terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O Livro Selvagem, Juan Villoro

O Livro Selvagem

O Livro Selvagem conta a história de Juan, um garoto de treze anos. Seus pais estão passando por problemas e ele é obrigado a passar as férias na casa do tio Tito, dono de uma enorme biblioteca particular. Juan nunca gostou tanto assim de ler, mas aprende com Tito que é um leitor especial. Junto com o seu crescente amor por livros, nasce também o amor por Catalina, a bela garota da farmácia. Juntos, a garota, Juan e Tito vão buscar o Livro Selvagem na biblioteca, um livro especial que não quer ser encontrado pelas mãos erradas.

Esse livro é uma graça. Eu tive vontade de ler desde que foi lançado no Brasil, mas só li agora ao pegá-lo na biblioteca. Fazia um tempo que eu não lia infanto-juvenis simpáticos como esse. Os livros em que há um clima de fantasia mas não um mundo de fantasia propriamente criado sempre me encantaram (dá pra entender?).

A leitura foi rápida e divertida. Adorei o Juan como narrador e como personagem, e sua incrível família, principalmente o tio Tito e a irmã Carmen com seus bichinhos de pelúcia.

É do tipo de livro que não importa qual será a resposta do mistério  (porque, no caso, já era meio óbvia a resolução), e sim como ela vai ser narrada e o que acontece no percurso.

O livro também é ótimo para quem gosta de livros sobre livros. Tio Tito tem várias frases profundas sobre leitura e são usadas várias referências aos clássicos. Mas, para mim (e isso porque eu tenho uma visão bem particular sobre leitura), esse é um dos pontos negativos do livro. Ele endeusa demais a leitura e os livros. Não é como se a leitura fosse sempre o remédio para a alma. Sim, funciona às vezes, assim como filmes, música, comida podem funcionar, por exemplo. Isso é só um detalhezinho, e é algo que mais me incomoda por aí do que no livro em si. Até porque no final não fiquei tanto com essa impressão, e sim feliz com a leitura fofa e um pouco triste por sair da biblioteca de Tito.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Arlington Park, Rachel Cusk

Arlington Park
Ele entrelaçou os dedos nas tranças de cor sem graça. Nem sequer estava prestando atenção no que fazia, ela percebeu. (…) Simplesmente continuou a enrolar os cabelos nos dedos, distraído, esquecendo o que sentira apenas um minuto antes. Sentira que ela estava distante dele. Ela sabia: ele a vira ali no corredor e se lembrara de que ela se mantinha afastada dele. Era como quando Juliet de vez em quando ficava na frente da televisão com o controle remoto, trocando de canal para encontrar alguma coisa para as crianças assistirem, e um fragmento de noticiário aparecia na tela. Ela via uma guerra ou um terremoto, rostos de vítimas da dor ou de pessoas segurando armas, via regiões de poeira e montanhas distantes. Via isso, alguns instantes de turbulência do outro do lado mundo, e em seguida mudava de canal.
 (Arlington Park, p. 34)
 
Minha primeira leitura do Desafio Literário de 2013 foi Arlington Park. Como o tema de janeiro é livre mas eu não quero resenhar todos os livros que ler, criei um tema próprio: livros mais novos do que eu, ou seja, publicados de 1994 para cima.
 
Peguei esse livro na biblioteca porque já estava com vontade de lê-lo faz tempo (mas não tanta vontade a ponto de comprá-lo). O motivo é simples: adoro a capa e a contracapa do livro. A sinopse me agradou também: a vida de mulheres no subúrbio inglês de Arlington Park.
 
E a história é essa mesmo, trechos narrando a rotina de um grupo de mulheres, a maioria delas donas de casa e mães. Temos Juliet, professora de uma escola particular só para garotas e infeliz; Solly, que recebe estudantes estrangeiras em sua casa e é infeliz; Maisie, que se mudou de Londres para Arlington Park e se arrepende da mudança (e portanto, está infeliz)… Cada uma recebe no mínimo um “capítulo”, narrado em terceira pessoa mas com o seu ponto de vista.
 
Não é um livro muito excitante. Se você não estiver no clima depressivo, provavelmente irá achar um tédio. Mas eu acabei entrando no clima triste e chuvoso do livro, tendo simpatia por alguns personagens (Juliet) e raiva de outros (Christine). O meu grau de simpatia varia de acordo com o quanto a personagem tem noção de que ela está presa no mundo de donas de casa (quanto mais, melhor) e o quanto ela manifesta pensamentos classe-média-sofre (quanto mais, pior).
 
