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terça-feira, 1 de setembro de 2015

Suíte em quatro movimentos, Ali Smith

Suíte em quatro movimentos

Isso, Caroline diz, e é por isso que eu quase fico feliz que tenha acontecido uma recessão, desculpa Jen, porque de repente ela vai sacudir um pouco desse dinheiro estúpido que está tipo nos mercados financeiros pra cair em cima da arte de que ele não para de falar. O tipo de arte de que você fica falando, em que as pessoas se enfiam em caixas de vidro numa galeria e deixam os outros olharem, ou vendem tudo que têm, ou tiram um molde do buraco de uma rosquinha com gesso e chamam de O Buraco De Dentro De Uma Rosquinha, ou enchem o tronco de uma árvore velha de concreto e chamam de sei lá o quê, é tudo vigarice. Arte. Arte nunca mudou nada. E ponto. Ponto final. Me mostre alguma coisa que uma suposta obra de arte já fez, qualquer coisa mesmo, a não ser deixar as pessoas com dor de cabeça.

Lá estava uma garota entediada procurando por livros para download na internet. Ela baixa quase tudo que parece minimamente interessante, mesmo que não vá ler depois. É assim que uma versão em PDF de There but for the, da escocesa Ali Smith, vai parar no seu computador. Um dia, fazendo uma limpa nos arquivos, ela deleta vários livros. Pensa que o tal livro da Ali Smith seria muito experimental para o seu gosto e que por isso ela acabaria não lendo. Ela o apaga do computador.

Mas um dia o tal livro é traduzido para o português, com o título de Suíte em quatro movimentos. A garota vê vários elogios a ele e a sua autora, e bem que ela quer mesmo ler mais ficção contemporânea de mulheres. Ela descobre que o livro era aquele There but for the, acha engraçado e fica feliz que terá a oportunidade de descobrir sobre o que é, porque, entre os oitocentos livros baixados e deletados do seu computador, poucos serão efetivamente lidos. Quando surge a oportunidade, ela aluga o livro na biblioteca.

Pra falar a verdade, eu me sinto uma farsa tentando imitar o estilo da Ali Smith.

O fato é que eu não sabia se gostaria de Suíte em quatro movimentos. Como disse antes, tinha medo de ser muito experimental, muito cabeça para mim. E tem muita coisa que eu não entendi e não sei exatamente o que a autora quis dizer com a história? Lógico que sim. Mas, como diz Clarice Lispector, não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento. Porque a história que a autora conta e os personagens que ela cria valem muito a pena. Cada parte da narrativa foca em um personagem, quatro no total, todos envolvidos de alguma forma com Miles, o homem que se tranca em um quarto em uma casa de pessoas que ele acabou de conhecer. A gente não sabe muito de Miles, mas vai juntando aos poucos as pistas e reunindo a visão dos outros personagens sobre ele. No final, muita coisa continua sem resposta, e se você procura um livro em que tudo se resolva, bom… Pode passar longe desse.

As quatro partes do livro têm estilos diferentes, mas sempre recheadas de brincadeiras e reflexões sobre a linguagem. Eu disse que deletei o livro do computador, mas baixei de novo só para poder comparar os trocadilhos e piadas. Como quase toda tradução, alguma coisa se perde e outras se ganham. Não entendi algumas piadas em português, mas achei outras melhores que as originais, por exemplo.

Acho que minha parte favorita foi a cena do jantar, da qual eu selecionei o trecho lá em cima para mostrar. O contraste entre o ponto de vista dos quatro personagens selecionados, pelos quais nutrimos alguma simpatia, e os outros participantes do jantar, todos fúteis e caricatos, é notável, e a cena toda é muito engraçada. A história do que aconteceu com o Miles, de como ele ficou famoso por não sair do quarto e as pessoas passaram a se reunir aguardando o glorioso momento de sua saída, é também de um absurdo que me tirou muitos sorrisos durante a leitura.

Para mim, algumas partes de Suíte em quatro movimentos se alongaram mais do que deviam, e o foco em Greenwich certamente não é tão bem aproveitado para pessoas como eu, que nunca foram a Londres. Mas isso não é culpa da autora, de quem eu com certeza quero ler mais livros. Ah, e se você ainda ficou em dúvida se quer ler ou não entendeu bem sobre o que é a história (porque não expliquei direito), fique com a ótima resenha da Anica.

Avaliação final: 4/5

domingo, 16 de agosto de 2015

Precisamos de novos nomes, NoViolet Bulawayo

Precisamos de novos nomes

Se você for roubar alguma coisa, é melhor que seja pequena e fácil de esconder, ou algo que você possa comer depressa e acabar logo com a história, como goiabas. Assim, as pessoas não podem ver você com a coisa e se lembrar de que você é um ladrão sem-vergonha e que você roubou aquilo deles, então eu não sei o que os brancos estavam tentando fazer, para começo de conversa, roubando não uma coisinha de nada mas um país inteiro. Como é que as pessoas vão conseguir esquecer se você roubar algo assim?

A capa de Precisamos de novos nomes foi o que me fez prestar a atenção no livro. Quando descobri que a autora é do Zimbábue, minha vontade de ler só aumentou. Estava pensando em comprá-lo na Festa do livro da USP, porque 50% de desconto é algo que não se pode ignorar, mas aí vi o livro na biblioteca e corri para pegá-lo, não me importando por quebrar a minha regra recém-criada de pegar um livro só por vez. Afinal, vai que alguém aluga o livro primeiro e rouba, né? (sabe aquelas pessoas que não têm limites nas compras de livros, sempre procurando por desculpas para comprar mais? Então, eu não tenho limites nem nas compras nem na biblioteca. Eu compro um monte de livros, mas dou prioridade para o que pego na biblioteca porque sou besta assim mesmo)

Precisamos de novos nomes é um romance de formação narrado por Darling, uma jovem garota que mora em uma bairro pobre de Harare. Ela passa os seus dias brincando na rua com seus amigos, indo ao bairro rico da cidade roubar goiabas com eles e esperando ansiosamente a sua mudança para os Estados Unidos. Quando ela finalmente se muda, percebe que a vida que leva no país não é exatamente o que esperava e que sempre será estrangeira nessa terra.

Romances narrados por crianças ou jovens em cenários violentos são bem comuns, mostrando um pouco da confusão e da ingenuidade deles. Apenas falando sobre a África, por exemplo, posso citar AvóDezanove e o segredo do soviético e Hibisco roxo. Precisamos falar sobre novos nomes não traz muitas novidades no uso dessa narração, embora a voz de Darling seja bem desenvolvida e única — gostaria de ter lido o livro no original, para ver melhor a linguagem dela e as diferenças pré- e pós-Estados Unidos.

