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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Um barril de risadas, um vale de lágrimas, Jules Feiffer

Um barril de risadas, um vale de lágrimas

Está chovendo. Não só está chovendo como está caindo neve e granizo ao mesmo tempo. As pedras de granizo, soando aos ouvidos como se fossem tiros disparados, ricocheteiam contra os muros do palácio. Que pensam vocês que Roger diz a si mesmo ao olhar para fora da janela? Diz “Uau! Vou ficar encharcado até os ossos em dois segundos se sair com esse temporal. Mal posso esperar!”.

                                                            (Um barril de risadas, um vale de lágrimas, p. 16)

Um barril de risadas, uma vale de lágrimas é um desses livros que eu queria ler há um tempão, mas por algum motivo não tinha lido até agora. O livro conta a história de Roger, um príncipe que faz todo mundo morrer de rir sem motivo nenhum. Para acabar com esse efeito indesejado, o J. Imago Mago sugere que Roger vá numa busca. Então Roger parte, sem saber exatamente o que vai encontrar no caminho, e passa por uma série de aventuras. Ele entra na Floresta Para Sempre, no Vale da Vingança, na Divisa Perversa, e aprende a se virar, sem ter mais as regalias de um príncipe.

O enredo básico é típico de contos de fadas e mitos, mas Jules Feiffer subverte a maioria dos clichês ou os desenvolve de maneira bem humorada. É legal também como o narrador se mete na história e conta o que vai acontecer depois, ou os processos por trás de narrar uma história, conversando com o leitor. O estilo de Jules Feiffer nesse livro me lembrou um pouco de Desventuras em série, inclusive pelos nomes de lugares e pequenos jogos de palavras.

Bom, não tenho muito mais o que falar do livro. É uma leitura rápida e divertida, que me deixou com um sorriso no rosto. Não foi um livro excepcionalmente marcante, mas não me importo muito com isso. Eu leio para me entreter, e Um barril de risadas, um vale de lágrimas cumpriu bem a função.

Avaliação final: 4/5 

terça-feira, 4 de novembro de 2014

We were Liars, E. Lockhart

We were liars

Welcome to the beautiful Sinclair family.

No one is a criminal.

No one is an addict.

No one is a failure.

(…)

It doesn’t matter if divorce shreds the muscles of our hearts so that they will hardly beat without a struggle. It doesn’t matter if trust-fund money is running out; if credit card bills go unpaid on the kitchen counter. It doesn’t matter if there’se a cluster of pill bottles on the bedside table.

We were Liars foi o livro do mês passado no clube do livro do qual eu faço parte. Eu já estava curiosa para ler, de tanto que o livro foi falado nos blogs literários mundo afora. Só que é complicado: quase todo mundo adorou o livro, mas disse que não era para saber nada da história ou não ter expectativas. Mas como não ter expectativas com todo mundo falando tão bem? Não dá para controlar esse tipo de coisa. Então, bom, eu acabei me decepcionando um pouco.

Enfim, vamos ao que se pode falar da história (mas se você realmente não quiser saber nada da história, pule esse parágrafo ou não leia a resenha): a família Sinclair é rica e tem uma ilha particular. Cadence Sinclair, a protagonista, passa todas as férias nesse ilha com seus primos, até que acontece um acidente do qual ela não se lembra e ela passa a sofrer muito. Depois de um tempo em casa, ela volta para a ilha para descobrir exatamente o que aconteceu no seu acidente.

Gostei bastante do fato do livro mostrar uma família rica, e acho que ele retratou bem os Sinclair. Os conflitos familiares decorrentes do dinheiro são bem interessantes, e o livro não ignora a crítica social, problematizando a vida dos privilegiados.

A história flui bem, mas eu não gostei da narração, que abusa de frases repetitivas e separa alguns períodos em várias linhas só para supostamente ficar poético. E detestei as metáforas de como a Cadence estava se sentindo, achei exageradas e elas não funcionaram para mim, visto que não consegui me conectar com a personagem.

Esse é outro problema do livro, achei a maioria dos personagens insossos. Talvez se eles tivessem sido mais desenvolvidos nos momentos antes do acidente, eu teria aproveitado melhor. E como eu não ligo para os personagens, não gostei do final. Achei-o surpreendente, sim, mas não chocante. Ou quem sabe chocante do ponto de vista negativo. Bem negativo. Enfim, não dá para explicar direito sem falar de spoilers. Tem algumas coisas interessantes no final também, as discussões para o qual ele se abre, mas não gostei do principal.

Se eu recomendo o livro? Acho que sim. Muitos dos problemas que eu tive com ele são questões de gosto pessoal, e no final foi sim uma leitura envolvente e que conseguiu me impactar em alguns momentos — de maneira positiva ou negativa. A questão é que quando o livro é muito bem falado, eu acabo focando mais no que eu não gostei nele e isso prejudica a visão que eu tive dele durante a leitura. Faz sentido? É algo bem idiota e que eu adoraria não ter, mas algumas coisas não dá para evitar, né.

Avaliação final: 3/5

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Flipped, Wendelin Van Draanen

Flipped I’d spent so many years avoiding Juli Baker that I’d never really looked at her, and now all of a sudden I couldn’t stop. This weird feeling started taking over the pit of my stomach, and I didn’t like it. Not one bit. To tell you the truth, it scared the Sheetrock out of me.

Então o tema do Desafio do Tigre desse mês é amor. Um tema tão simples e tão fácil. Mas aí eu tinha um monte de opções e fiquei na dúvida do que ler. A sorte — ou azar — é que esse foi um mês pesado com outras leituras, e acabei tendo que selecionar um livro curto e leve de forma arbitrária. E acertei em cheio, porque Flipped é uma gracinha.

O livro conta sobre a relação de Bryce e Juli. Na primeira vez em que os dois se encontraram, antes da segunda série começar, Juli gruda em Bryce e ele fica assustado. Os dois são vizinhos e passam a estudar na mesma sala, o que deixa a garota muito animada. Bryce, porém, a acha uma obcecada, e tem medo dela. Aos poucos, conforme eles crescem, as coisas começam a mudar e viram de cabeça para baixo.

Flipped é contado pelo ponto de vista dos dois protagonistas, intercalando um capítulo do Bryce com um da Juli. Gostei bastante dessa forma de narrativa porque dá para ver claramente o que cada um pensa do outro e como cada um vê os acontecimentos. É bom também porque a autora conseguiu criar duas vozes bem distintas. Bryce é bem informal e a narração de Juli é um pouco mais séria, embora não deixe de ser engraçada às vezes.

O livro me lembrou bastante daquele filme ABC do amor, por mostrar o amor do ponto de vista infantil, e tem um clima muito forte de comédia romântica, do tipo que tem momentos que você torce para o casal, e aí dá tudo errado e você fica com muita raiva de um personagem, até que algo acontece e você gosta dele de novo… Enfim, o livro não surpreende tanto na estrutura básica do enredo, mas tem aspectos que fogem um pouco do clichê de romance. Como os personagens de Flipped passam da infância à adolescência, conseguimos ver o amadurecimento deles no período e como são suas relações com a família, que ocupa um papel quase central no livro.

Se eu tivesse que dizer um ponto negativo na história, eu diria que faltou falar um pouco das amizades escolares dos personagens. Não entendi direito quem Bryce é na escola, se ele é só um cara qualquer, se é o mais popular… Em cada capítulo eu entendia algo diferente, o que me deixou confusa. E parte de mim ficou decepcionada com o final, porque ele deixa várias coisas em aberto e eu queria tanto saber mais coisas sobre os personagens… Mas meu lado racional gostou bastante do fim. 

Enfim, recomendo Flipped para quem gosta de infantos-juvenis e de leituras leves e fofas. O livro não tem tradução para o português, infelizmente, mas pelo menos tem uma adaptação para o cinema, chamada O primeiro amor, que eu pretendo ver em breve.

