Ao subir o Morro do Farol naquele dia, fazendo força para levar o carrinho pela ladeira, Chenayya não sentiu a exultação de sempre. Não estou realmente avançando, pensou. Cada volta da roda o desfazia e o freava. A cada pedalada estava fazendo a roda da vida girar para trás, esmagando músculos e fibras, transformando-os na polpa de que eram feitos no útero de sua mãe; Chenayya estava se desfazendo.
(Entre assassinatos, p. 188)
Entre assassinatos é a minha segunda resenha do mês passado, de autores orientais. Pelo visto, estou me acostumando a deixar tudo atrasado, porque com o tema de fatos históricos talvez não seja diferente. Na verdade, eu terminei de ler Entre assassinatos há um bom tempo, mas só tive saco/tempo para escrever a resenha agora.
O livro é formado por quatorze histórias que se passam no mesmo cenário: a cidade fictícia de Kittur. Aos poucos, vamos sendo apresentados aos principais elementos da cidade, como o Morro do Farol, o Angel Talkies… Apesar da cidade ser fictícia, ela se localiza na Índia, portanto há diversos elementos culturais do livro.
A visão do livro sobre a Índia é a de um país problemático, corrupto, cheio de desigualdade social (as castas que o digam)… Em certos aspectos lembra bastante a visão que muita gente tem do Brasil. O estilo do autor é sarcástico e mordaz, assim como no livro que eu já tinha lido dele, O Tigre Branco.
No início, eu demorei para entender um pouco as diferenças culturais da Índia em relação à diversidade cultural e religiosa, então eu demorei para pegar o “espírito” das histórias. Mas eu acabei me acostumando e apreciando mais conforme eu lia.
Enfim, recomendo o livro para quem quer uma visão desromantizada da Índia.