Muitos temas são tratados no livro: doenças, religião, racismo, colonialismo, a exploração que algumas pessoas fazem da pobreza, entre outras coisas. Darling não entende sobre tudo de que fala, mas quase tudo fica claro para o leitor. Quando concluí o livro, pensei que talvez essa narração direta, que escancara as críticas mesmo que a própria narradora não tenha consciência disso, deixasse pouco para a reflexão do leitor. Mas, pensando melhor, essa honestidade é válida também, por que não? Além disso, mesmo que muitos temas sejam óbvios ou até previsíveis, eles não deixam de ser menos importantes por isso, e um livro não precisa ser inovador para ser bom. Também deve ter várias sutilezas que não consegui captar por serem sobre a realidade do país. É muito fácil dizer “ai, livro africano sobre a pobreza narrado por criança, já tem 500 sobre o assunto” como se a África fosse tudo a mesma coisa. A gente não fala “nossa, outro livro europeu sobre a 2ª Guerra narrado por um homem de meia-idade, que repetição” (quer dizer, às vezes a gente fala. Ops).

Achei interessante ler um livro que se passa em uma época mais atual, com referências recentes, como a Rihanna e a Kim Kardashian. Tenho a impressão de que muitos livros mais “literários” (muitas aspas aqui, por favor) fogem de citações a cultura pop, mas é inegável que ela influencia muito a nossa vida, especialmente quando jovens.

Enfim, gostei bastante de Precisamos de novos nomes. O livro prendeu a atenção, mesmo com muitos saltos temporais. Talvez não seja uma leitura especialmente marcante, mas foi boa, e indico principalmente para quem quer começar a conhecer literatura africana.

Avaliação final: 4/5

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Dois anos de Volta ao mundo em 80 livros

No começo de julho, completei dois anos do projeto Volta ao mundo em 80 livros! Li bem menos livros válidos para o projeto em comparação com o ano anterior, mas isso é esperado, considerando que no começo as opções mais óbvias ainda contam e que me dediquei menos este ano. Nesses dois anos, visitei 23 países a partir da literatura:

Volta ao mundo em 80 livros

A lista de leituras válidas está aqui. Nessa lista, conto apenas 22, enquanto na oficial são 23 porque li Édipo Rei, do Sófocles e fiquei em dúvida se considerava ou não, por ser Grécia Antiga. Então acabei decidindo por deixar na lista, mas ler outro livro da Grécia no futuro para ser o oficial.

Aproveitei o período de listar tudo direitinho para fazer outras contagens. Nesses últimos doze meses, li 59 livros, mais que o ano passado! Desses, 38 eram de autores de quem eu nunca tinha lido nada antes. 6 foram releituras. Li 32 mulheres e 29 homens (a soma dá mais de 59 porque tem livros de mais de um autor). Ano passado, li bem mais homens, fiquei feliz que agora li mais mulheres.

Continuo lendo mais autores do Estados Unidos. Nesse ano, foram 25 livros americanos. Em segundo lugar, fica o Brasil, com 12 leituras. Depois, são 7 da Inglaterra, 4 da França e 2 de Portugal.

Aí, para não deixar o post curtinho, decidi listar livros para o futuro. A ideia inicial era completar os 80, para dar uma ideia do nível de dificuldade. Mas cheguei a conclusão que é bem difícil mesmo e cansei de procurar “literatura + país” no Google ou ver se os livros lidos pelas pessoas que já fizeram o projeto são interessantes/fáceis de encontrar. Como vou acabar não seguindo a lista inteira de qualquer jeito, fica só como sugestões para o futuro distante, sem ordem nenhuma (em negrito estão os livros que tenho em casa ou baixados):

24. Uruguai: Um, dois e já (Inés Bortagaray)
25. Colômbia: Viva a música! (Andrés Caicedo)
26. Paraguai: Augusto Roa Bastos
27. Peru: Conversa na catedral/Travessuras da menina má/Pantaleão e as visitadoras/Tia Júlia e o escrevinhador (Mario Vargas Llosa)
28. Bolívia: Hotéis (Maximiliano Barrientos)
29. Equador: Um homem morto a pontapés (Pablo Palacio)
30. Venezuela: The sickness (Alberto Barrera Tyszka)
31. Canadá: Vida querida (Alice Munro)
32. Espanha: A viagem vertical (Enrique Vila-Matas)
33. Itália: Italo Calvino
34. Iraque: Muhsin al-Ramli
35. Escócia: Suíte em quatro movimentos (Ali Smith)
36. Irlanda: O mar (John Banville), Cecelia Ahern
37. Suécia: Os homens que não amavam as mulheres (Stieg Larsson), Let the right one in (John Ajvide Lindqvist)
38. Finlândia: As red as blood (Salla Simukka)
39. Cabo Verde: Chiquinho (Baltasar Lopes), Ilhéu de contenda (Teixeira de Sousa)
40. Hungria: Antologia do contos húngaro (organização Paulo Rónai)
41. República Tcheca: A guerra das salamandras (Karel Tchápek)
42. Bélgica: Queijo (Willem Elsschot)
43. Holanda: O jantar (Herman Koch)

44. Serra Leoa: O Brilho do Amanhã (Ishmael Beah)
45. Polônia: Ferdydurke (Witold Gombrowicz)
46. Áustria: Breve Romance de Sonho (Arthur Schnitzler)
47. Islândia: Butterflies in November (Auður Ava Ólafsdóttir)
48. Antígua e Barbuda: Lucy (Jamaica Kincaid)

49. Jamaica: Colin Channer/Erna Brodber
50. Guatemala: Rodrigo Rey Rosa
51. Rússia: O capote e outras histórias (Nikolai Gógol)
52. Paquistão: Como ficar podre de rico na Ásia emergente (Mohsin Hamid)

53. Zimbábue: Precisamos de novos nomes (NoViolet Bulawayo)
54. Angola: Luuanda, José Luandino Vieira
55. Moçambique: Mia Couto

56. Suíça: O juiz e seu carrasco (Friedrich Dürrenmatt)
57. Egito: Noites das mil e uma noites (Naguib Mahfouz)
58. Turquia: Neve/O livro negro (Orhan Pamuk)

59. Albânia: Fatos Kongoli
60. Nova Zelândia: The rehearsal (Eleanor Catton)
61. Quênia: Wizard of the Crow (Ngũgĩ wa Thiong'o)
62. Sudão: Season of Migration to the North (Tayeb Salih)

63. Tunísia: O astrolábio do mar (Chems Nadir)
64. Camarões: Contornos do dia que vem vindo (Léonora Miano)

Outras sugestões são muito bem-vindas!

segunda-feira, 6 de julho de 2015

O último amigo, Tahar Ben Jelloun

O último amigo

Tânger é como um encontro ambíguo, inquieto, clandestino, uma história que esconde outras histórias, uma revelação que não diz toda a verdade, um ar de família que envenena a sua existência desde que você se afasta; e você sente, então, que tem necessidade dela sem jamais conseguir saber por quê.