No fim, me pareceu que as lições do livro são “não seja uma dona de casa suburbana” e “os homens (maridos) tiram a sua vida de você mesma”. Tá, estou exagerando… Ou não. Por mais que eu concorde em certo grau com isso, ao mesmo tempo é um exagero… Ou não.
Como eu disse antes, é para ser lido num dia de desespero existencial (para ficar mais desesperada ainda). Se for lido em dias felizes, talvez você pense que é exagero da autora mostrar a vida suburbana só com tristeza e mal-estar. 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Retrospectiva: Desafio Literário 2012

Copiando minha querida irmã, decidi fazer uma retrospectiva do desafio do ano passado. Então vamos lá, a minha lista ficou assim:

Janeiro - Literatura gastronômica
O clube das chocólatras, Carole Matthews

Fevereiro - Nome próprio
Penelope, Marilyn Kaye
Sr. Ardiloso Cortês, Derek Landy
Lolita, Vladimir Nabokov

Março - Serial killer
O perfume, Patrick Süskind

Abril - Escritor oriental
Não me abandone jamais, Kazuo Ishiguro
Entre assassinatos, Aravind Adiga

Maio - Fatos históricos
Meninos sem pátria, Luiz Puntel
Extremely loud & incredibly close, Jonathan Safran Foer

Junho - Viagem no tempo
Before I fall, Lauren Oliver

Julho - Prêmio Jabuti
Leite derramado, Chico Buarque

Agosto - Terror
Still waters, Emma Carlson Berne

Setembro - Mitologia
Fábulas e lendas japonesas
A cabana, William P. Young

Outubro - Graphic Novel
Fagin, o judeu, Will Eisner
Retalhos, Craig Thompson                                                     Daytripper, Fábio Moon e Gabriel Bá
Frango com ameixas, Marjane Satrapi

Novembro - Escritor africano
AvóDezanove e o segredo do soviético, Ondjaki

Dezembro - Poesia
The day before, Lisa Schroeder
Sentimento do mundo, Carlos Drummond de Andrade

Uma lista pequena, que contém exatamente metade dos livros que li ano passado. Por mais que eu não seja tão fã de ler “sob pressão”, as leituras no geral foram agradáveis e, mais importante, eu não tive que correr atrás de nenhum livro (a minha irmã fez isso por mim, mas foram só dois livros!). O resto eu tinha em casa ou baixado…

Melhores livros:
Retalhos - "Se teve um livro que eu não queria que terminasse, é esse."
Frango com ameixas - "E o jeito que a autora narra, com a mistura de humor e melancolia temperada por seus simples e estilosos desenhos, não deixa a história ser só uma história."
AvóDezanove e o segredo do soviético – "(…) o livro me envolveu e deu uma saudades da infância…"

Piores livros (não foram leituras péssimas, mas foram meio sem graça):
A cabana - "(...) a escrita é simples, a história não se desenvolve"
Still waters -  "O problema é que eu realmente não consegui engolir a premissa."
O perfume - "(...) o livro não me cativou. Admito que não estava no humor para o livro, cheio de descrições e com poucos diálogos. E quando você fica bastante tempo sem ler, acaba perdendo o ânimo…"

Boas surpresas:
Before I fall - "É desses que você não quer largar e mostra que YA não é só futilidade."
The day before - "O fato do livro ser em versos me ajudou a entrar na leitura rapiddamente."
E Frango com ameixas e AvóDezanove, pois eu não estava esperando gostar tanto quanto eu gostei.

Maior decepção:
Extremely loud & incredibly close - "A história do Oskar em si, não sei, achei mais chatinha." (eu gostei muito desse livro, mas não entrou na lista de favoritos como achei que entraria)

O que foi prejudicado por fatores externos e merecia uma leitura melhor:
O perfume, já citado anteriormente.

Mês que mais me agradou no geral:
Outubro - duas leituras apaixonantes, uma muita boa e uma boa.

Mês que amaldiçoei por não poder ler mais do que li:
Quase todos... Comparando com a lista de opções, podia ter lido muito mais (mas aí que eu realmente leria sob pressão).