Avaliação final: 4/5

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O verão do Chibo, Vanessa Barbara e Emilio Fraia

O verão de Chibo

Assim que o Bruno confirmou o passamento do nosso cascudo, confortando o Cabelo com a mão no ombro, observamos um minuto de silêncio. O Chibo não deixou ninguém ficar triste, e o que se viu em seguida foi o funeral mais suntuoso que houve nos lados de cá da árvore vermelha: meu irmão fez um discurso comprido, eu virei o meu short do avesso para parecer limpo e o Cabelo cantou “Eu Sou um Bolinho de Arroz”, alto e sem chorar, guardando todo o respeito que só as grandes personalidades inspiram.

                                                                                                   (O verão do Chibo, p. 31)

Não é segredo que eu adoro livros com narradores crianças. Sejam eles infantis ou para adultos, gosto de ver como o modo de pensar das crianças é recriado na literatura. Então, quando descobri O verão do Chibo, fiquei logo interessada em ler.

O livro conta a história das férias de verão de um menino, que costumava brincar com seu irmão mais velho, Chibo e outros amigos. Mas, nesse verão, ele é abandonado pelo Chibo sem saber o motivo e se sente rejeitado. As coisas não são mais as mesmas no milharal em que eles ficavam.

A leitura, infelizmente, não ocorreu no ritmo que eu esperava. O livro é curto, com cento e poucas páginas, mas foi difícil de entrar na história e eu demorei mais dias do que esperava para terminar de ler. O narrador tem o seu mundo de brincadeiras e achei complicado entender o que estava acontecendo. Aí, como não consegui entrar na história desde o começo, acabei ficando confusa e desanimada para continuar lendo.   

No entanto, O verão do Chibo tem momentos memoráveis, que causam identificação no leitor e uma saudades da infância. Gostei do trecho que eu separei, porque eu, mesmo sendo uma criança de prédio, também já fiz um funeral para um inseto. Só que ele não era treinado nem incrível como o Bob.

Esse é um dos livros que me deixam em dúvida se o problema sou eu ou eles. Talvez, se eu estivesse mais atenta à leitura desde o começo, teria me envolvido mais. Talvez o livro só não seja para mim. O lado bom de resenhar só por lazer é esse: eu não preciso me preocupar com a resposta dessa pergunta, só sigo em frente para a próxima leitura.

Avaliação final: 2,5/5

terça-feira, 14 de outubro de 2014

O Palácio da Meia-Noite, Carlos Ruiz Zafón

Capa O palacio da meia-noite.indd

A luz nebulosa daquele dia quente e úmido de maio, os perfis dos relevos e das gárgulas do refúgio secreto da Chowbar Society pareciam figuras de cera talhadas à faca por mãos furtivas. O sol se escondia atrás de um espesso manto de nuvens cinzentas e um mormaço asfixiante subia do rio Hooghly para se condensar nas ruas da cidade negra, imitando os vapores letais de um pântano envenenado.

 Esse é o terceiro livro do Zafón que eu leio. Gostei bastante do primeiro que li dele, mas achei superestimado ao mesmo tempo. O segundo eu achei um pouco pior, mas ainda assim foi uma leitura agradável, porque é dessas bem envolventes. Já O Palácio da Meia-Noite não me encantou em quase nenhum aspecto.

O livro tem uma pegada mais juvenil de aventura e mistério, narrando uma história que inclui gêmeos separados ao nascer, uma sociedade de órfãos, trens em chamas e um vilão que é o mal encarnado.

Primeiro problema meu com o livro: a tal da aventura é fraca e é fácil de descobrir algumas revelações, então um pouco do mistério se perde. Mesmo que eu tenha continuado curiosa para saber como os personagens iam descobrir as coisas, o fato de os personagens se separarem no final me irritou. Eu queria continuar lendo a parte do personagem X, aí bem na hora de suspense acaba a parte dele e vem a de outro. Isso acaba cortando o clima que a história tinha se esforçado para criar. E o final é ruim e forçado.

Achei os personagens pouco desenvolvidos. Cada um tem seus gostos e características básicas definidos, mas na hora de agir não dá para diferenciar os garotos. Não consegui me conectar os protagonistas, acabei simpatizando mais com alguns coadjuvantes.

A linguagem do Zafón pessoalmente não me agrada. Não sou fã de metáforas e comparações, acho descrições grandes chatas… Além da questão de gosto, acho que esse é o livro mais mal escrito dentre os que li do autor, o que faz sentido considerando que é apenas o segundo livro dele. Lendo O Palácio da Meia-Noite depois de ler outros livros dele, dá para ver claramente o quanto o Zafón evoluiu.

Enfim, deu para perceber o quanto eu não gostei desse livro. A leitura até que me envolveu, mas achei o enredo tão fraco… Não vou dizer que não indico para ninguém, porém mesmo os fãs do Zafón devem ir com expectativas mais baixas, porque o risco de decepção é grande.

Avaliação final: 2/5

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Ciranda de pedra, Lygia Fagundes Telles

Ciranda de pedra

Virgínia pôs-se a assobiar baixinho (…) Olhou pensativamente a unha do polegar roída até à carne. A verdade é que Bruna e Otávia estavam muito bem sem ela. “E nem pedem para ver a mãe, faz mais de um mês que não aparecem. E a mãe está pior. Bruna diz que é castigo. Conrado diz que é mesmo doença, mas Otávia não diz nada. E Luciana?” Voltou-se para a empregada e ficou a observá-la.

                                                                          (Ciranda de pedra, p. 27)

Ciranda de pedra é outro livro da série minha-irmã-pegou-na-biblioteca-então-eu-decidi-ler-também. Nunca tinha lido nada da Lygia Fagundes Telles antes, e nem sabia sobre o que era esse livro. Eu poderia dizer que terminei a leitura satisfeita, mas a verdade é que terminei com a sensação de decepção, porque não gostei do final. Mas, considerando o todo, gostei muito do livro.

Ciranda de pedra conta a história de Virgínia. Na primeira parte, ela é criança. Seus pais se separaram, ela mora com a mãe, que é doente, e com Daniel. As irmãs dela moram com o pai. Virgínia se sente isolada, sozinha e confusa, sem poder falar sempre com a mãe e não sendo convidada para sair com as irmãs. Na segunda parte, ela é uma jovem adulta que volta para a casa da família. Lá, enxerga as mudanças nos membros da sua família e entende melhor suas relações com eles.

Bom, demorei um pouco para entrar no livro. A narração é intensa e já põe o leitor dentro da história desde o começo. Depois de um tempo passei a entender a situação, e é incrível como dá para entrar na mente da Virgínia, de um modo que se começa a sentir as mesmas coisas que ela. A segunda parte me decepcionou um pouco. Não achei tão fácil entrar no livro de novo, não consegui me conectar tão bem com essa Virgínia mais velha. Continuei gostando bastante, mas não tanto quanto do começo. E aí chegou o final.

Ah, a decepção… Fico um pouco dividida em falar mal do final porque acho que é assim que deveria ter sido. Mas acontece que foi rápido demais; em um momento a Virgínia pensa em uma coisa, depois ela tem uma epifania que não aparece completamente para o leitor — pelo menos na minha interpretação — e pronto, fim do livro. Se o final tivesse sido mais desenvolvido, eu teria gostado mais dele, eu acho.

Mesmo assim, adorei conhecer a narrativa da Lygia Fagundes Telles e fiquei curiosa para ler mais da obra dela. Ciranda de pedra teve seus altos e baixos durante a leitura, mas vale a pena conhecer, especialmente quem gosta de livros com alta densidade psicológica.

Avaliação final: 4/5

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Anime: Usagi Drop

 Usagi Drop 2 Não costumo assistir a muitos animes, porque intercalo com séries e não tenho paciência para ver vários episódios por dia. Mas, desde que eu voltei a assisti-los, senti a necessidade de escrever sobre eles, porque eu acho legal ter textos sobre isso no blog e gosto de me lembrar do que já vi. Ainda não sei se vou falar sobre séries também, porque é meio complicado com as questões de temporada e tal, mas provavelmente vou acabar escrevendo sobre elas também de vez em quando.