Um dos fatores que me fez querer participar do Projeto Volta ao Mundo em 80 livros foi o fato de que minha irmã iria participar também. Assim, preguiçosa como sou, não teria que ir atrás de alguns livros, pois ela os selecionaria por mim. É o caso de O último amigo, do marroquino Tahar Ben Jelloun.

O livro conta a história de Mamed e Ali, amigos desde a infância que se separam graças a Mamed, que não explica o motivo do rompimento — ou melhor, explica, mas não de modo convincente. Vemos a visão de cada um sobre a amizade deles, que nos lembra que narradores em primeira pessoa não são confiáveis e que a memória não é a verdade universal — coisa que a gente esquece com frequência, né? Eu li o primeiro relato acreditando em tudo, e quando li o segundo comecei a estranhar que alguns dados não batiam… Até entender o que o autor queria dizer com isso.

Uma coisa curiosa é que eu acabo me lembrando do Brasil de algum modo lendo a maior parte de livros de países não tão desenvolvidos, se é que posso chamá-los assim. Mamed vai para o exterior, mas sente falta do ar de Marrocos, do jeito que as coisas são. Imagino que me sentiria assim se morasse fora, sentiria saudades até dos defeitos brasileiros. O autor consegue descrever bem Tânger, fazendo o leitor sentir os seus aromas, suas cores e suas imagens e entender a relação dos personagens com a cidade.

Eu não gostei muito do final da história, do motivo pelo qual os amigos se separaram. Achei um pouco forçado, estava esperando outra coisa. O livro é bem curto, com pouco mais de cem páginas, então não dá muito espaço para desenvolver melhor alguns aspectos do enredo. Talvez, se fosse um pouco maior, eu teria aceitado melhor o final. De qualquer jeito, não é um livro me envolveu emocionalmente e provavelmente mesmo se fosse mais longo continuaria sem me emocionar (e talvez eu chegaria a me irritar mais com os protagonistas, porque são homens meio chatos).

Como O último amigo é curto, para o bem ou para o mal, ele tem a vantagem da leitura rápida, mas também tem a desvantagem de ser um pouco esquecível. Para quem se interessou, porém, vale a pena conhecer. 

Avaliação final: 3,5/5

quinta-feira, 12 de março de 2015

Hibisco roxo, Chimamanda Ngozi Adichie

Hibisco roxo

Mesmo assim, Jaja sabia o que eu comia de almoço todos os dias. Havia um menu colado na parede da cozinha, que Mama mudava duas vezes por mês. Mas ele sempre me perguntava o que eu tinha comido. Com frequência fazíamos perguntas cujas respostas já sabíamos. Talvez fizéssemos isso para não precisarmos formular as outras perguntas, aquelas cujas respostas não queríamos saber.

Foi por um acaso que o primeiro livro da Chimamanda Ngozi Adichie que li foi Hibisco roxo. E que acaso feliz! Tenho a impressão de que foi o livro certo para conhecer a obra da autora, já que é o primeiro romance dela. Minha ideia inicial era ler Meio sol amarelo, apenas por ser o primeiro livro da autora que conheci, e o que me despertou a vontade de ler algo da escritora. Mas acabei deixando a leitura para depois, e nesse meio tempo ela lançou Americanah e ficou bem mais conhecida no Brasil, despertando mais ainda minha vontade de ler.

Quando finalmente eu e minha irmã decidimos de uma vez por todas ler algo da Chimamanda, não havia Meio sol amarelo na biblioteca. Então, acabamos lendo Hibisco roxo, livro que conta a história do amadurecimento de Kambili, uma jovem nigeriana. Ela é filha de um homem de grande poder econômico que, apesar de ser considerado uma pessoa notável pela comunidade por sua resistência política e ajuda aos necessitados, é violento e intolerante em casa. Kambili está acostumada com sua vida regrada e silenciosa, mas quando passa a conviver mais com sua tia Ifeoma e seus primos, ela vê uma nova realidade. Realidade essa que, mesmo mais pobre, é libertadora para a garota.

Eu queria saber escrever bem sobre quando gosto muito de um livro, ter críticas bem desenvolvidas falando de suas qualidades, mas isso é um pouco difícil para mim. Quando um livro me toca, ele simplesmente o faz, sem tantos motivos racionais para isso. E Hibisco roxo me emocionou de uma forma que faz muito tempo que um livro não fazia. Não sei se é algo por trás da minha identificação com Kambili, de ver a minha insegurança e timidez nela mesmo com realidades familiares e sociais tão distintas, ou pelo fato de Chimamanda escrever tão bem, de um modo que a gente simplesmente entra no livro e entende tudo o que os personagens sentem. Provavelmente, é pelos dois motivos. O fato é que eu devorei o livro mais rápido do que pretendia, embora o final não tenha me animado tanto quanto o meio.

Mas Hibisco roxo não é só a jornada emocional da sua protagonista. É também um livro com críticas sociais e políticas fortes. O livro fala de colonização, de questões religiosas, de corrupção. A Nigéria, tão distante de nós, tem vários aspectos que lembram o nosso país. E é por isso que gosto de ler sobre outras realidades: além de ver as diferenças culturais, vemos também as semelhanças. Todos os livros, afinal, falam sobre humanos, de uma forma ou de outra.

Avaliação final: 4,5/5

Para conhecer mais sobre a obra da autora, recomendo a leitura desse post da Revista Pólen. E, aproveitando a discussão da Chimamanda sobre o perigo de uma história única para fazer um dos meus desabafos antiamericanos, o que dizer do Goodreads, que tem uma tag chamada cultural? A definição é de que livros culturais mostram um lugar ou tempo e sua cultura (ué, me diga um livro que não se encaixe nessa descrição?), e a maioria dos livros da categoria é estrangeira ou sobre personagens não brancos. Ou seja, segundo essa visão, livros sobre americanos brancos não são sobre cultura, são só livros, enquanto os estrangeiros se tornam representantes do país ou continente em questão… Não sou contra separar livros por nacionalidade, se fosse não estaria fazendo a volta ao mundo em 80 livros, mas separar livros como “cultural” é um tanto idiota e segregacionista.

