha birra com ele, admito. Mas aí eu tive que ler para a escola e fui com a mente aberta. Na teoria, foi bem legal, ler sobre o Renascimento, estudar sobre a vida dele e tal. Mas na prática, eu não entendi muita coisa da peça em si. Basicamente entendi o enredo (que, aliás, é bem simples). Deu para entender as motivações dos personagens, suas personalidades e tudo mais, mas faltou entender o trilhão de referências, muitas das piadas e alguns jogos de linguagem.

Se eu tivesse lido em português provavelmente teria gostado mais, mas ao mesmo tempo não teria enfrentado o desafio que é ler Shakespeare no original (e para alguém que possivelmente o estudará na faculdade, é útil ter enfrentado o desafio agora).

Enfim, é um livro legal e deu para dar uns pequenos sorrisos durante a leitura. Certamente é daqueles que crescem conforme a quantidade de vezes que se lê.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Marina, Carlos Ruiz Zafón

Marina

Marina é minha última leitura do mês para o Desafio. Minha tia me emprestou esse livro faz um tempão e eu só tive a oportunidade de lê-lo agora.

Já tinha lido A Sombra do Vento do mesmo autor há um tempo. Gostei bastante, mas achei superestimado. Continuo com essa opinião ao ler Marina.

O livro conta a história de Óscar Drai, um menino de quinze anos que mora num internato. Um dia, em um passeio por Barcelona, ele vê uma casarão com cara de abandonado. Curioso, ele entra e depois de um tempo fica amigo de Marina e do pai dela, moradores do casarão. Juntos, Óscar e Marina vão desvendar um incrível mistério.

No início, a história não me prendeu. Eram muitas descrições, cheias de metáforas… No geral, eu ainda não curto a linguagem poética do Zafón ao descrever as coisas. Depois de um tempo eu comecei a curtir mais o livro. Quando o mistério começa, não dá para parar de ler. O autor vai nos dando dicas sobre a resposta do mistério (María Shelley, sério?), mas mesmo assim eu continuei curiosa para saber como as coisas se resolveriam.

Não sei se isso é considerado spoiler, mas achei que o livro não teria tons sobrenaturais, pelo menos não tanto. Eu achei que ficou meio deslocado, ainda não engoli essa parte.

Diferente de um monte de gente, que não entendeu a união da parte mistério com a emocional, eu achei a união das duas bem feitas. Gostei bastante do livro ter mais de um “tom”.

Zafón, como em A Sombra do Vento, continua sabendo criar ótimos personagens e usar bem a cidade de Barcelona como cenário.

Recomendo o livro para quem gosta de mistérios diferentes, linguagem poética e um tom sombrio e até nostálgico.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Sobreviventes do Holandês Voador, Brian Jacques

Sobreviventes do Holandês Voador

O Holandês Voador é um barco condenado a navegar eternamente pelos mares. Desse barco só saíram vivos um menino e um cachorro, salvos por um anjo que lhes deu uma missão: ajudar os necessitados em troca de juventude eterna.

Nunca tinha ouvido falar desse livro antes, só o li porque a sócia da minha mãe me emprestou. Pela capa, título e sinopse, achei que o livro focasse mais na parte de navegação. Mas me enganei, a parte do barco ocupa apenas as cinquenta páginas iniciais. O resto do livro mostra duas “boas ações” do menino e do cachorro: ajudando um pastor e ajudando uma pequena cidade a não virar uma grande fábrica (e assim conhecendo novos amigos e buscando pistas para um tesouro).

No começo, não estava gostando muito do livro. Mas insisti na leitura e no meio passei a aproveitá-la mais, até que do meio para o fim voltei a gostar menos. A principal razão para eu não ter gostado do final é que Ban e Din, o garoto e o cachorro, são personagens chatos. Ban é aquele menino bom e esperto, de quem todos gostam… Sem graça. E Din é o cachorro inteligente e supostamente engraçado (eu não vi graça). Os outros personagens do bem são simpáticos pela descrição, mas todos agem da mesma forma, não são bem desenvolvidos. É muita bondade sem personalidade para um livro só.

Além disso, a parte da “caça ao tesouro” foi um pouco cansativa para mim. Eles encontram uma pista, demoram para decifrá-la (os personagens bonzinhos se revezam para cada um descobrir uma parte da dica) e para encontrar a próxima.

Concluindo, foi uma leitura divertida, mesmo com seus pequenos problemas. É um livro de entretenimento, e cumpre o seu papel sem se destacar.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O Livro Selvagem, Juan Villoro

O Livro Selvagem

O Livro Selvagem conta a história de Juan, um garoto de treze anos. Seus pais estão passando por problemas e ele é obrigado a passar as férias na casa do tio Tito, dono de uma enorme biblioteca particular. Juan nunca gostou tanto assim de ler, mas aprende com Tito que é um leitor especial. Junto com o seu crescente amor por livros, nasce também o amor por Catalina, a bela garota da farmácia. Juntos, a garota, Juan e Tito vão buscar o Livro Selvagem na biblioteca, um livro especial que não quer ser encontrado pelas mãos erradas.