Usagi Drop é sobre um homem de trinta anos solteiro, chamado Daikichi, que acaba adotando a filha de seu avô quando este morre. A família não sabia da existência da garota, Rin, até então, e Daikichi, ao ver como ela é tratada pelos outros, decide levar a menina para sua casa. Aos poucos, ele aprende que conciliar os cuidados de uma criança, o trabalho e a vida social não é tão fácil quanto parece.

O anime tem onze episódios de vinte e poucos minutos mais quatro especiais de cinco minutos cada e no final eu queria mais. Nos primeiros episódios, há mais desenvolvimento da história, já que é quando conhecemos os personagens e alguns deles se conhecem pela primeira vez. Depois de um tempo, no entanto, eles se acostumam com a situação e a série se torna mais cotidiana ainda, com fragmentos da vida diária de Daikichi e Rin.

Usagi Drop Usagi Drop não é um anime que tenha um grande desenvolvimento psicológico dos personagens; o que a gente assiste é a interação entre eles. E essa simplicidade, que não exclui o carisma dos personagens, é o que acaba encantando. Além disso, a série trata de um tema importante na vida de todos, a família, e traz aspectos interessantes para reflexão.

A animação, combinando com o resto da série, é simples e bem feita, ajudando tudo a ficar mais fofinho — só de ver as expressões da Rin, já fico sorrindo que nem boba. Essa, aliás, foi a minha reação assistindo ao anime: um sorriso bobo e um coração quentinho. A série traz alguns dramas às vezes, mas no geral é muito leve. Isso é, inclusive, uma coisa que eu achei que poderia melhorar: quase tudo é perfeito demais, acho que poderiam ter ido mais a fundo em alguns problemas.

Usagi Drop foi adaptado de um mangá que foi lançado no Brasil há pouco tempo e é conhecido por ter um final polêmico. O anime acaba antes disso e, embora eu não tenha lido o mangá, acho que essa foi uma boa decisão. 

Na minha opinião, essa é um boa série para quem tem curiosidade em conhecer mais sobre animes, porque não precisa de uma boa base de cultura japonesa e não tem tantas referências. Eu recomendaria para alguém que acha que anime é coisa de criança, por exemplo, para a pessoa ver que existem séries mais maduras e realistas. No entanto, se a pessoa tiver preconceito com qualquer tipo de animação ou não conseguir lidar com alguns clichês de animes, Usagi Drop provavelmente não vai mudar isso.

Enfim, termino a série triste por não ter mais coisa para assistir e imagino que vou revê-la no futuro. Não sei se consegui expressar direito tudo que achei do anime; tenho a impressão de que não. Mas fica a recomendação mesmo se você não tenha entendido nada do que eu falei na resenha.

Usagi Drop 3

Avaliação final: 4,5/5

terça-feira, 30 de setembro de 2014

A casa dos náufragos, Guillermo Rosales

A casa dos náufragos

A única que se manteve fiel aos laços familiares foi essa tia Clotilde, que decidiu cuidar de mim e me hospedou durante três meses em sua casa. Até o dia em que, aconselhada por outros familiares e amigos, decidiu me pôr na boarding home; a casa dos escombros humanos.

— Porque você há de compreender que não se pode fazer mais nada.

Eu a entendo.

Li A casa dos náufragos por acaso, porque minha irmã pegou o livro na biblioteca. Eu não tinha muitas expectativas sobre a leitura, nunca tinha ouvido falar do livro e decidi ler só porque ele é curto e cabe no desafio de Volta ao mundo, representando Cuba.

O livro conta a história de William Figueras, um cubano exilado em Miami que é deixado pela família em uma boarding home, um tipo de asilo, por ter alucinações e um comportamento paranoico. Lá, ele convive com pessoas abandonadas e loucas, sofrendo nas mãos do mesquinho dono do local e do zelador e naufragando na miséria.

É interessante observar as semelhanças do livro com a vida do autor. Guillermo também passou por boarding homes no seu exílio e se decepcionou com a Revolução Cubana, que antes ele apoiava, então ele fala com propriedade sobre o assunto, tornando a história fácil de ser imaginada.

O tom da escrita é seco e enxuto, o que resulta num livro curto. Isso não é um defeito, mas acabou dificultando o processo de conexão emocional do livro comigo e fez A casa dos náufragos se tornar esquecível para mim, pouco marcante. De qualquer jeito, a intenção do autor provavelmente não era emocionar nem nada do tipo, me parece que ele simplesmente quer desabafar, que ele sente a necessidade de escrever.

É uma leitura rápida, eu li facilmente em um dia, mas tem várias camadas psicológicas, filosóficas e históricas por trás do livro. Eu só não fiquei com tanta vontade de ir atrás delas. Sabe quando você sabe que um livro é bom mas não consegue gostar tanto da leitura quanto gostaria? Foi isso que aconteceu.

Avaliação final: 3,5/5

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Love is a mix tape, Rob Sheffield

Love is a mix tape

I have built my entire life around loving music, and I surround myself with it. I’m always racing to catch up on my next favorite song. But I never stop playing my mixes. Every fan makes them. The times you lived through, the people you shared those times with—nothing brings it all to life like an old mix tape. It does a better job of storing up memories than actual brain tissue can do. Every mix tape tells a story. Put them together, and they add up to the story of a life.

Conheci Love is a mix tape: life and loss, one song at a time por aí, em algum blog. A história de um homem que conta sobre o seu amor por música e por uma mulher me lembrou de Alta fidelidade, então fiquei curiosa para ler.

Rob Sheffield, jornalista musical, conta a história da sua vida no livro. Desde os anos de criança e adolescente, quando se preocupava em fazer as mix tapes para os bailes da escola, até a vida adulta, quando se casou com Renée e alguns anos depois se tornou um jovem viúvo, Rob sempre se importou com música. Os capítulos do livro começam com mix tapes que Rob ouviu em algum momento da vida, e a partir disso ele desenvolve suas memórias e suas reflexões sobre música. Há desde capítulos mais cronológicos, em que o autor narra o que estava acontecendo com ele na época e a mix tape é um simples pretexto para isso, até capítulos mais soltos, como o que ele fala sobre as fitas que gosta de ouvir ao lavar louça e como ele lavava louça depois de brigar com a esposa, o que o leva a listar os motivos de briga entre eles.

Em uma autobiografia, é comum que a gente não goste exatamente do peso que cada coisa recebe na história. Eu senti falta de um maior desenvolvimento de Renée. É um livro sobre amor, mas embora Rob repita constantemente o quanto ama sua mulher e o quanto ela fez dele um homem melhor e fale sobre a vida de casados, ele raramente deixa a esposa brilhar sozinha e eu não sinto que a conheci como possivelmente era a intenção de Rob ao escrever o livro. Mas isso não chega a ser um grande problema porque a estrela desse livro é realmente a música.

Há partes do livro bem universais, que falam sobre qualquer um que goste minimamente de música e sobre como ela faz parte da nossa história pessoal. Outras são mais específicas, e o problema disso é que, como não sou tão fanática por música hoje e sou da geração CD ou da MP3, eu não conhecia muitas das referências que aparecem no livro e nem posso me relacionar com a emoção de fazer uma mix tape, visto que nunca fiz uma. Acho legal conhecer músicas novas, mas ao mesmo tempo é difícil conciliar a leitura com a pesquisa pelas músicas bem na hora que elas são citadas. De qualquer jeito, não considero que isso defeito do livro; só faltou uma bagagem musical maior para mim, o que acabou prejudicando um pouco a minha leitura e diminuindo a minha avaliação pessoal. E eu recomendo muito a leitura para quem gosta de mix tapes e do movimento musical dos anos 80 e 90 — uma pena que o livro não tenha tradução para o português.

Love is a mix tape é um livro muito gostoso de ler, e o autor narra com uma sinceridade que faz que a gente vá se envolvendo mais e mais na história dele — por mais que eu tenha achado que Renée poderia ter sido mais explorada em vida, algumas partes após sua morte chegaram a me emocionar, porque Rob é muito honesto sobre seus sentimentos e é fácil de se identificar com ele em vários momentos. Às vezes, mesmo quando ele falava sobre músicas que eu nunca tinha ouvido falar, eu continuava achando a leitura deliciosa, porque esse é o poder de quem escreve bem e escreve sobre coisas que ama. Nesse sentido, acho que acertei com a comparação com Alta fidelidade.