De qualquer jeito, eu sigo na vontade de desfazer mais histórias únicas, e indico Hibisco roxo para quem quer fazer o mesmo.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Garoto zigue-zague, David Grossman

Garoto zigue-zague

E aí comecei a soluçar, no começo soluços leves, contidos. E para reforçar ainda mais a tristeza, lembrei das coisas que papai diz, que já não sabe mais o que fazer com um garoto como eu, que toda vez que ele acha que vou crescer e tomar jeito acabo regredindo, ficando estagnado, e mais; como é possível que alguém como ele tenha tido justo um filho como eu? E eu sabia que ele tinha razão, mas o que é que ele pensa, que não me esforço para que isto tudo acabe de uma vez por todas?

Só li Garoto zigue-zague porque foi o escolhido da minha irmã para representar Israel na Volta ao mundo em 80 livros dela, e acabei aproveitando para botar na minha lista também, porque minha ideia já era ler algo do Grossman (ou do Amós Oz), só não sabia que livro escolher.

Sem mais enrolações, o livro conta a história de Nono, um garoto prestes a completar treze anos. Antes do seu bar mitzvah, porém, ele vai viajar de trem para visitar seu tio, um educador chatíssimo. No entanto, o que o menino não espera é que sua viagem será a sua porta de entrada para muitas aventuras, nas quais que ele descobrirá muito sobre si mesmo e sobre sua história.

O livro começa com um certo clima de mistério, em que o leitor não sabe exatamente o que está acontecendo e o que vai acontecer, assim como Nono, mas aos poucos as coisas vão ficando claras, e, infelizmente, um pouco óbvias demais. Então, só resta esperar a ficha do protagonista cair enquanto ele passa por pequenas aventuras, até, finalmente, tudo ser esclarecido.

Eu gostei bastante do começo, e gostei do final, mas o meio do livro poderia ter sido enxugado um pouco. O livro tem um pouco mais de quatrocentas páginas e, não sei, mas acho que poderia ter só trezentas e estaria de bom tamanho.

Garoto zigue-zague é narrado pelo Nono mais velho, mas do ponto de vista dele jovem(?). Ou seja, o olhar ingênuo da criança, que eu tanto adoro, está presente na narração. Inclusive, mesmo que o livro provavelmente não fique na seção de infanto-juvenis nas livrarias, eu recomendo para os mais jovens também.

Para concluir, Garoto zigue-zague é um livro divertido, mas um pouco cansativo. Com personagens cativantes (saudades, Gabi!), ele conta uma história bonita sobre crescimento.

Avaliação final: 3,5/5

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Nada, Janne Teller

Nada

O edifício era tão cinza, feio e quadrado que eu mal conseguia respirar; e, de repente, era como se a escola fosse a vida; a vida não deveria ter essa aparência, mas tinha. Senti um desejo violento de correr até o número 25 da Tæringvej, subir na ameixeira e ficar com Pierre Anthon, contemplando o céu até fazer parte do mundo além da porta sorridente e do nada e nunca mais ter de pensar sobre qualquer coisa. Mas eu deveria ser algo, ser alguém na vida, então não corri a lugar algum, olhei para o outro lado e finquei as unhas na palma da mão até sentir bastante dor.

Um dia, olhando os livros recém-adicionados no Skoob, me deparei com um título que chamou a minha atenção: Nothing. A sinopse me conquistou de primeira, falando sobre um menino do sétimo ano que descobre que a vida não tem sentido e por isso passa os seus dias sobre uma árvore. Coloquei o livro como “vou ler” e o procurei algumas vezes para baixar, mas não encontrei. Um tempo depois, vi que o livro tinha sido traduzido para o português pela Record. A partir daí, foi só esperar o livro entrar em promoção para finalmente tê-lo nas minhas mãos.

Conto essa história simplesmente para dizer que, diferente da maioria dos livros que leio, com Nada não tive contato com resenhas de outras pessoas — e, para ser sincera, nem a sinopse eu tinha lido inteira. Um menino que fica em cima de uma árvore falando que nada importa? Já era o suficiente para eu querer o livro. Por isso, eu não sabia direito o que esperar da leitura. E certamente saí surpreendida.

Para começar, eu achei que o foco da história fosse o Pierre Anthon, o garoto que sobe na árvore, mas a narradora é um garota da sala dele, chamada Agnes, e os protagonistas são todos os colegas da sala dela, que tentam fazer uma pilha de significados para mostrar para Pierre Anthon que a vida tem sentido. Essa pilha começa com coisas simples, como uma bola de futebol. Mas, aos poucos, os meninos ficam com raiva de terem que ceder objetos importantes para a pilha e pedem dos outros coisas mais e mais desafiadoras.

Nada não é um livro para se ler quando se quer fugir da realidade e ir para um lugar melhor. É uma leitura perturbadora e que, ao mesmo tempo que nos alivia ao pensar que é apenas ficção, nos deixa a pergunta se isso poderia acontecer na realidade.

O livro é dinamarquês, e por ter um conteúdo pesado e violento com personagens jovens e destinado a adolescentes, foi temporariamente banido na Escandinávia. Curiosamente, após ter sido liberado, o livro foi também para listas de leituras obrigatórias em escolas. Não concordo com a proibição, mas também não acho que o colocaria como leitura obrigatória, considerando que a leitura não é para pessoas de estômago fraco.

Nada é uma leitura que traz discussões importantes — desde sobre como grupos de jovens são influenciáveis (nesse sentido me lembrou do filme A onda) e sobre como o capitalismo nos pressiona até sobre o próprio sentido da vida. Os personagens do livro são quase repulsivos, e dá agonia ver como eles preferem tirar algo desagradável da frente deles em vez de discutir sobre o assunto, mas também dá para se perguntar até que ponto nós também não somos assim. No final, Nada traz mais perguntas que respostas. Fazia muito tempo que eu não lia algo tão provocador, e é incrível pensar que Nada cria esse efeito em menos de cento e trinta páginas.

Avaliação final: 4/5

sábado, 20 de dezembro de 2014

De volta à vida, Nadine Gordimer

De volta à vida

Radiante.

Literalmente radiante. Mas não emitindo luz como os santos mostrados com uma auréola. Ele irradia o perigo, invisível para os outros, de uma substância destrutiva que serviu para contra-atacar o que o estava destruindo. Câncer da glândula tireóide. No hospital, foi mantido em isolamento. (…) Ele permanece, e ainda continuará, sem controle sobre si, expondo pessoas e objetos ao que ele emana, tudo e todos que ele tocar.

Fiquei com vontade de ler algo da Nadine Gordimer porque ela é a única escritora sul-africana que eu eu conheço. Já li um livro do Coetzee, mas acho importante dar uma variada e ler mais mulheres.

De volta à vida conta a história de Paul, um ecologista que fica radiante por causa do tratamento de um câncer. Ele se isola na casa dos pais para não afetar sua esposa ou seu filho. Nesse período de isolamento, ele e seus familiares refletem sobre suas vidas.