Esse livro é uma graça. Eu tive vontade de ler desde que foi lançado no Brasil, mas só li agora ao pegá-lo na biblioteca. Fazia um tempo que eu não lia infanto-juvenis simpáticos como esse. Os livros em que há um clima de fantasia mas não um mundo de fantasia propriamente criado sempre me encantaram (dá pra entender?).

A leitura foi rápida e divertida. Adorei o Juan como narrador e como personagem, e sua incrível família, principalmente o tio Tito e a irmã Carmen com seus bichinhos de pelúcia.

É do tipo de livro que não importa qual será a resposta do mistério  (porque, no caso, já era meio óbvia a resolução), e sim como ela vai ser narrada e o que acontece no percurso.

O livro também é ótimo para quem gosta de livros sobre livros. Tio Tito tem várias frases profundas sobre leitura e são usadas várias referências aos clássicos. Mas, para mim (e isso porque eu tenho uma visão bem particular sobre leitura), esse é um dos pontos negativos do livro. Ele endeusa demais a leitura e os livros. Não é como se a leitura fosse sempre o remédio para a alma. Sim, funciona às vezes, assim como filmes, música, comida podem funcionar, por exemplo. Isso é só um detalhezinho, e é algo que mais me incomoda por aí do que no livro em si. Até porque no final não fiquei tanto com essa impressão, e sim feliz com a leitura fofa e um pouco triste por sair da biblioteca de Tito.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Arlington Park, Rachel Cusk

Arlington Park
Ele entrelaçou os dedos nas tranças de cor sem graça. Nem sequer estava prestando atenção no que fazia, ela percebeu. (…) Simplesmente continuou a enrolar os cabelos nos dedos, distraído, esquecendo o que sentira apenas um minuto antes. Sentira que ela estava distante dele. Ela sabia: ele a vira ali no corredor e se lembrara de que ela se mantinha afastada dele. Era como quando Juliet de vez em quando ficava na frente da televisão com o controle remoto, trocando de canal para encontrar alguma coisa para as crianças assistirem, e um fragmento de noticiário aparecia na tela. Ela via uma guerra ou um terremoto, rostos de vítimas da dor ou de pessoas segurando armas, via regiões de poeira e montanhas distantes. Via isso, alguns instantes de turbulência do outro do lado mundo, e em seguida mudava de canal.
 (Arlington Park, p. 34)
 
Minha primeira leitura do Desafio Literário de 2013 foi Arlington Park. Como o tema de janeiro é livre mas eu não quero resenhar todos os livros que ler, criei um tema próprio: livros mais novos do que eu, ou seja, publicados de 1994 para cima.
 
Peguei esse livro na biblioteca porque já estava com vontade de lê-lo faz tempo (mas não tanta vontade a ponto de comprá-lo). O motivo é simples: adoro a capa e a contracapa do livro. A sinopse me agradou também: a vida de mulheres no subúrbio inglês de Arlington Park.
 
E a história é essa mesmo, trechos narrando a rotina de um grupo de mulheres, a maioria delas donas de casa e mães. Temos Juliet, professora de uma escola particular só para garotas e infeliz; Solly, que recebe estudantes estrangeiras em sua casa e é infeliz; Maisie, que se mudou de Londres para Arlington Park e se arrepende da mudança (e portanto, está infeliz)… Cada uma recebe no mínimo um “capítulo”, narrado em terceira pessoa mas com o seu ponto de vista.
 
Não é um livro muito excitante. Se você não estiver no clima depressivo, provavelmente irá achar um tédio. Mas eu acabei entrando no clima triste e chuvoso do livro, tendo simpatia por alguns personagens (Juliet) e raiva de outros (Christine). O meu grau de simpatia varia de acordo com o quanto a personagem tem noção de que ela está presa no mundo de donas de casa (quanto mais, melhor) e o quanto ela manifesta pensamentos classe-média-sofre (quanto mais, pior).
 
No fim, me pareceu que as lições do livro são “não seja uma dona de casa suburbana” e “os homens (maridos) tiram a sua vida de você mesma”. Tá, estou exagerando… Ou não. Por mais que eu concorde em certo grau com isso, ao mesmo tempo é um exagero… Ou não.
Como eu disse antes, é para ser lido num dia de desespero existencial (para ficar mais desesperada ainda). Se for lido em dias felizes, talvez você pense que é exagero da autora mostrar a vida suburbana só com tristeza e mal-estar.