Vou deixar mais um trechinho, sobre a morte do Kurt Cobain, porque eu achei o capítulo sobre isso muito bom e  ele une bem os temas do livro o amor e a música:

The Unplugged music bothered me a lot. Contrary to what people said at the time, he didn’t sound dead, or about to die, or anything like that. As far as I could tell, his voice was not just alive but raging to stay that way. And he sounded married. Married and buried, just like he says. People liked to claim his songs were all about the pressures of fame, but I guess they just weren’t used to hearing rock stars sing love songs anymore, not even love songs as blatant as “All Apologies” or “Heart-Shaped Box.” And he sings, all through Unplugged, about the kind of love you can’t leave until you die. The more he sang about this, the more his voice upset me. He made me think about death and marriage and a lot of things that I didn’t want to think about at all. I would have been glad to push this music to the back of my brain, put some furniture in front of it so I couldn’t see it, and wait thirty or forty years for it to rot so it wouldn’t be there to scare me anymore. The married guy was a lot more disturbing to me than the dead junkie.

Avaliação final: 3,5/5

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Luna Clara & Apolo Onze, Adriana Falcão

Luna Clara & Apolo Onze

O pai de Luna Clara andava por aí pelo mundo, com a chuva sempre chovendo na cabeça dele, desde que (por uma estranha coincidência do destino) ele se desencontrou do seu amor, olha só que coisa mais triste.

Fazia mais de treze anos que o pai e a mãe de Luna Clara se encontraram, se apaixonaram, se casaram e se perderam um do outro, tudo isso em três dias apenas.

Diziam que ele era muito sortudo antes.

Infelizmente, um dia, ele perdeu a sorte.

O primeiro contato que tive com Luna Clara & Apolo Onze foi na livraria. A capa do livro me chamava a atenção sempre que passava na seção infantojuvenil. Mesmo assim, nunca comprei o livro. Não sei se isso aconteceu porque o livro não tinha sinopse fácil de achar ou porque eu tinha preconceito contra livro juvenil brasileiro. Aí a minha fase de comprar livro com preço integral passou, comecei a ver bastante gente falando bem do livro na Internet e fiquei mais curiosa ainda para ler, até que minha irmã o alugou na biblioteca. 

Luna Clara & Apolo Onze, como o título indica, conta a história de Luna Clara e Apolo Onze. Ela mora em Desatino do Norte e espera todos os dias a chegada do seu pai. Ele mora em Desatino do Sul e vive uma eterna festa com os moradores da cidade, mas não sabe o que deseja. Um dia, por uma coincidência do destino, os dois se encontram e, finalmente, dão conclusão a uma história que já os unia desde o começo.

O trunfo do livro é ter um enredo simples e ao mesmo tempo diferente com uma narração gostosa de ler e criativa. A história é um pouco confusa no começo, cheia de personagens com nomes curiosos, mas logo a gente os conhece melhor e passa a torcer para que os desencontros finalmente acabem e a sorte de Doravante volte.

O livro tem ilustrações bonitinhas e é formado por capítulos curtos e fáceis de ler. São trezentas e vinte páginas, mas elas passam bem rápido e não duvido que dê para ler tudo em um dia eu, uma leitora lerda, li em três.

Dos pontos negativos, eu não gostei muito do final dos personagens Luna Clara e Apolo Onze e achei alguns momentos repetitivos. No primeiro caso, isso é puramente questão de gosto. No segundo, sei que a lentidão dos acontecimentos é proposital, mas achei que algumas páginas poderiam ter sido enxugadas mesmo assim.  

Bom, definitivamente recomendo o livro para fãs de infantojuvenis. Eu gostaria de ter lido Luna Clara quando eu era mais nova, mas adorei ter lido agora também.

Avaliação final: 4/5

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Se eu ficar, Gayle Forman

Se eu ficar

(…) acredito que é verdade. Ouço as palavras da enfermeira de novo. Sou eu quem está no comando. Todos estão esperando por mim.

Sou eu quem deve decidir. Agora sei.

E isso me aterroriza mais do que qualquer outra coisa que aconteceu hoje.

Gosto de música, mas não sou fanática por nenhuma banda a ponto de querer ler biografias ou coisas do tipo. Mesmo assim, acho interessante ler livros que tenham a música como parte fundamental do enredo. Meu plano não era ler Se eu ficar para o DL do Tigre, porque eu achava que não tinha música suficiente no livro, mas de repente todo mundo estava falando sobre essa história por causa do filme e eu fiquei curiosa para ler.

A história é sobre Mia, uma jovem violoncelista que sofre um acidente de carro com a sua família. Seus pais morrem e ela acha que morreu também, porque não parece ferida, mas percebe que na verdade ela saiu do seu corpo, e o seu corpo está em coma. Para ficar mais fácil de entender, é como se ela tivesse virado um fantasma sem ter morrido. Ela vai ao hospital, seguindo o seu corpo, e vê as pessoas ao redor, sua família, sua amiga, seu namorado Adam, reagindo ao acidente. Depois ela descobre que tem controle sobre sua saúde, que deve decidir entre ficar ou ir embora, viver e voltar ao seu corpo ou morrer. Por isso, Mia acaba refletindo também sobre momentos marcantes da sua vida.

Não acredito muito nesse poder de decisão de Mia do ponto de vista científico não que eu saiba algo a respeito disso, só costumo ser cética mesmo , mas achei a ideia do livro interessante, retratar a decisão entre a vida e a morte quando já se perdeu muita coisa. Isso destaca o livro de outros vários YA contemporâneos que lidam com os mesmos assuntos: o futuro, o amor, a música…

O livro tem a narração dividida entre o presente, que é constituído dos momentos no hospital após o acidente, e o passado, que são as partes que Mia relembra relacionando-as com o seu presente. Gostei da narrativa ser desse jeito porque deu para conhecer melhor os personagens, sabendo do presente e de como eles fizeram parte da vida da protagonista. Vi algumas pessoas que acharam o livro entediante, reclamando que não acontece nada na história, mas a narração da Mia me prendeu e não achei cansativo em nenhum momento. É um pouco repetitivo às vezes, mas como o livro é curto, isso não chegou a me irritar.

Mesmo tendo achado a leitura envolvente, tive vários probleminhas pessoais com algumas coisas. Primeiro, achei Mia e Adam um pouco entediantes, faltou carisma. Não consegui me conectar com ela ou com vários outros personagens, possivelmente porque muitos deles são perfeitos demais. As partes do livro que mais me emocionaram foram em relação aos avós dela, porque sou bem sensível tratando-se de avós. Além disso, achei estranho que a Mia não descreve a reação de ninguém ao acidente como um todo, e por isso parece que a parte viva da família só se importa com a Mia e que não perdeu outras pessoas no mesmo dia se eu descrevesse a sala de espera no hospital, faria questão de dizer que tinha gente chorando, porque afinal de contas, eles perderam filhos, irmãos… Não é possível que só gostassem da Mia ou que todos estivessem em estado de choque.

Achei interessante o livro tratar de música e de diferenças musicais Mia é da música clássica, seu namorado e sua família são roqueiros , mas revirei os olhos sempre que Mia achava que ela era muito esquisita por gostar de música clássica ou que violoncelo não combina com rock. É curioso, porque ela me parece madura na maior parte do tempo, mas tem seus momentos de grande insegurança. Aliás, justamente por isso que achei Mia sem graça ela é a típica garota de YA normal e insegura. Não é uma falha da autora, só que depende muito do leitor se ele vai se identificar com a personagem. Eu me identifico com várias garotas normais e inseguras, mas não deu certo com a Mia.