A sinopse ficou bem porca, mas é mais ou menos isso mesmo. O livro tem menos de duzentas páginas e vai mostrando o ponto de vista de cada personagem, de forma que sabemos um pouco do seu passado e de como está a situação no momento.

Mesmo o livro sendo curto, demorei mais do que o normal para terminá-lo. Em parte, isso aconteceu porque a leitura foi no final de semestre e eu tinha várias coisas para fazer para a faculdade. Mas não foi só isso. O começo do livro não me pegou, e embora eu tenha me impressionado com a escrita da Nadine Gordimer desde o início, era difícil ter vontade de ler por bastante tempo.

Felizmente, a segunda metade do livro me agradou mais. Algumas coisas ainda me incomodaram — por exemplo, não liguei muito para a parte do trabalho do Paul e suas conversas profissionais —, mas fiquei satisfeita por ter lido De volta à vida. Algum dia pretendo ler mais da Nadine Gordimer.

Avaliação final: 3,5/5

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

An enemy of the people, Henrik Ibsen

An enemy of the people

Dr. Stockmann: Well, but is it not the duty of a citizen to let the public share in any new ideas he may have?

Peter Stockmann: Oh, the public doesn’t require any new ideas. The public is best served by the good, old established ideas it already has.

Não era meu plano resenhar An enemy of the people. Foi uma leitura para faculdade, e é uma peça de teatro não muito comprida. Mas aí eu percebi que o Ibsen é norueguês, e portanto o livro se encaixa na Volta ao mundo em 80 livros. Portanto, aqui estou eu, comentando em forma de resenha muito depois de ter lido a peça.

An enemy of the people mostra os acontecimentos de uma pequena cidade, que vive do seu balneário. O dr. Stockmann, no entanto, descobre que a água do balneário está contaminada, e vai fazer de tudo para expor a verdade a todos, confrontando seu irmão, que é o prefeito da cidade. Vemos vários discussões com os personagens mais influentes da cidade e observamos como a mídia, inicialmente a favor de contar a verdade, logo muda de opinião ao ver que isso vai contra seus interesses financeiros.

A peça foi lançada em 1882, e é quase difícil de acreditar nisso, porque o tema é extremamente atual. O que dizer das mudanças climáticas, da contaminação do solo e de tantos assuntos científicos que são deixados para trás por causa de interesses financeiros?

Porém, a peça não chega a culpar alguém. Afinal de contas, todos somos humanos e cometemos erros. Dr. Stockmann também exagera bastante na sua posição e em como ele lida com o resto das pessoas — isso na minha intepretação, é claro.

Gostei bastante da crítica social do livro, porém acho difícil me acostumar com a forma teatral. Acho interessante ler peças, mas em geral elas não costumam me empolgar, porque não consigo criar empatia com os personagens ou me envolver de verdade na história. Mas sempre dá vontade de ver a peça nos palcos.

Avaliação final: 3/5

terça-feira, 30 de setembro de 2014

A casa dos náufragos, Guillermo Rosales

A casa dos náufragos

A única que se manteve fiel aos laços familiares foi essa tia Clotilde, que decidiu cuidar de mim e me hospedou durante três meses em sua casa. Até o dia em que, aconselhada por outros familiares e amigos, decidiu me pôr na boarding home; a casa dos escombros humanos.

— Porque você há de compreender que não se pode fazer mais nada.

Eu a entendo.

Li A casa dos náufragos por acaso, porque minha irmã pegou o livro na biblioteca. Eu não tinha muitas expectativas sobre a leitura, nunca tinha ouvido falar do livro e decidi ler só porque ele é curto e cabe no desafio de Volta ao mundo, representando Cuba.

O livro conta a história de William Figueras, um cubano exilado em Miami que é deixado pela família em uma boarding home, um tipo de asilo, por ter alucinações e um comportamento paranoico. Lá, ele convive com pessoas abandonadas e loucas, sofrendo nas mãos do mesquinho dono do local e do zelador e naufragando na miséria.

É interessante observar as semelhanças do livro com a vida do autor. Guillermo também passou por boarding homes no seu exílio e se decepcionou com a Revolução Cubana, que antes ele apoiava, então ele fala com propriedade sobre o assunto, tornando a história fácil de ser imaginada.

O tom da escrita é seco e enxuto, o que resulta num livro curto. Isso não é um defeito, mas acabou dificultando o processo de conexão emocional do livro comigo e fez A casa dos náufragos se tornar esquecível para mim, pouco marcante. De qualquer jeito, a intenção do autor provavelmente não era emocionar nem nada do tipo, me parece que ele simplesmente quer desabafar, que ele sente a necessidade de escrever.

É uma leitura rápida, eu li facilmente em um dia, mas tem várias camadas psicológicas, filosóficas e históricas por trás do livro. Eu só não fiquei com tanta vontade de ir atrás delas. Sabe quando você sabe que um livro é bom mas não consegue gostar tanto da leitura quanto gostaria? Foi isso que aconteceu.

Avaliação final: 3,5/5

terça-feira, 1 de julho de 2014

Estatísticas: um ano de volta ao mundo

No dia 1 de julho do ano passado, comecei minha volta ao mundo pela literatura. Não fui com muita pretensão, li aquilo que queria sem pensar tanto na nacionalidade dos autores, embora minha irmã, participando do desafio mais seriamente, acabou me ajudando com alguns países mais difíceis. Enfim: em um ano, li 15 livros válidos para meu desafio.

volta ao mundo Os países em vermelhos são os contabilizados para o desafio. Ainda tem muitos lugares fáceis para visitar e espero ler logo algo da Rússia para a parte vermelha ficar gigante.

Como o desafio só conta com autores inéditos, li autores de cinco países que não contaram para o desafio: Pirandello (Itália), Roald Dahl (País de Gales), Jostein Gaarder (Noruega), Katherine Mansfield (Nova Zelândia) e Conan Doyle (Escócia).

Três livros não foram contabilizados para o desafio por eu não decidir qual a nacionalidade do autor: O Rinoceronte, do Eugène Ionesco (Romênia ou França?), Como aprendi o português e outras aventuras, do Paulo Rónai (Hungria ou Brasil?), e Tristão e Isolda, que eu não sei é traduzido ou recontado pela Maria do Anjo Braamcamp Figueiredo.

Em um ano, li cinquenta e dois livros! Um livro por semana, uma boa média para o meu gosto.

Dos 52 livros, foram 15 de autores de quem eu já tinha lido algo antes e 37 inéditos. Foram 16 livros de autoras mulheres e 38 de autores homens (considerando uma coletânea de autores variados como um livro de autoras, por serem maioria, e livros com no máximo 3 autores pelo gênero de cada um), uma estatística um tanto triste, mas que provavelmente seria pior se eu não lesse YA.