No final, acabei decidindo participar do Desafio de 2013. Bom desafio a todos!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Sentimento do Mundo, Carlos Drummond de Andrade

Sentimento do Mundo

Para terminar o Desafio Literário de 2012, li Sentimento do Mundo, do Drummond. A escolha se deu por um motivo simples: FUVEST (sim, só deixei para ler agora).

O livro é curto e tem poemas sobre a sociedade, a guerra, o envelhecer… Tem alguns dos poemas mais famosos do Drummond, como “Sentimento do mundo” e “Os ombros suportam o mundo”. São poemas mais maduros e reflexivos.

Eu não sou muito fã de ler livros de poemas assim, tudo em seguida. Acho estranho, não me concentro e não consigo refletir sobre cada poema. Mas é o jeito e isso não acontece frequentemente, até porque continuo não gostando tanto de poesia. O livro tem poemas que me agradaram bastante (“Dentaduras duplas”), poemas que estão prontos para serem analisados na escola (“Mãos dadas” caiu em uma prova minha), poemas comuns, poemas que eu não entendi…

É essencial para quem quer conhecer Drummond, mas se o seu negócio não é poesia sua opinião provavelmente não vai mudar ao ler o livro.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

The Day Before, Lisa Schroeder

The Day Before

Many times
when I read a book,
I want to savor
each word,
each phrase,
each page,
loving the prose
so much,
I donʼt want it
to end.


Other times
the story pulls me in,
and I can hardly
read fast enough,
the details flying by,
some of them lost
because all that matters
is making sure
the character
is all right
when itʼs over.

                  (The Day Before, Lisa Schroeder)

Chegamos ao último mês do Desafio Literário de 2012! Apesar de já ter feito a minha lista para o Desafio do ano que vem, não estou muito segura para participar. O Desafio me trouxe grandes surpresas, mas também me ajudou a ter uma relação mais burocrática (e indesejável) com a leitura. Certas pessoas funcionam bem com isso, mas eu não.

Enfim, vamos a notícias felizes: esse livro foi uma dessas gratas surpresas. O tema é poesia e eu aproveitei para ler um dos romances em verso que eu tinha baixado há um tempo. Nunca tinha ouvido falar em romances em verso antes de conhecer os livros young adult, mas percebi que é até comum nesse gênero. O livro é formado por pequenos poemas que contam a história de Amber, uma jovem que decide passar um dia na praia sozinha, o dia anterior a algo importante, e lá conhece Cade, outro jovem sozinho e com problemas, precisando de diversão. O resto é parte spoiler, parte vocês podem imaginar…

A história é simples e típica de livros YA. Os segredos dos personagens são revelados aos poucos, de forma que quando você os descobre dá para ver tudo encaixado. E são dramas que têm sua razão, mas ao mesmo tempo não dá para não pensar “Mas o drama é só por isso?”, até porque algumas coisas parecem irreais e não explicadas. Como o livro foca na relação entre Amber e Cade, a vida deles antes não aparece de forma clara e os personagens não são tão desenvolvidos (mas ao mesmo tempo não posso dizer que não me importei com eles).

O fato do livro ser em versos me ajudou a entrar na leitura rapiddamente. Li em dois dias, morrendo de ansiedade para saber o que acontecia, quase como na segunda estrofe do trecho que eu selecionei. Ao mesmo tempo em que eu acho que foram os versos que me levaram para dentro do livro, eu não fiquei apaixonada pela narração em verso. Não sou de pegar sutilezas, mas não acho que se os versos se encadeassem em prosa mesmo o livro deixaria de fazer sentido (e é para isso que existe a prosa poética…). Sem contar com os clichês da tentativa de construções de imagens poéticas, tipo:

dropping
down,
down,
down

Podem me chamar de sem coração, mas acho isso meio babaca. Os versos para mim só ajudaram a leitura a ser rápida e consequentemente a me envolver. E atualmente um livro que me envolva é coisa rara, então, apesar dos defeitos, fico mais que satisfeita com The day before.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

AvóDezanove e o segredo do soviético, Ondjaki

AvóDezanove

Os mais-velhos fazem isso, é normal. Eu não gosto muito de ficar quieto, mas às vezes também me acontece. Ali, até foi bom, parecia um filme que não podia continuar a ser passado, os coveiros ficaram lá longe mas pararam de cavar e fizeram silêncio, as árvores abanaram mais devagarinho e um barulho no céu era feito por pássaros que vieram aterrar nessas árvores quietas, árvores muito antigas, porque também os cemitérios, todo mundo sabe, são lugares muito antigos, é que “já morreu muita gente neste mundo”, como diz a AvóCatarina, o céu estava todo azulindo e quase sem nuvens, mesmo essas poucas também paradinhas, só o cabelo da AvóNhé mexia um bocadinho a fingir que ia voar.