Outra coisa que me incomodou foi o final rápido demais. Terminei o livro com aquela sensação de “esse é o fim?”. No fundo, achei o final esperto, mas mesmo assim queria mais explicações. Se eu ficar tem uma continuação narrada pelo Adam que me chamou a atenção pelo trecho que eu li. Talvez eu encontre o carisma pelo qual estava procurando na continuação. Talvez não. De qualquer jeito, Se eu ficar foi uma leitura rápida e que me prendeu, mesmo que eu não tenha conseguido me conectar emocionalmente do jeito que eu queria.

Avaliação final: 3,5/5

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Adeus tristeza, Belle Yang

Adeus tristeza

Ganhei Adeus tristeza de uma amiga. O livro ficou parado por quase dois anos na minha estante, mas finalmente o li! Ele foi o primeiro sorteado da minha TBR jar. Eu provavelmente vou usar pouco o sorteio, já que participo de desafios literários e alugo vários livros na biblioteca, mas quando tenho tempo para ler algo meu fico tão indecisa que achei uma boa ideia fazer uma lista de livros para sortear. 

Adeus tristeza é uma graphic novel autobiográfica que conta a história da família da autora, a partir de conversas entre ela e seu pai, mostrando em seu pano de fundo parte da história chinesa.

Demorou um pouco para eu entrar na história, porque fiquei confusa no começo com os personagens e com as diferenças de tempo — o presente, que é a época da narradora, e o passado, a narrativa que o pai conta. A família da autora é grande e nem sempre é fácil reconhecer quem é quem pelo desenho, mas depois de um tempo a gente se acostuma.

O livro não é tão didático quanto Persépolis na questão histórica, o leitor sabe o que está acontecendo na China apenas a partir do que aconteceu com a família, sem explicações por fora. Isso é bom porque é a ideia do livro mesmo, mostrar como a família foi afetada, mas acho que eu acabaria aproveitando mais se soubesse mais sobre história chinesa antes de lê-lo. Ou seja, eu deveria ter lido o livro quando ganhei e estudava a história da China na escola, já que agora esqueci tudo que tinha aprendido, ops…

A arte do livro não é das minhas favoritas, não gostei muito do traço das pessoas, mas isso é questão de gosto pessoal. De qualquer jeito,  achei bom que a história tenha sido escrita em uma graphic novel, senti que era o meio certo pelo qual ela devia ser contada.

Para resumir, foi uma leitura interessante. Não é minha graphic novel favorita, mas vale a pena para quem se interessa por quadrinhos realistas, sem fantasia ou super-heróis.

Adeus tristeza 2

Avaliação final: 3,5/5

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A volta ao mundo em oitenta dias, Júlio Verne

A volta ao mundo em oitenta dias

Sir Francis Cromarty não deixara de reconhecer a originalidade de seu companheiro de viagem, embora só tivesse podido observá-lo de cartas na mão e entre duas rodadas. Assim, tinha razões para perguntar-se se um coração humano batia sob aquele invólucro frio, se Phileas Fogg possuía uma alma sensível às belezas da natureza, às aspirações morais. Para ele, tratava-se de um enigma. De todos os personagens excêntricos que o general-de-brigada já conhecera, nenhum se comparava àquele produto das ciências exatas.

                                                                  (A volta ao mundo em oitenta dias, pp. 68-69)

Fiquei feliz quando vi que o Júlio Verne era um dos autores do Volta ao mundo em 12 livros. A volta ao mundo em oitenta dias está na estante de casa há muito tempo, e mesmo com minha irmã dizendo que o livro é legal, eu não tinha tanta vontade de lê-lo, por causa da preguiça que tenho tratando-se de clássicos em geral. Mas deixei a preguiça de lado esse mês, e até que me surpreendi.

O livro conta a história muito famosa do excêntrico Phileas Fogg, inglês que aceita uma aposta de dar a volta ao mundo em oitenta dias. Na companhia do seu criado Passepartout, ele viaja pela França, Índia, China e Estados Unidos, entre outros, usando como meios de transporte trens, barcos e até um elefante. Ao mesmo tempo, o policial Fix procura por um ladrão de banco que estranhamente se parece com a figura de Fogg, então ele passa a perseguir o inglês, buscando por um modo de prendê-lo, e entra junto na viagem.

O enredo do livro parece um pouco sem graça. E é, em alguns momentos, em que só são descritos os procedimentos da viagem: em tal horário, eles pegaram um barco para ir a tal lugar, e a viagem foi normal e eles chegaram no outro lugar, e pegaram um trem, etc. Mas mesmo assim eu fiquei curiosa para saber o que ia acontecer, se o Fogg ia ganhar a aposta e como a situação com o Fix se resolveria, então achei o livro envolvente. Além disso, o narrador é bem humorado, e alguns personagens, como Passepartout, são carismáticos, o que melhora a situação quando a história fica cansativa.

O complicado de ler alguns clássicos é se deparar com a visão de mundo da época ou do autor, mais racista e machista do que a de hoje, além de, nesse caso, ser bem eurocêntrica. Júlio Verne não poupa opiniões sobre os lugares por qual Fogg passa, dizendo que indianos fanáticos são “energúmenos” ou que o Japão e a China não são civilizações, além de retratar indígenas norte-americanos como bandidos selvagens. Acho engraçado que alguém que vá escrever sobre uma viagem no mundo não tenha uma cabeça aberta, mas suponho que ele não teria como ter uma cabeça aberta, já que escreveu seu livro baseado em pesquisas e provavelmente no senso comum, e não chegou a ir para a maioria dos lugares descritos.

A outra coisa que me incomodou na obra é o seu final. Eu achei meio inverossímil a questão do Fogg ter conseguido ou não ganhar a aposta, e o final pessoal de alguns personagens me incomodou.

De qualquer jeito, acabei gostando da leitura. Recomendo o livro para quem tem curiosidade em relação a esse clássico, e acho que é uma boa sugestão para leitores mais novos.

Avaliação final: 3,5/5

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

A redoma de vidro, Sylvia Plath

A redoma de vidro

Mesmo sabendo que devia estar agradecida à senhora Guinea, eu não conseguia sentir coisa alguma. Se ela tivesse me dado uma passagem para a Europa, ou para um cruzeiro ao redor do mundo, não teria feito nenhum diferença para mim, porque onde quer que eu estivesse — fosse em um convés de um navio ou num café de Paris ou em Bangcoc — estaria na mesma redoma de vidro, cozinhando no meu próprio azedume.

                                                                                               (A redoma de vidro, p. 170)

Minha irmã leu A redoma de vidro para um clube do livro do qual ela participa e eu aproveitei e li também. Fiquei curiosa para lê-lo desde que vi que várias blogueiras que eu acompanho leram e amaram, mas não fiquei com expectativas muito altas porque pensei que talvez não fosse o tipo de livro do qual eu costumo gostar. Mas o resultado foi bem positivo: adorei o livro.

A redoma de vidro conta a história de Esther, uma jovem americana. Ela sempre foi uma estudante dedicada e conseguiu um estágio em uma revista feminina em Nova York. Depois, quando ela volta para a sua cidade natal, descobre que não conseguiu uma vaga para um curso de férias que queria fazer e se sente mais perdida ainda sobre o que vai fazer depois da faculdade. Logo a sua confusão vira uma vontade de se matar, e Esther passa por uma série de hospitais tentando curar a sua depressão, que na época era vista como loucura.

O início do livro, que conta as aventuras de Esther em Nova York, me lembrou de O apanhador no campo de centeio. Nos dois, vemos uma narração em primeira pessoa honesta e um protagonista que sente que não se encaixa na sociedade. Esther parece estar fazendo tudo que pode para a sua vida dar certo, mas mesmo assim não consegue se sentir feliz e satisfeita. Essa parte do livro, que corresponde mais ou menos a primeira metade, é fácil de ler e é até engraçada em alguns momentos, mas não me deixou tão envolvida, tanto é que demorei uns três dias para ler as suas cem páginas. Foi uma leitura do tipo boa enquanto se está lendo, mas que não me fez sentir vontade de pegar e ler, ou continuar sempre para o próximo capítulo.