A única autora de quem eu li mais de um livro nesses doze meses foi a Veronica Roth, de quem eu li os dois primeiros livros da série Divergente. Li um conto de um livro do John Green antes de ler um livro dele, mas mesmo assim considerei The fault in out stars como livro de autor inédito.

O país que mais apareceu na minha lista de leituras desse ano foi os Estados Unidos. Li 20 livros de lá. Obrigada, imperialismo norte-americano! Depois vem a Inglaterra, com 6 livros, e o Japão, com 3. Empatados com 2 ficam a França, Portugal e o Brasil, mostrando que eu não sou das mais patriotas. E eu leio mais livros dos Estados Unidos do que todos os europeus somados, que vergonha…

Foram 15 países em um ano, faltam apenas 65! Nesse ritmo, em um pouco mais de quatro anos eu terminaria o desafio. Provavelmente isso não vai acontecer, porque logo só vão sobrar países difíceis, mas agora terminar o desafio já não me parece tão impossível.

Minha lista completa de leituras está aqui.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

A ordem de pagamento & Branca gênese, Sembène Ousmane

A ordem de pagamento e Branca gênese

Se, segundo todas as aparências, a desonestidade parecia ter levado a melhor, era obra da época e não de Alá. Aquela época que recusava conformar-se à antiga tradição.

(A ordem de pagamento, p. 59) 

Minha irmã pegou este livro na biblioteca e eu aproveitei e o li também, já que é de um autor do Senegal e não é um país fácil de achar para o desafio volta ao mundo em 80 livros. Meio triste, mas em um ano, este é o primeiro livro africano que eu leio. Aliás, é triste como todos — especialmente as editoras — ignoram a literatura africana. A editora Ática tinha essa coleção de autores africanos, mas acho que ela não é mais lançada. Se não fosse pela biblioteca, minha irmã nunca teria ouvido falar deste livro.

O livro tem duas histórias — eu chamaria de novelas, a editora chama de romance. A primeira, A ordem de pagamento, conta a história de um homem, Dieng, que recebe uma ordem de pagamento do seu sobrinho e sofre para tentar conseguir o dinheiro. Ele precisa de documentos, e para isso precisa de dinheiro, mas sempre que consegue dinheiro divide com as pessoas da sua comunidade. Ele não entende a burocracia no novo espaço colonial. Já Branca gênese trata de incesto em uma sociedade antigamente tradicional, mas agora em crise com seus valores.

Eu gostei bastante da primeira história. Fui ficando angustiada com a demora para conseguir o dinheiro e com como Dieng não conseguia entender o que precisava fazer para consegui-lo. Ou seja, a leitura me prendeu. Já a segunda história eu achei mais complicada. Eu não conheço muitas coisas culturais do Senegal, e embora eu goste de aprender com os livros, também sei que entenderia melhor os livros se conhecesse a cultura antes, e esse é o caso de Branca gênese. A história não é muito especial, se não fosse pelos aspectos culturais que ela traz e que não conheço. E também tem muitos personagens e eu demorei para entender quem era quem.

Enfim, é uma leitura interessante. Apesar de ter algumas dificuldades por aspectos culturais, não é um livro difícil, não tem vocabulário complicado — tem notas de rodapé que explicam termos estrangeiros. Vale a pena dar uma chance para os autores africanos.

Avaliação final: 3,5/5

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Por favor, cuide da Mamãe, Kyung-sook Shin

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Quando ela a repreendia, quase sempre você a chamava de Mamãe. A palavra “Mamãe” é familiar e esconde um apelo: por favor, tome conta de mim. Por favor, pare de gritar comigo e faça um afago na minha cabeça; por favor, fique do meu lado, tenha eu razão ou não. Você nunca deixou de chamá-la Mamãe. Mesmo agora que ela desapareceu. Quando você chama “Mamãe”, quer acreditar que ela está bem de saúde. Que está forte. Que não se incomoda com nada. Que Mamãe é a pessoa que você tem vontade de chamar toda vez que se desespera com alguma coisa nessa cidade.

                                                                                    (Por favor, cuide da Mamãe, p. 24)

Eu tinha vontade de ler este livro desde que ele foi lançado no Brasil. A capa é bonita, a autora é sul-coreana e a temática familiar me interessou. Com o desafio de volta ao mundo em 80 livros, tive mais um incentivo e finalmente pude lê-lo.

O livro é sobre Park So-nyo, uma senhora, mãe de cinco filhos, que desaparece na estação de metrô de Seul. Enquanto tentam achá-la, seus filhos e seu marido relembram de como era a relação entre eles e das coisas que disseram para ela ou que deveriam ter dito.

É uma história um pouco melosa, cheia de arrependimento, culpa e amor. Mas é extremamente real e identificável, o que faz a breguice quase inerente ao tema maternidade se tornar bem aceitável e tocante e não simplesmente barata ou forçada.

A narrativa do livro é feita de forma diferente. Cada capítulo tem o ponto de vista de um membro da família e alguns destes usam a segunda pessoa para tratar do personagem principal no capítulo em questão (como no trecho acima). Apesar de ter entendido que o uso do “você” seja para dar maior identificação com os personagens, não acho que seja tão necessário assim, ou não sei se eu entendi tão bem o motivo o capítulo no ponto de vista do irmão mais velho é em terceira pessoa, e não sei por que é diferente dos outros.

A leitura é rápida e agradável, mesmo tendo momentos tristes e um tom trágico. Você entra rapidamente na história e sai querendo saber mais dos personagens mas sem sentir que faltou algo no livro. Fiquei com vontade de ler mais literatura coreana. Editoras, por favor, tragam mais livros assim para nós.

Avaliação final: 4/5

quinta-feira, 27 de março de 2014

Sua resposta vale um bilhão, Vikas Swarup

Sua resposta vale um bilhão

Alguns dirão que a culpa foi minha. Que eu não tinha nada que me manter num programa de perguntas e respostas. Vão me apontar o dedo e lembrar o que dizem os velhos de Dharavi: nunca se deve cruzar a linha que separa os ricos dos pobres. Ora, onde já se viu um garçom sem um tostão participar de um teste de inteligência? O cérebro não é um dos órgãos que temos permissão de utilizar. Nós só devemos usar as mãos e as pernas.

                                                                                  (Sua resposta vale um bilhão, p. 10)

Ram Mohammad Thomas acabou de ganhar um bilhão de rupias em uma programa de perguntas e respostas na televisão. Ele respondeu corretamente todas as perguntas, o que deixa os produtores do programa muito bravos, pois eles na verdade não podiam pagar essa quantia. E ninguém achou que um simples garçom de dezoito anos pudesse acertar as respostas. Então ele é preso por suspeita de fraude e tem que contar a história da sua vida para mostrar como acertou cada resposta, desde quando o abandonam em uma igreja e ele é criado por um tempo pelo padre até os acontecimentos que o fizeram participar do programa.