(AvóDezanove e o segredo do soviético, p. 80)

Minha leitura de novembro para o Desafio Literário foi AvóDezanove e o segredo do soviético, do Ondjaki. Minha irmã tinha comprado esse livro e outros de autores africanos de língua portuguesa faz um tempo e decidi começar a lê-los pelo que parecia mais fácil.

O livro conta a história dos morados da PraiaDoBispo, em Luanda. Os soviéticos trabalham na construção de um mausoléu que irá abrigar o corpo do ex-presidente AgostinhoNeto e irá mudar a vida dos moradores da praia. Nesse cenário, um garoto, o narrador, vive suas aventuras junto com seu fiel amigo 3,14 (o Pinduca, Pi) e na presença do maluco EspumaDoMar, do VendedorDeGasolina…

É um enredo simples, é a narração da vida de uma criança, mas ao mesmo tempo o contexto por trás é complexo. Apesar de o livro ser indicado como infanto-juvenil, eu não o indicaria para crianças… Eu ficaria bem perdida na parte histórica.

Não sei se é pelo fato de eu ter lido o livro no fim da minha vida escolar, mas o livro me envolveu e deu uma saudades da infância… Identifiquei o medo dos meninos de perderem a sua PraiaDoBispo com o meu medo de sair da escola, a minha PraiaDoBispo, lugar onde eu praticamente passei toda a minha vida e que me passa segurança.

No final do livro, há uma carta do Ondjaki para a escritora Ana Paula Tavares em que ele diz: “me invade aquela ternura branda – quase triste – que não sei explicar nem aceitar. o fim dos livros tem esta coisa de fazer abandonar o lugar que vivenciei para o escrever”. Essa ternura também foi sentida por mim ao terminar de ler o livro. Me senti triste abandonando a PraiaDoBispo e seus carismáticos moradores. Já via o cenário como meu, parecia que eu era íntima dos moradores…

Como eu disse, a leitura foi envolvente. Envolvente e rápida. O livro é curto e a narração é fluida, gostosa de ler. O português angolano não oferece grandes dificuldades e torna a própria narração mais interessante. Há um glossário no final, mas a graça é entender o vocabulário pelo contexto mesmo.

Enfim, acho que deu para entender que eu adorei o livro. Pretendo ler mais livros do Ondjaki assim que for possível. Só não recomendo o livro para quem não gosta muito de narradores infantis (e digo uma coisa – você não sabe o que está perdendo em desprezá-los!).

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Frango com Ameixas, Marjane Satrapi

Frango com Ameixas

Minha quarta (e última!) leitura do Desafio nesse mês foi Frango com ameixas, da Marjane Satrapi. O motivo para a leitura foi que minha irmã alugou na biblioteca, mas eu já estava com curiosidade de ler algo da Marjane além de Persépolis, então foi uma boa opção.

O livro conta a história do tio-avô de Marjane, um músico que tem o seu tar (instrumento musical iraniano) quebrado e decide morrer. Esperando a morte, deitado em sua cama, ele reflete sobre sua vida.

A história pode parecer simples, mas é carregada de reflexão. Não dá para não se relacionar de alguma forma com os acontecimentos. E o jeito que a autora narra, com a mistura de humor e melancolia temperada por seus simples e estilosos desenhos, não deixa a história ser só uma história.

A leitura é rápida e o final é incrível. É uma revelação bem óbvia, mas só no último capítulo que realmente entendi sobre o que é a história.

Em comparação com Persépolis, esse livro não tem tantos fatos históricos, mas por se passar no Irã as diferenças culturais obviamente são percebidas. Por ser curto e menos focado na parte histórica, não é nada cansativo (o que para mim é o defeito de Persepólis).

Enfim, esse livro foi uma surpresa. Sabia que ia gostar, mas não tanto. Fica a dica para quem quer ler uma graphic novel rápida e impactante.

Frango com Ameixas

(esse mês eu praticamente só mandei bem nas leituras. Graphic novels são minha nova paixão!)