No entanto, essa sensação de falta de envolvimento parou quando cheguei na segunda parte, em que Esther se encontra sem direção e sem ânimo. Fiquei muito curiosa para saber que rumo a história ia tomar e o que a protagonista iria fazer — mesmo que eu já soubesse o final da história.

Acho que um dos fatores que faz as pessoas gostarem tanto desse livro é a identificação com a personagem, já que quase todos nós passamos por momentos de dúvida, sobre estarmos no caminho certo, o que devemos fazer... Esther não sabe o que vai fazer da vida — se deve fazer o que é esperado dela, que é casar e ter filhos; se é ter algo seguro, saber taquigrafia para poder ensinar ou usar em um emprego, ou se faz o que quer mesmo fazer, que é ser poetisa e escritora. A única certeza que ela tinha na vida era a de que se dava bem nos estudos e tinha talento para escrever, mas essa certeza é destruída quando sua participação no curso de um escritor renomado é negada. 

Além disso, muita gente já passou por momentos de apatia ou tristeza profunda, e Sylvia Plath os descreve muito bem. Aliás, mesmo que eu não tenha me envolvido tanto no começo, todo o livro é bem escrito, com sinceridade e toques líricos. Isso talvez aconteça porque a própria autora sofreu com a depressão e o livro é cheio de toques autobiográficos, de forma que ela escreveu sobre algo do qual tinha pleno conhecimento.

A redoma de vidro também apresenta questionamentos importantes sobre a condição da mulher. A orelha da edição que li diz que a voz poética de Plath é absolutamente feminina. Quando li isso, fiquei um pouco irritada, porque ninguém diz que um poeta homem tem uma voz masculina, por exemplo. Se a escritora é mulher, tem que dizer que é feminina, mas se é homem, é considerado que ele fala sobre todos. Enfim, o que eu queria dizer é que depois de ter terminado o livro, até entendo o que a sua orelha quer dizer, pois Esther sempre se questiona sobre o papel da mulher e com isso acaba mostrando o machismo da época.

Bom, para concluir, a leitura de A redoma de vidro foi uma experiência marcante para mim, e é um livro que tem crescido quanto mais eu penso sobre ele.   

Avaliação final: 4,5/5

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Delirium, Lauren Oliver

Delirium

Ninety-five days, and then I’ll be safe. I’m nervous, of course. I wonder whether the procedure will hurt. I want to get it over with. It’s hard to be patient. It’s hard not to be afraid while I’m still uncured, though so far the deliria hasn’t touched me yet.
Still, I worry. They say that in the old days, love drove people to madness. That’s bad enough.
The Book of Shhh also tells stories of those who died because of love lost or never found, which is what terrifies me the most.
The deadliest of all deadly things: It kills you both when you have it and when you don’t.

Delirium foi o livro do mês do clube do livro do qual eu participo. Estava curiosa para ler porque gostei bastante do outro livro da Lauren Oliver que eu li, Before I fall, e, apesar de algumas experiências ruins com o gênero, o enredo de distopias YA sempre me atrai.

O livro conta a história de Lena, que vive em um mundo onde o amor é uma doença. As pessoas nascem com chance de pegá-la, mas aos dezoito anos são curadas com uma cirurgia. Além disso, elas têm todo o seu futuro definido com base em uma prova: se vão poder fazer faculdade, no que vão trabalhar e com quem vão casar. Lena estava ansiosa para a sua cirurgia, até que ela conhece um garoto que vai mudar toda a sua visão de mundo.

Sim, é um enredo bem típico de distopias. Feios, por exemplo, também traz uma cirurgia para entrar no padrão da sociedade, e Awaken tem o mesmo enredo do garoto que acorda a protagonista da sua alienação (só um comentário para aliviar a minha consciência: todas as resenhas citadas nesse post são antigas, e eu mudei a minha maneira de pensar quanto ao termo YA. Mas as opiniões sobre os livros continuam as mesmas).

A questão é que Delirium poderia se destacar mesmo assim, com personagens interessantes, uma narrativa diferenciada ou algo do tipo. Mas, infelizmente, não foi o que aconteceu. O livro é clichê em quase todos os aspectos: o enredo é previsível, porque as revelações que deveriam criar tensão são um pouco óbvias; os personagens são típicos de livros YA a garota normal e insegura que tem uma amiga mais rebelde, o garoto que não tem personalidade além de amar a garota e ser lindo —; as descrições dos personagens são repetitivas sempre focando nos olhos e nos cabelos e as de sentimentos e sensações também cada toque é um choque, uma faísca… Bom, pelo menos as descrições de cenário são boas, embora um pouco longas demais para o meu gosto.

Mesmo assim, continuo gostando da crítica que a autora faz, porque não é tão direta. Muitos autores fazem distopias sobre assuntos óbvios e não deixam nada para a reflexão dos leitores, mas a Lauren Oliver me fez pensar bastante é verdade que pensei pouco sobre amor romântico, mas a reflexão de cada um é pessoal. A forma que a autora cria o mundo também é interessante: cada capítulo começa com um trecho de alguma coisa do mundo em que os personagens vivem, como livros históricos ou científicos e canções infantis tradicionais, de forma que vamos conhecendo aos poucos mais sobre a sociedade criada. Ainda falta bastante coisa para ser explicada, mas como o livro faz parte uma série, acho que faz parte.

Enfim, eu não gostei muito do livro e nem pretendo continuar a série, mas é mais por ele não trazer muitas novidades ao gênero do que por ele ser ruim propriamente. Talvez, se fosse minha primeira distopia, eu aumentaria um ponto na minha avaliação.

Avaliação final: 2,5/5

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

A lua de mel, Sophie Kinsella

A lua de mel

Tomo um grande gole de água e tento encontrar lucidez nos pensamentos enlouquecidos. Sejamos sensatos. Vamos pensar sobre isso com cautela. Nós já brigamos? Não. Ele era boa companhia? Era. Gosto dele? Nossa, gosto. Tem mais alguma coisa que preciso saber sobre um marido em potencial?

— Você tem piercing nos mamilos?   pergunto com um mau presságio repentino. Piercing nos mamilos não é uma coisa da qual eu goste.

Fazia um bom tempo que eu não lia chick lit. Costumo gostar do gênero, mas atualmente os YAs já preenchem minha cota de leituras leves e divertidas. E tenho um pouco de preguiça do tamanho dos livros de chick lit. A maioria tem mais de quatrocentas páginas e por mais que em geral passe rápido, não dá para garantir que será uma leitura muito envolvente.

Mas minha tia me emprestou A lua de mel e o tema do mês no DL do Tigre é de livros engraçados, então achei uma ótima oportunidade para ler um chick lit. O livro é da Sophie Kinsella, autora da série da consumista compulsiva Becky Bloom — da qual eu li o primeiro livro e gostei.

A lua de mel conta a história de duas irmãs: Lottie e Fliss. Lottie acha que seu namorado vai pedi-la em casamento, e quando ele não faz isso ela termina o relacionamento. De coração partido, ela acha uma boa ideia se casar com o seu primeiro amor, Ben, logo depois de eles se reencontrarem. Fliss, divorciada e desiludida, acha a ideia péssima e quer fazer de tudo para impedi-la, até sabotar a lua de mel da irmã.

O livro começa interessante, embora seria melhor ainda se a sinopse não falasse nada do enredo, de forma que a surpresa que os personagens sentem poderia ser compartilhada por nós também. Lottie é a protagonista típica de chick lits, uma mulher bem sucedida profissionalmente, romântica, atrapalhada e sem noção. Na maior parte do livro, especialmente no começo, fiquei bem irritada com ela, porque ela faz tantas besteiras… Mas, depois de acompanhá-la por quase quinhentas páginas, no final até torci um pouco por ela. Já Fliss é mais sensata, mas tem sua dose de acontecimentos constragedores  e é controladora em um nível tão alto que não é fácil gostar dela no começo também.