Eu assisti Quem quer ser um milionário? quando ele lançou. Achei legal, prendeu a atenção, mas nada muito marcante. Fiquei com vontade de ler o livro, porque acho interessante ler livros de países de culturas bem diferentes da nossa. Estava com um pouco de medo de eu ir lembrando bastante do filme enquanto lia e que assim a leitura perdesse a graça, mas isso não aconteceu por dois motivos: o primeiro é que minha memória é ruim e o segundo é que os dois são muito diferentes. Tem alguns personagens em comum, mas mesmo esses têm personalidades diferentes, e alguns aspectos da história são parecidos como o fato de ele trabalhar em um momento no Taj Mahal ou de ele e Salim serem treinados para pedirem esmola. Mas o livro também tem muita coisa que não aparece no livro, e vice-versa. No livro, por exemplo, Ram passa por muitos empregos diferentes e conhece muito mais gente  tanto as violentas e corruptas quanto as vítimas dessas pessoas.

A leitura foi interessante. É legal ver algumas coisas da cultura indiana que já tinha visto em outros livros, embora eu tenha ficado me questionando até que ponto essa visão da Índia é realista, porque a história de Ram é tão especial e cheia de coincidências que a gente não sabe se a parte da vida dele antes do programa é muito exagerada ou não. E também não entendi bem qual a moral que é para tirar do livro. Ele termina tão bem que parece que quase contradiz as críticas que faz antes. Algo do tipo “você vai se foder durante a vida inteira, mas no final se você acreditar em si mesmo e for um cara do bem vai dar tudo certo, então não se preocupe!”. É uma história muito pessimista para ter um final tão otimista e praticamente tudo se resolver. Não achei coerente, ou melhor, até achei, já sabia que seria assim, a premissa do livro é meio essa. Mas achei brega.

Eu diria que o que eu mais gostei no livro é o seu formato. Os trechos da vida de Ram são contados e depois vem a pergunta no programa relacionada a eles. Desse jeito, vamos ligando os pontos da vida de Ram lentamente, vendo as coisas de forma não cronológica, e eu sempre ficava me perguntando qual seria a pergunta feita, que coisa do trecho que ele contou teria relação com a pergunta.

Para concluir, não acho que seja um livro para qualquer um. Não é uma leitura leve, por ter violências de vários tipos, mas também não é uma leitura de grande densidade psicológica ou pesada, porque a gente não chega a se envolver tanto assim com as desgraças que acontecem, já que logo vem outra em seguida e você esquece da anterior. Mas vale a pena se você gostou do filme ou se se interessou pela história.

 Avaliação final: 3,5/5

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Festa no covil, Juan Pablo Villalobos

Festa no covil

O Yolcault é meu pai, mas ele não gosta que eu chame ele de pai. Diz que somos o melhor bando de machos num raio de pelo menos oito quilômetros. O Yolcault é dos realistas, e por isso não diz que somos o melhor bando do universo nem o melhor bando num raio de oito mil quilômetros. Os realistas são pessoas que acham que a realidade não é assim, como você pensa que é. Foi o Yolcault que falou. (…) “É preciso ser realista” é a frase favorita dos realistas.

                                                                         (Festa no covil, pp. 10-11)

Esta foi a segunda leitura para o Desafio Literário do Tigre. Não estava na minha lista de opções, mas cheguei no fim do mês e não ia ter tempo para ler os outros. E de qualquer jeito eu tenho o livro e ele também estava na lista de leitura há séculos. Talvez não seja a escolha mais apropriada, porque eu não sei se foi a sinopse ou a capa que me fizeram ter vontade de ler o livro, mas se o livro tivesse a capa feia minha irmã provavelmente não o teria comprado. E vale dizer que a capa é bem mais laranja (quase neon), não esse tom coralzinho da imagem.

Festa no covil conta a história de Tochtli, um garoto filho de um chefão do narcotráfico mexicano. Ele mora em um palácio isolado, conhece pouquíssimas pessoas e sonha em ter um hipopótamo anão da Libéria.

O livro é narrado por Tochtli, então é um narrador infantil falando sobre coisas pesadas, sem ter consciência de tudo o que está por trás dos acontecimentos. Mas, diferente de outras histórias, como O menino do pijama listrado, ele tem mais noção do que está acontecendo e, até certo ponto, vive em um ambiente menos inocente. Por exemplo, ele fala com naturalidade sobre armas, morte e crime.

Festa no covil é um livro curto, com menos de cem páginas, e a leitura é rápida e divertida, mesmo com o tema pesado, com personagens engraçados e situações inusitadas. Então além de ser uma leitura com um conteúdo político mais evidente, também — ou talvez principalmente — entretém.

Avaliação final: 4/5

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Tchick, Wolfgang Herrndorf

Tchick Andamos a trinta por hora entre gramados e campos, sobre os quais o sol nascia devagar, em algum lugar atrás de Rahnsdorf, e isso foi a coisa mais bonita e rara que já tinha me acontecido. O que exatamente era raro é difícil de dizer, pois afinal tratava-se apenas de uma viagem de carro, e eu já tinha andado muitas vezes de carro. Mas existe uma diferença entre estar sentado ao lado de adultos que conversam sobre concreto lavado e Angela Merkel e estar sentado sem eles ali e sem ninguém conversando.                         

                                          (Tchick, p. 97)

Tchick é o apelido de um garoto russo, o novo colega na sala de Maik Klingenberg. Maik, o narrador da história, não vai com a cara de Tchick no início, mas muda de opinião quando se vê praticamente sozinho em casa nas férias, sem ter sido convidado para a festa da garota de quem ele gosta. Maik e Tchick, então, vão viajar pela Alemanha em um carro roubado e viver altas aventuras e confusões!

Visto desse jeito, o livro parece um pouco bobo. E é mesmo um pouco bobo, e daí? Mesmo assim, traz reflexões interessantes e têm todo aquele processo de amadurecimentos que road trips costumam ter. Maik sempre se achou um perdedor, um garoto entediante e invisível, mas nessa viagem ele pode conhecer novos amigos e conhecer melhor a si mesmo (mas o livro não é brega como eu estou fazendo-o parecer…).

Eu costumo gostar de livros com narradores meio losers, e não foi diferente com esse. Maik se acha um perdedor e não tem vergonha de narrar sua história com honestidade, tornando a narrativa mais divertida. A narração me lembrou um pouco o livro espanhol Manolito, embora este seja mais sobre o cotidiano e de um garoto mais novo. Fora isso, Tchick também tem outros personagens interessantes, como o próprio Tchick e os problemáticos pais de Maik.