As personagens são irritantes, mas, talvez justamente por isso, são engraçadas algumas vezes, em geral na narração ou nas falas. O problema é que o humor de vez em quando é muito forçado, especialmente as sabotagens que Fliss faz na lua de mel. É exagerado e parece um filme ruim de comédia escrachada. Possivelmente até funcionasse melhor em um filme, aliás… Eu preferi o filme ao livro de Becky Bloom, por exemplo.

Se o começo e a metade do livro tentam ser engraçados — e às vezes conseguem —, o final é muito lição de moral, muito “felizes para sempre” para o meu gosto. E é obviamente previsível desde o começo do livro. Mas mesmo assim uma parte de mim ficou feliz que tudo deu certo, mesmo querendo um toque maior de realidade.

Apesar dos defeitos ou críticas, achei a leitura bem envolvente no final. É do tipo de livro que vai crescendo conforme você vai se apegando aos personagens, por mais chatos que eles sejam. Eu vi muitos fãs da Sophie Kinsella falando que não gostaram de A lua de mel, então eu não sei se eu recomendaria para quem gosta bastante de chick lit. E nem para quem não lê com tanta frequência, porque não duvido que tenha livros melhores do gênero por aí. Mas eu aprovei a leitura e quando tiver vontade pretendo ler outros livros mais famosos da Sophie Kinsella.

Avaliação final: 3/5

(a partir de agora, vou linkar o título do livro na resenha à sua respectiva página no Skoob)

terça-feira, 5 de agosto de 2014

The raven boys, Maggie Stiefvater

The Raven Boys

The raven boys foi muito elogiado por um monte de gente, mas não tinha chamado a minha atenção. Eu não sabia por que, mas logo percebi que era porque eu tenho preconceito contra YA sobrenatural. Desde que Crepúsculo foi lançado, o gênero virou moda e vieram milhões de histórias de amor com vampiros, lobisomens, anjos, zumbis… Aí eu fiquei com birra do gênero. Li alguns tão marcantes que nem me lembro do nome e pronto, preconceito misturado com simples desinteresse. É fato que, atualmente, não sou a maior entusiasta das histórias de fantasia no geral e tenho lido muito mais histórias pé no chão, principalmente passadas na nossa época porque também tenho um ligeiro preconceito/desinteresse em livros históricos, ops. Mas isso é assunto para outro post (esse aqui mostra um exemplo).

Mas enfim, voltando ao livro resenhado. Fui ler The raven boys sem grandes expectativas e sem saber quase nada sobre a história. E como quase sempre acontece quando subestimo um livro, ele me surpreendeu. Comecei a leitura um pouco perdida, porque o livro tem um clima forte de mistério. Mas nos primeiros capítulos a gente já vai entendendo algumas coisas, resolvendo outras e ficando em dúvida sobre o resto. É legal porque nada que aparece na história aparece à toa e muitas coisas têm significados que só serão revelados depois. Deve ser um livro muito legal de reler por causa disso.

Mas depois que a maior parte dos mistérios maiores dos personagens é revelada e sobra o desenvolvimento da parte fantástica, o livro perdeu um pouco da graça para mim. Um dos motivos de eu não ler tanta fantasia hoje é ter preguiça de descrições, e em The raven boys tudo é descrito nos mínimos detalhes, o que deve ser um ponto positivo para muita gente, mas para mim é cansativo, ainda mais lendo em inglês. E como o livro faz parte de uma série de quatro livros, o final termina em aberto e, não sei, senti falta de alguma explicação, de uma pista sobre para onde o livro está indo — mas provavelmente teve alguma pista e eu que não captei…  — porque tenho medo de ser como Lost e abrir um monte de mistérios e não oferecer uma explicação convincente.

O paralelo entre The raven boys e Lost pode parecer meio estranho, mas faz muito sentido na minha cabeça, porque por mais que a parte fora da realidade das duas pode me decepcionar, o que eu gosto mesmo é dos personagens. O livro tem possivelmente os personagens mais interessantes de YA que eu me lembro de ter lido. Os garotos corvos são interessantes, diferentes uns dos outros e bem desenvolvidos, e a família de Blue, a protagonista, também é bem curiosa. E é legal que a parte romântica ~ainda~ não está bem desenvolvida, porque a gente não fica lendo três mil vezes sobre como fulaninho é lindo e gostoso — embora o livro tenha uma certa repetição: falando sobre como Gansey é rico, e tem cara de rico e se veste como rico, etc. Um pouco cansativo, mas é realista, as pessoas gostam de ficar repetindo sobre como as outras são ricas (quem nunca teve inveja, né?).

Para concluir, o saldo do livro foi muito positivo. Embora eu esteja um pouco insegura sobre o caminho que a série vai tomar, muitas das coisas de que eu não gostei no livro não são por falha da autora, e sim por gosto pessoal meu. Eu vou passar a prestar mais atenção em livros de YA sobrenatural muito elogiados, mas continuo com um pouco de preguiça deles — quase tudo é série! Não tenho paciência para ficar esperando o lançamento do livro, e depois ter que reler o anterior porque esqueci a história, e esse tipo de coisa.

Avaliação final: 4/5

P.S.: Não botei citação porque não encontrei nenhuma que tivesse o espírito do livro e não fosse spoiler. Percebi também que não falei nada do enredo, mas não vou falar nada porque é melhor ler sem saber.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

The Garden Party, Katherine Mansfield

The Garden Party

It seemed to him there was a tiny pause but long enough for him to suffer torture before her lips touched his, firmly, lightly kissing them as she always kissed him, as though the kiss how would he describe it? confirmed what they were saying, signed the contract. But that wasn’t what he wanted; that wasn’t at all what he thirsted for. He felt suddenly, horribly tired.

                                                                                                 (The garden party, p. 227)

Minha primeira experiência com os contos da Katherine Mansfield aconteceu em 2011. Apesar da resenha não ter sido das mais positivas, a experiência foi proveitosa e fiquei com vontade de ler mais coisas da autora. Então encontrei The garden party em um sebo por apenas quatro reais (uma edição um pouco surrada, é claro), decidi comprar e aproveitei a leitura para um trabalho de faculdade sobre contos. Li o livro há uns meses, na verdade, mas não o resenhei até agora por preguiça.

The garden party tem alguns contos em comum com o livro dela que eu li antes, como At the bay, que me lembra muito To the lighthouse, da Virgina Woolf, e Miss Brill, que na primeira vez que li achei sensacional e agora não vi tanta graça.

Bom, como a minha resenha do outro livro dizia, Katherine Mansfield definitivamente não é uma leitura rápida. Seus contos utilizam bastante fluxo de consciência e se você não estiver no clima certo para entrar na cabeça dos personagens, a leitura pode se arrastar. Mas, uma vez dentro dos contos, o livro fica incrível, a prosa fica deliciosa e não sei mais que elogios fazer.

É verdade que quando leio para a faculdade, meu olhar fica mais analítico e acabo achando as coisas melhores do que quando leio por entretenimento, mas faz parte — e me considero sortuda por isso, considerando que muita gente perde o prazer de ler quando o faz por obrigação. O fato é que não existe leitura totalmente imparcial, e o jeito que nós lemos determina muito o que vamos achar do livro.

Atualmente tenho prestado mais atenção na representação das mulheres na literatura e a Katherine Mansfield certamente fez um bom trabalho. Suas personagens são humanas e estão em diferentes fases da vida, que são bem retratadas. Há também uma crítica social a opressão da mulher, vista em elementos como o casamento. Vemos maridos possessivos, desinteressados e egoístas.

Eu fico meio triste ao ver que muita gente não gosta de ler contos. Entendo que nem sempre são leituras fáceis, porque é difícil de ler tudo em seguida, e em um livro de contos o nível de qualidade deles sempre varia, mas um único conto às vezes pode marcar o leitor mais do que vários romances. Então fica a recomendação de ler Katherine Mansfield.

Avaliação final: 4,5/5

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Vaclav & Lena, Haley Tanner

Vaclav & Lena

Não podiam saber que muitas coisas ruins viriam com aquele dia junto com as coisas boas. Não sabiam que as coisas boas iriam acontecer e interagir com as ruins como elementos químicos e torná-las piores, e o contrário também. Não sabiam que Vaclav e Lena iriam passar pelo famoso Coney Island Sideshow e ver truques de mágica, e ver Heather Holliday em seu biquíni dourado de franjas pela primeira vez. Não podiam saber que isso seria o começo de tudo.