Porém, como nem tudo é perfeito, não gostei muito das cenas de “ação” que tem com o carro e de algumas partes da viagem. Não sei se eu já estava sobre o efeito de leitura por obrigação (porque “tenho” que ler muitos livro este mês) ou justamente por achar as cenas chatas ou mal descritas, mas às vezes começava a viajar — não para os personagens estavam indo — durante a leitura e não entendia exatamente o que estava acontecendo.

Mas acho que vale a dica. Tchick é uma leitura descontraída e deve ser aproveitada sem muitas expectativas. Além de servir bem para quem quer fugir do lugar-comum dos livros de países de língua inglesa — o livro é alemão e eu o li para meu desafio de volta ao mundo em 80 livros.

Avaliação final: 4/5

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Diário da guerra do porco, Adolfo Bioy Casares

Diário da Guerra do Porco

O fato era que de uns meses para cá, talvez anos, havia se entregado ao vício das lembranças; como outros vícios, primeiro divertia e a longo prazo machucava e prejudicava.

(Diário da guerra do porco, p. 13)

Li este livro porque minha irmã o pegou na biblioteca e eu nunca tinha lido algo do Bioy Casares antes e estava curiosa para conhecer, além de servir para o meu projeto de volta ao mundo em 80 livros.

O livro é sobre um senhor aposentado, Isidoro Vidal, que vivia um vida pacata com seus amigos, mas um dia jovens começam uma onda de ataques contra pessoas consideradas velhas, a “guerra do porco”, e os velhos têm que aprender a lidar com isso.

Pela sinopse, o livro parece quase distópico ou fantástico. Mas tudo isso é narrado de forma simples e mundana. Vidal sofre com a situação, mas continua a sair com os amigos e jogar papo fora. O interessante é que esses ataques aos velhos dão espaço para reflexões sobre a velhice e a juventude, e nós leitores podemos pensar tanto sobre a situação atual dos idosos (por exemplo, um ministro japonês disse recentemente que os idosos deveriam se apressar para morrer) quanto sobre outros preconceitos violentos, como quando acontecem ataques homofóbicos.

A leitura é fácil, há muitos diálogos, mas não acontece muita coisa e os capítulos são curtos, então eu não achei muito envolvente, do tipo de precisar ler o próximo capítulo. Mesmo assim, gostei bastante do livro e fiquei com vontade de ler mais coisas do autor. E vou terminar com mais uma citação porque me identifiquei muito com ela:

A vida do tímido não é fácil. Nem bem se encaminhou ao quarto, compreendeu que mais ridícula do que a imagem de um homem entrando no banheiro era a de um homem se retirando porque lhe faltou a coragem de entrar. Havia vergonha maior do que deixar evidente que se teve vergonha?

(Diário da guerra do porco, p. 29)

Avaliação final: 4/5

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Bonsai, Alejandro Zambra

Bonsai

No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos da morte dela, de Emilia. Digamos que ela se chama ou se chamava Emilia e que ele se chama, se chamava e continua se chamando Julio. Julio e Emilia. No final, Emilia morre e Julio não morre.

(Bonsai, p. 10)

Queria ler este livro há um bom tempo. Vi alguns trechos em twitters e blogs por aí e todo mundo elogiava tanto… Então minha irmã resolveu pegar na biblioteca um dia desses para a gente ler.

O livro é sobre o casal Julio e Emilia e o final deles já é dito no primeiro parágrafo (o trecho acima). O livro é muito curto (noventa páginas com pouco texto) e conta desde quando o casal se conhece até quando Julio sabe da morte de Emilia.

Eu estava gostando bastante da história de amor deles, o casal tem uma relação interessante com literatura e vários livros são citados (inclusive As coisas, minha leitura anterior!). Depois que eles terminam eu achei o livro meio sem graça. Tem uma parte um pouco metalinguística, mas eu não gostei muito, prefiro Livro, do José Luís Peixoto, nesse aspecto.

No geral, por ser uma história curtíssima, não dá para se envolver muito com os personagens. Eu sei que a narrativa é curta de propósito, que dá para fazer muitas relações entre o Bonsai do título e o livro em si, como na questão do livro ser um romance em miniatura ou na própria diagramação do livro. Mas no final eu acabei não vendo tantas relações (porque o livro não me animou para me fazer refletir mais) e achei um pouco sem graça. Talvez se eu não tivesse expectativas teria gostado mais do livro…

Avaliação final: 3,5/5

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Livro, José Luís Peixoto

Livro

Acabei não cumprindo o desafio em setembro, mas volto agora no fim do ano para concluir o Desafio Literário lendo pelo menos um livro de cada tema.

O tema era literatura portuguesa contemporânea e decidi ler um livro pelo qual já me interessava há um bom tempo: Livro, do José Luís Peixoto.

A história de Livro envolve uma vila portuguesa, a França, filhos, pais, mães e livros.

Eu não sabia muito bem o que esperar da leitura, tinha um pouco de medo que o livro fosse difícil de entender ou algo do tipo. Não achei difícil no final, mas é o tipo de livro que demora para me capturar. Você precisa estar no clima, concentrado, para gostar, se não a leitura vai ser arrastada — não que isso não aconteça com quase todo livro, mas alguns logo te fazem entrar na história.

Eu comecei não gostando tanto, achando um pouco cansativo, mas aos poucos fui gostando mais e mais e cheguei no final triste por acabar.

Gostei bastante dos personagens, que mesmo simples têm vida própria, e da metalinguagem que aparece principalmente na segunda parte do livro. Recomendo para quem gosta de ler livros sobre livros.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A vingança da Cagliostro, Maurice Leblanc

A Vingança da Cagliostro

Li A vingança da Cagliostro para o Desafio de agosto. Não sabia se Grotescas iria contar, então peguei este na biblioteca para garantir. Como não tinha lido nada do Arsène Lupin antes, quis experimentar.

O livro é sobre Arsène Lupin, um ladrão um tanto peculiar. Nesse livro, ele vai atrás de um senhor para roubar o dinheiro dele e acaba se envolvendo em outro crime, desta vez praticamente como detetive. E o resto da história eu não vou contar porque perde a graça.

O livro é um romance policial e se parece bastante com outros romances policiais, como os de Conan Doyle e Agatha Christie. O que considerei acima da média foi o personagem principal. Lupin é mais carismático que a maioria dos detetives e eu gosto dessa relação ladrão/detetive que ele tem.

Foi uma leitura rápida e divertida. Fiquei com vontade de ler mais livros do Lupin.