                                                                                                       (Vaclav & Lena, p. 69)

Desde que vi essa bela capa, fiquei com vontade de ler Vaclav & Lena. Mas o livro recebeu críticas variadas e a autora era desconhecida, então era arriscado comprar assim, sem pensar melhor. Até que ele ficou em promoção no Submarino, por pouco menos de quatro reais, e fui correndo comprar.

Como o título sugere, o livro conta a história de Vaclav e Lena, que são dois imigrantes russos morando em Nova York. Vaclav quer ser um mágico famoso, e Lena seria a sua assistente. Eles se conhecem quando crianças, e ficam amigos logo, mas depois de um tempo são obrigados a se separar. Vaclav não sabe para onde Lena foi até que, alguns anos depois, ele descobre o que aconteceu.

A história começa com eles crianças, com uns dez anos, e eu gosto muito de narrativas infantis. Com essa não foi diferente, embora eu tenha achado a narração um pouco estranha no começo. Pelo que li em resenhas do livro em inglês, talvez esse estranhamento venha da tentativa de escrever o livro como alguém imigrante aprendendo a falar inglês. Pela tradução, não consegui sentir isso tão claramente, mas de qualquer jeito não saberia se isso seria um ponto positivo ou negativo para o livro.

Gostei muito dos personagens. Me identifiquei em vários aspectos com a timidez e a confusão de Lena — felizmente sem ter vivido o turbilhão emocional que ela viveu. Vaclav é aquela criança otimista e esperançosa, de quem eu fiquei com um pouco de dó porque a realidade é muito pior, mas também de inveja porque seria bom ser como ele. Outro destaque fica para Rasia, a mãe carinhosa de Vaclav.

Achei interessante o fato da história envolver imigrantes russos, embora eu tenha visto gente que sabe mais do tema dizer que eles não foram bem retratados. Então eu fico meio em cima do muro nesse aspecto, porque por mais que os clichês russos não tenham me incomodado, sei que se fosse com imigrantes brasileiros ou japoneses, eu ficaria brava.

O livro teria ficado com quatro estrelas, se não fosse pelo desenvolvimento do final. O final em si é muito bonito, mas achei um pouco raso e forçado considerando algumas coisas pesadas que aconteceram e não foram bem desenvolvidas. Vaclav & Lena tenta ficar em um otimismo que não se sustenta pelos próprios acontecimentos da história, e isso me incomodou. Se a parte ruim da história tivesse sido mais explorada, o final se encaixaria bem, mas como não foi fiquei sentindo falta de algo.

Enfim, Vaclav & Lena na maior parte do tempo é uma leitura agradável e delicada, e apesar de algumas coisas terem me incomodado, vale a pena para quem se interessou.

Avaliação final: 3,5/5

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Whip it, Shauna Cross

Whip it

I love the way the wind whips through my hair at practice as I fly through the turns, sitting low, leaning into the track for maximum speed. My life feels like it has been so slow for so long, it’s fun to finally be going fast.

Eu queria ler esse livro desde que ele foi lançado no Brasil, com o título de Derby girl. Lia vários livros adolescentes nessa época e gostava de ler livros cheios de referências musicais e à cultura pop. Derby girl parecia entregar isso, além de focar em um esporte interessante e pouco conhecido. E, preguiçosa como sou, demorei muito para ler o livro. Só fui lê-lo agora, em inglês e depois de ter visto a metade final do filme na televisão há um tempo.

Bom, o livro conta a história de Bliss Cavendar, uma jovem moderninha de dezesseis anos que mora em uma cidadezinha conservadora no Texas. Ela se sente presa lá, ainda mais vivendo com uma mãe louca querendo que as filhas sejam vencedoras de concursos de beleza. Então Bliss descobre o roller derby, esporte que só as garotas cool praticam. Como Bliss tem como meta de vida ser cool, ela vai correndo participar, e descobre um lugar do qual ela gosta de pertencer — estou tentando, mas está difícil não terminar sinopses com chavões.

Se alguém quer ler o livro porque tem o interesse em conhecer o esporte, eu já digo: ele é pouco desenvolvido no livro. As regras não são explicadas e tem poucas cenas da prática do esporte em si, que foram um pouco difíceis de entender para mim — não sei se porque estavam mal descritas ou porque sou ruim em imaginar cenas de movimento. Ou seja, se você não conhece roller derby, continua sem conhecer depois de ler o livro. A sorte é que eu já tinha visto o final do filme, se não seria muito mais difícil de visualizar as cenas.

Além disso, toda a parte envolvendo o roller derby, as amizades que ela fez, a rotina do treino, não aparecem direito. Bliss, que é a narradora do livro, conta demais e não mostra o suficiente. A gente tem que acreditar quando ela diz que as meninas do treino dela são legais e que ela está adorando o roller derby, mas eu não senti isso de verdade, não vi tantas cenas que justificassem essas coisas, por exemplo. Achei os personagens planos, e muitos tinham potencial para mais desenvolvimento, como as praticantes de roller derby, que não têm personalidades distintas, a Pash e a mãe de Bliss.

Então, curiosamente, o fato do livro ser curto e rápido é uma qualidade e um defeito. Qualidade porque às vezes a gente só quer se distrair com um livro e defeito pela falta de profundidade.

O livro tem algumas lições legais, é uma história de amadurecimento interessante, e eu achei envolvente, mas certamente não é para todo mundo. Eu me irritei bastante com a Bliss no começo, porque ela é imatura, fica se achando a cool — e se sente muito superior por isso — e fala em linguagem adolescente demais. Mas aos pouco me acostumei, e sei que faz parte da fase em que ela está… Talvez se eu tivesse lido o livro quando ele foi lançado teria me identificado mais.

Avaliação final: 3/5

Sobre a adaptação para o cinema:

Whip it 2 Faz tempo que eu não faço comparação livro e filme, mas achei que Whip it merecia — ou melhor, se eu não assistisse ao filme logo depois de ler o livro, eu provavelmente não assistiria nunca.

O filme em português se chama Garota fantástica, é dirigido pela Drew Barrymore, tem a Ellen Page como Bliss e o roteiro é da Shauna Cross, a própria autora do livro.

O filme desenvolve mais o esporte do que o livro. Se o livro é principalmente uma história de amadurecimento pessoal, o filme é também uma história de superação esportiva. Isso porque o time da Bliss era de perdedoras pouco comprometidas com o esporte, mas elas logo sentem um gostinho de vitória e gostam disso — vale dizer que o livro e o filme terminam de modo diferente.

As praticantes de roller derby também aparecem mais e são mais desenvolvidas — destaque para a rival interpretada pela Juliette Lewis. Não sei se toda a dinâmica do esporte foi bem representada no filme, se corresponde à realidade, mas pelo menos deu para sentir um gostinho do que é o roller derby.

Como o foco do filme é esportivo, algumas coisas que eram mais desenvolvidas no livro não tiveram a mesma importância na tela, como a amizade da Pash e a parte romântica. Não que elas tenham sido ignoradas, mas enquanto no livro achei que a parte do roller derby ficou meio solta, no filme as relações pessoais principais da Bliss ficaram um pouco fora de lugar.

Eu sempre acho engraçado ver a adaptação logo depois de ler o livro, porque reparo nos diálogos e nas cenas iguais nos dois e muitas vezes acho isso ruim, porque alguns elementos ficam meio estranhos sem o contexto que tinham no livro. Mas, se eu visse o filme bem depois, provavelmente não ficaria comparando tanto e não repararia nessas coisas.

Enfim, o filme continua tendo vários clichês de filmes esportivos e de adolescentes, mas para quem gosta do gênero vale a pena, especialmente por ser um filme que deixa evidente a força feminina. E Whip it passa no teste de Bechdel com uma facilidade… 

Avaliação final: 3,5/5